cartas raciais

Letras sensatas: Aos meus amigos brancos

Espero muito de vocês nesse trabalho árduo de se tornar antirracista

Ligia Lima
“Escolho usar minha voz para lhes pedir: chega, se importem de verdade com as vidas negras”
“Escolho usar minha voz para lhes pedir: chega, se importem de verdade com as vidas negras” CREDITO: VÂNIA MIGNONE_2020

Esta é uma das cartas raciais que a piauí publica na edição julho. O texto a seguir foi escrito por uma profissional de relações públicas negra, que há pouco descobriu que suas raízes africanas estão na Nigéria e em Angola. O outro é de uma historiadora branca, descendente de alemães, russos e marroquinos. Ambas se dirigem aos mesmos leitores – os brasileiros brancos, que são 43% da população, e cuja atitude pode fazer enorme diferença na luta contra o racismo tal como ele resiste há séculos no país: recalcado na superfície, hipócrita na expressão e violento na realidade.

Com a eclosão dos protestos antirracistas a partir dos Estados Unidos, a relações públicas Ligia Lima, de 34 anos, tem “celebrado com discrição a insurgência do que é invisível, mas óbvio” e faz um apelo aos amigos brancos: “Não sejam ingênuos: viver de forma sustentável mesmo é ouvir os pretos, investir nas ideias geniais que nascem e diariamente morrem nas favelas e periferias do Brasil.” A historiadora Keila Grinberg, de 48 anos, que ficou “surpresa e ofendida” na primeira vez em que foi chamada de “intelectual branca” em um debate público, faz um paralelo entre a classe média que não consegue dispensar a empregada doméstica durante a pandemia e os senhores de escravos do século XIX, que diziam não gostar da escravidão, mas, lamentavelmente, não tinham como viver sem os escravos.

*

Queridos,
Cuidem de seus amigos negros, se é que vocês têm outros além de mim. Perguntem como eles se sentem e estejam preparados para acolher qualquer resposta. Não sejam superficiais nem exagerados, encontrem um equilíbrio. Agradeço as dicas e links que vocês têm me enviado nas últimas semanas. Fico feliz quando me enxergam de verdade e sabem do que vou gostar. De toda forma, sejam cuidadosos ao compartilhar comigo conteúdos que só agora descobriram ser valiosos. Tenho minhas próprias referências, minha vida sempre foi essa busca por um norte, por aquilo que tantas vezes tentamos avisar ser importante, embora só hoje vocês pareçam reconhecer o tamanho da nossa urgência.



Por favor, não dissertem sobre sua indignação e seu desesperado envolvimento com a “causa”. Não sejam como aquele estabanado gigante branco, culpado e salvador, que decidiu um dia acordar. É bom ver vocês despertarem, mas não achem que é o bastante. A partir de hoje, teremos que marchar juntos, elegantemente, em direção ao futuro onírico que desejamos.

Sou otimista, como sabem. Tenho celebrado com discrição a insurgência do que é invisível mas óbvio. Isolada em minha casa, entre incensos, plantas e cristais, ritualizo a bênção que é podermos expandir a consciência, sendo agora capazes de ver o que antes não percebíamos. Com a mente atenta, sinto se aproximar o começo do fim dessa situação desumana e absurda, da qual, devagar, vamos nos libertar. Não se afobem, ainda temos muito a aprender sobre a maravilhosa experiência de vida dos meus antepassados, antes de aquela gente sem noção começar a ditar regras ridículas e destruir tudo.

Demonstrem afeto sincero. Ajam como se, de fato, vidas negras importassem para vocês. Quando digo vidas, não me refiro apenas às que perdemos violentamente num crime com motivação racial. Essas vidas, além de importarem, devem ser honradas. O mesmo ódio que matou João Pedro Mattos Pinto e Miguel Otávio Santana da Silva também matou minha bisavó Maria Salomé, que nasceu em uma senzala baiana, no berço do Brasil Colônia, e de quem sei tão pouco.

Há algum tempo, curiosa, iniciei uma investigação profunda sobre a vida dela e descobri que minhas raízes africanas estão na Nigéria e em Angola. A única evidência que tenho disso é um teste de DNA comprado numa farmácia dos Estados Unidos. Essa descoberta me trouxe muita alegria e um senso de pertencimento que eu nunca havia experimentado. Se algum de vocês souber onde tiro minha cidadania nigeriana, por favor me avise. Acredito que ela vale muito mais que a cidadania europeia de vocês.

Queria poder contar muito mais sobre as minhas origens, mas elas foram sequestradas e queimadas no mesmo fogo que agora incendeia o debate racial e mobiliza vocês. Me tiraram o direito à memória, imaginem só. Felizmente, isso nunca me impediu de sonhar com a história que lhes conto hoje e de passar a vocês um pouco do meu encanto, ciente de minha tradição griot. Aliás, deve haver outro nome para isso. Descobri há pouco tempo que foram os colonizadores franceses que chamavam de griot as pessoas que, na África, transmitiam oralmente as tradições de um povo. Perversos, os invasores tentaram exterminar os sistemas linguísticos dos meus ancestrais, que, ainda assim, inventaram novos. A inteligência do meu povo sempre nos salvou.

 

Tenho espírito aventureiro, vocês me conhecem. A criança em mim brinca, ingênua e esperta, de desvendar esse legado que é um enigma, de montar esse quebra-cabeças de peças intangíveis, a fim de entender de onde vim e que tipo de ancestral serei. Queria que vocês tivessem visto a inocência em meus olhos ao pisar no continente africano pela primeira vez. Eu não tinha a menor ideia do que me esperava. Só sei que fui completamente embalada pelo colo da mãe África. Parece que todas as minhas células se regeneraram. Eu nunca mais fui a mesma.

Foi parecido em Portugal, mas nem se compara. Aquele teste de DNA comprovou que a essência exploradora do povo colonizador também corre em 27,6% do meu sangue. É o que torna minha pele negra um pouco mais clara e faz vocês me aceitarem um pouco melhor que meus irmãos de pele retinta. O colorismo é uma das tecnologias do racismo que mais me afetam. Me deu a possibilidade de navegar por mares que poucas pessoas negras navegam, mares que não deixam, entretanto, de ser atingidos por tormentas. Também me permitiu conviver com vocês, que são maravilhosos, mas são igualmente opressores e, sem perceber, violentam a negritude em mim.

Minha jornada pela Terra é em honra e agradecimento à vida de Maria Salomé e tantos outros cujo nome desconheço, mas que, tenho certeza, rezaram todos os dias para minha vida ser melhor que a deles. A constituição amorosa do meu povo me diz que é meu dever ser próspera. Essa história de a felicidade, a fartura e a segurança não serem direitos de todos é uma invenção daqueles marujos malucos que se fixaram no Brasil e importaram a opressão. Minha maior felicidade é capitanear meu corpo-embarcação pelo mundo, com a guiança invisível dos meus pretos velhos. Sinto saudade dos desembarques, de passear, intrépida e capricorniana, por outros territórios, fiel àqueles que morreram trabalhando para sustentar esse ideal insensato de patrimônio e família, esse desenvolvimentismo nada cristão que mata todos os dias, física e simbolicamente, a força matriarcal do planeta, os sonhos e saberes das vidas pretas.

 

É desconfortável para mim falar sobre racismo, prefiro falar sobre as coisas que amo, pasmem. Mas às vezes o silêncio sobre esse assunto pesa. Por isso, venho encontrando coragem para me expressar.

Tem sido divertido entender minha própria maneira de fazer isso, estou aprendendo muito sobre mim. Estou cruzando fronteiras e amigos, desmantelando o racismo impregnado na minha pele. Sugiro que vocês embarquem comigo nessa viagem, pois o racismo também está em todos os seus poros. Não sou de apontar dedos, mas vocês o reproduzem inconscientemente o tempo todo. Ainda bem que aprendi desde cedo a força do perdão. Eu não seria amiga de vocês sem isso.

Sou fascinada pela arte como forma de protesto, meus ídolos têm isso em comum. É inspirada por eles que manifesto nesta tímida e honesta carta meu amor por vocês e o imenso descontentamento que sinto ao me lembrar das vezes que não enxergaram minha cor. Para mim, tão importante quanto protestar é louvar a vida que flui milagrosamente neste país há quinhentos anos, em meio a tanta barbaridade. Vida que, desde sempre, cria arte, pensamento, tecnologia, medicina, agricultura, educação. A vida negra é a vida que movimenta este país.

Tenho a sorte de ter vocês como amigos. Reconheço nossa caminhada juntos por uma existência mais consciente. Tenho refletido muito sobre isso. Não sejam ingênuos: viver de forma sustentável mesmo é ouvir os pretos, investir nas ideias geniais que nascem e diariamente morrem nas favelas e periferias do Brasil. É contratar e promover gente preta, criar oportunidades para que outros liderem a mudança que todos queremos ver. É dividir o pão, fazer o dinheiro – meio de troca ainda tão poderoso no mundo da matéria – circular por mais tempo entre aqueles que sofrem mais com o sistema. É reforma agrária e urbana, taxação de grandes fortunas, política de cotas, abolição do sistema penal. Vocês sabem o tamanho do desafio…

Tenho pensado que sustentabilidade é lembrar a cada instante que existe uma imensa reparação histórica a ser feita. É pender para o outro lado da balança e resolver esse desequilíbrio antes que o barco afunde de vez. É, com urgência, abaixar a cabeça, respeitar o que os povos originários têm a dizer e nos importar com a vida de quem preserva nossos biomas há séculos.

Impacto social não é essa tentativa corporativa e frustrante de ser green, diverse and inclusive. Não é essa ciranda fantástica de mentalidade rasa que esvazia o verdadeiro sentido da palavra “gratidão”. A mudança não virá da ecobolha que produz pão artesanal e acha bonito pagar caro para comer alimento orgânico. O nome disso é invisibilização da miséria. Vocês sabem muito bem que só seremos uma sociedade melhor quando todo mundo puder pisar com a mesma segurança e dignidade nesta Terra que nos oferece tudo de que precisamos. Rezo para que não se acabem todos os recursos antes de esse dia chegar.

 

Não me levem a mal, mas estou feliz com essa revolta maciça que chegou séculos atrasada. Sinto no meu peito, apesar do desarranjo emocional que a situação, às vezes, provoca em mim, uma imensa esperança de estarmos caminhando para um lugar mais justo. É essa esperança que ancora o que digo. Não é a raiva que me guia. Hoje me sinto mais presente e mais lúcida do que nunca. É desse lugar que falo com quem amo e com quem mais quiser ouvir. Lugar de quem constela a revolta e a dor, mas conserva, no corpo e na alma, a sabedoria e o axé que faz vocês cantarem e dançarem distraídos em sua hegemonia. Sou uma boa descendente da gentileza que há séculos amamenta os filhos desta pátria amada, mãe hostil.

É com essa consciência que escolho não me silenciar e jamais ser silenciada em face de uma separação que eu nem acredito existir. Escolho usar minha voz, que venho aceitando ser poderosa e de alguma forma artística, para lhes pedir: chega, se importem de verdade com as vidas negras. Corram atrás do prejuízo, abram caminhos para a gente passar. Se apressem em decidir que tipo de Zumbi inspirará seus atos nesse adiar do fim do mundo. Mergulhem nas águas imundas do nosso passado e entendam, de uma vez por todas, que não haverá paz sem justiça. Kaô Kabecile!

Eu não espero nada, além de vexame e horror, desse Estado alucinado, dessa neurose narcisista e careta que é a branquitude, mas espero muito de vocês e de suas etiquetas antifascistas e hashtags em inglês. Espero responsabilização, pacto e comprometimento para fazer o trabalho árduo e vigilante de se tornar antirracista. É trabalho para uma vida, posso garantir. Será uma trajetória de tentativas e erros, mas será libertador. Acho que era isso que Jorge Ben Jor estava tentando nos ensinar em Errare Humanum Est.

É uma pena que o vírus nos impeça de estarmos juntos, mas a curandeira em mim prefere acreditar que essa situação é medicinal. Penso que a pandemia seja uma resposta cirúrgica do planeta, que precisa urgentemente se curar do trauma histórico do colonialismo. Me parece que estamos vivendo uma espécie de preceito, nos preparando para a abundância. O Universo está nos dando uma oportunidade sem precedentes de nos comprometermos radicalmente com a regeneração da sociedade.

Queria que estivéssemos unidos, festejando do modo que a gente gosta a vida dos que, gene após gene, me trouxeram até aqui para amar vocês. Já que não podemos, me dedico a encontrar um jeito bom de viver essa experiência meio psicodélica que é passar a quarentena sozinha. Redescobri prazeres, me apaixono cada dia mais pela minha própria melanina, estou aprendendo a respeitar a natureza cíclica do Cosmos e a viver nesse ritmo uniforme e tântrico que, acredito, poderá nos levar ao êxtase.

Me despeço, com amor.

Ligia Lima

É relações públicas, comunicadora e especialista em mídia e conteúdo. Escreve histórias para a emancipação coletiva

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