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Geração democracia: parte final_A biblioteca e as ruínas

    Brasil: “Se queremos imaginar outros futuros, o presente coloca como tarefa repensar o próprio tempo e buscar referências que escapam à imaginação ocidental, historicista e linear” CRÉDITO: PEDRO FRANZ_2025

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Geração democracia: parte final_A biblioteca e as ruínas

O que fazer depois do fim das ilusões

José Henrique Bortoluci | Edição 231, Dezembro 2025

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Os olhos da santa eram vivos demais, e com seu pé esquerdo ela esmagava a cabeça de uma cobra. Ele, com 9 anos, usava uma batina branca, às vezes com uma estola vermelha jogada sobre os ombros, e esperava sua vez de atravessar a porta da sacristia e caminhar para o altar; ali, interpretaria o Messias multiplicando pães, ressuscitando mortos, pregando aos discípulos. Ele se lembra até hoje dos olhos vítreos da santa, azuis como o véu que ela usava; aqueles olhos que pareciam contemplá-lo, mesmo quando ele se movia pela sacristia escura, onde muitas vezes aguardava sozinho o momento de sua entrada teatral a cada domingo, nos últimos anos de sua infância e durante toda sua adolescência.

Os sábados eram os dias de decorar as falas de Jesus e de ensaiar para a encenação do dia seguinte. Hoje, ele não guarda na memória as falas de nenhuma peça, mas não se esquece do olhar da santa, que evitava a todo custo, mesmo que para isso tivesse que se fixar na cabeça esmagada da cobra que agonizava sob os pés da mãe de Cristo. Por anos sonhou com aquela face assombrada da imagem de Nossa Senhora, fria, imóvel, e antes de dormir rezava para que ela não aparecesse em sonho ou no escuro de seu quarto (era uma época de aparições de santas pelo país, nos anos de passagem de milênio, e a imagem de Jesus e de santos se plasmava em janelas ou em feridas, para aclamação dos fiéis e o deleite de programas de tevê).

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