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Ilhados na Rocinha

Reféns do tráfico ficam sem vestibular

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

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No dia 17 de setembro, Brena Carvalho programou o despertador para as seis e meia. Era cedo para um domingo, mas ela queria acordar sem sobressaltos. Assim teria tempo de sobra para ir com calma até o colégio onde faria a prova da primeira etapa do vestibular da Uerj, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sua casa, na favela da Rocinha, Zona Sul carioca, fica a 25 minutos do local da prova, próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas.

Carvalho, uma morena de 17 anos e longos cabelos pretos, concorre a uma vaga no curso de pedagogia. Já trabalha como professora numa escola infantil da Rocinha, depois de se formar na Escola Normal em 2016. Nas semanas anteriores, ela havia feito vários simulados, e ainda estava viva em sua memória a história de Macabéa, a protagonista de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, um dos livros no programa do vestibular. “Me preparei o ano inteiro”, disse ela à piauí dias depois.

Pouco antes de sair, a jovem ouviu uma rajada intensa de tiros na vizinhança. Pensou consigo mesma: “Não acredito, justo hoje!” Em pouco tempo, seus familiares estavam de pé, preocupados com os tiros e com a aflição da moça.

O estopim para a troca de tiros foi a disputa pelo comando do tráfico de drogas na Rocinha envolvendo duas facções criminosas. A batalha opunha os aliados de Rogério 157, atual líder do narcotráfico, apoiado pelo Comando Vermelho, e os parceiros de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o “Nem”, ex-chefe da atividade criminosa no morro, com o suporte dos Amigos dos Amigos. Do presídio de segurança máxima onde está detido desde 2011, Nem ajudou a articular a contraofensiva para retomar o controle da favela.

Com pouco menos de 145 hectares – mais de metade da área ocupada pelo bairro do Leblon –, a Rocinha é a maior favela do país e conta com 70 mil habitantes segundo as estatísticas oficiais, contestadas por lideranças comunitárias, para quem a população local passa de 100 mil pessoas. Os vestibulandos que moravam perto das principais saídas da comunidade conseguiram chegar até o local da prova. “Mas como minha casa fica no meio da Rocinha, eu não podia arriscar”, disse Carvalho.

Às sete da manhã, ela ainda tinha esperança de conseguir sair para fazer o exame, que começaria às nove. “Se as coisas acalmarem vai dar tempo”, repetia para si mesma. Às oito e meia, quando os tiros ainda cruzavam o céu, ela jogou a toalha e desabou a chorar de revolta. “O rico que mora do lado da minha casa, que já teve mais oportunidade nos estudos, conseguiu chegar, e eu, não.”

Como ela, outros doze vestibulandos da Rocinha perderam a prova. Naquela manhã, relatos de frustração entupiram o grupo de WhatsApp do Pecep, o pré-vestibular comunitário onde Carvalho se preparava para a prova. Criado em 2001, o cursinho é abrigado na Escola Parque, frequentada por alunos da classe média-alta da Zona Sul. As mensagens que circularam no grupo pintavam um cenário de guerra civil: traficantes armados, casas alvejadas e até corpos incinerados. Diante dos relatos, os diretores do Pecep recomendaram que os alunos ficassem em casa.

 

O conflito na Rocinha continuou na semana seguinte. Alguns dias após a prova, mais de 900 soldados do Exército ocupavam o morro, a presença da Polícia Militar foi reforçada e o Bope – a divisão de elite da PM – entrou na favela em busca de traficantes que se escondiam pelas matas no entorno. Nas operações, 21 pessoas haviam sido presas e seis mortas até o fim de setembro.

Mesmo em meio ao fogo cruzado os alunos queriam voltar para o cursinho, mas os professores acharam arriscado – a Escola Parque recebera recomendações da polícia para suspender suas atividades. O conteúdo das aulas foi enviado pela internet para que os estudos não fossem interrompidos.

Alunos e professores se reencontraram na quarta-feira, dia 20, quando a situação parecia mais calma. Os diretores traziam uma boa notícia: tinham conseguido uma audiência com a reitoria da Uerj. Os alunos comemoraram, esperançosos de que ganhariam outra chance de fazer o vestibular. Mas a aula daquele dia teve que ser interrompida. Um forte tiroteio forçou-os a esperar para voltarem para casa em grupo, sob a supervisão dos professores.

No dia seguinte, os diretores do cursinho foram recebidos na Uerj. Segundo eles, a reitoria lamentou que alguns alunos tivessem perdido a prova, mas alegou que não podia ir contra o edital, que delega ao candidato a responsabilidade por se locomover até o local do exame. “Argumentaram que o direito de ir e vir é uma responsabilidade do Estado, e não da Uerj”, disse Mariana Alves, uma das diretoras do Pecep. Os professores pretendem acionar o Estado para que seus alunos possam fazer a prova.

 

O vestibular realizado em setembro seleciona os alunos que cursarão o primeiro semestre letivo de 2018 na Uerj, uma das instituições mais afetadas pela crise econômica que atinge o estado do Rio. O atraso do calendário se deve às greves e às condições precárias para as atividades acadêmicas na universidade, que desde 2015 tem atrasado o salário de servidores e prestadores de serviço.

A primeira fase do vestibular da Uerj é oferecida em duas datas distintas – os candidatos que fizerem ambas as provas podem optar pela maior nota. Como Brena Carvalho havia feito o primeiro teste em julho, sua ausência no exame de setembro não a eliminará do processo seletivo.

Nem todos os candidatos tiveram a mesma sorte. Foi o caso de um aluno de outro cursinho pré-vestibular comunitário que atende moradores da Rocinha. Como não tinha dinheiro para fazer as duas provas – a taxa de inscrição é de 60 reais –, decidiu encarar apenas a de setembro. Sem conseguir sair de casa, terá que esperar até o ano que vem para tentar o ingresso na Uerj.

O rapaz – que preferiu não se identificar – marcou um encontro com a piauí no domingo seguinte ao da prova numa das ruas mais movimentadas da Rocinha. Naquela tarde, policiais e soldados do Exército revistavam carros e motocicletas que subiam e desciam o morro. Helicópteros davam rasantes sobre a mata que circunda a comunidade em busca de traficantes. Vinte minutos após o horário combinado, o vestibulando mandou uma mensagem cancelando o encontro. Como sua mãe não estava em casa, ele não poderia sair. “Não posso deixar minha irmã sozinha”, justificou-se. “A situação está instável.”

Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista

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