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Mamadou

    Áfrikas: olhares descoloniais, de Paulo Chavonga: nem o museu nem os turistas sabem de Mamadou CRÉDITO: PAULO CHAVONGA_2021_MUSEU DA IMIGRAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO

ficção

Mamadou

O sorriso desse homem é uma espécie de esperanto

Paulo Vicente Cruz | Edição 207, Dezembro 2023

A+ A- A

Oui, célébrons ceux qui ne célèbrent pas
Encore une fois, j’aimerais lever mon verre à ceux qui n’en ont pas[1]

Santé, canção do compositor Stromae

 

Mamadou é uma terra sem limites. Todos já foram violados. É um país ambulante. É uma aldeia global – sem fronteiras, sem cidadania. Apenas a liberdade de ser desigual existe nesse território de cabeça, braços, pernas, nariz, orelhas, olhos e boca. Ele é uma nação itinerante que habita em outras, terrivelmente assentadas. No Brasil, foi pobre e alegre, dividindo a escassez em churrascos comunitários de bairros periféricos, ao som de pagodes e funks de duplo sentido. Mas, na maior parte do tempo, estava ocupado em dar vazão à produção chinesa de artigos similares aos americanos, no camelódromo da Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro. Porém a República Popular da China não conhece os serviços prestados por esse promotor do comércio exterior. As Nações Unidas também não reconhecem Mamadou, as forças de paz não se importam com as suas guerras de fora e de dentro. Mamadou está em Paris e conta apenas com um irmão. Sente o peso de muitas ausências em suas costas – todos que ficaram para trás nos lugares de onde foi necessário partir.

 

Mamadou são dois olhos atentos aos perigos. No Rio, viu na tevê como espancaram até a morte um homem porque reivindicou seu salário atrasado ao patrão, dono de um quiosque de praia virado para o mar e para outros continentes. Mamadou já viu também o brilho da arma de um miliciano da Baixada Fluminense, que ameaçou matá-lo, após uma denúncia anônima a respeito de um homem com sua aparência que circulava pelo bairro, furtando lojas. Salvou-o seu forte sotaque estrangeiro. Resolveu viver outros perigos, outros desalentos. Atravessou o Atlântico para se juntar às desventuras de seu irmão Moussa, que vende cigarros de péssima qualidade perto da estação de metrô parisiense Barbès-Rochechouart. Dividem uma moradia de 20 m² no bairro, de onde partem para seus dias, circulando a pé pelas fronteiras tácitas de iniquidade padrão de qualquer cidade.

O sorriso desse homem é uma espécie de esperanto, conectando numa língua sem cultura turistas desavisados que circulam nas proximidades da entrada 1 da Torre Eiffel. Sabe dizer em francês, inglês, espanhol e português o preço das miniaturas da torre, comercializadas por ele. Veste camisas de times de futebol falsificadas, em sua estratégia de sedução – nos dias de maior fluxo escolhe as dos times brasileiros. Trabalha de domingo a domingo.

 

Numa manhã de terça-feira, vestindo a camisa do Flamengo, Mamadou esperava pela sorte de que algum brasileiro melhorasse o início de sua manhã, abrindo os trabalhos com pelo menos 6 euros gastos em suvenires pintados com um azul-metálico de mau gosto. Aguardava esse acontecimento sentado em um dos bancos do Campo de Marte, conferindo mensagens transatlânticas num aparelho celular chinês. Era um mau dia, daqueles em que não há ânimo suficiente para interações na língua uólofe com colegas de informalidade laboral.

 

Um homem se aproxima. Elogia a camisa de Mamadou, que sorri e pergunta em um português tão elementar quanto o francês do sujeito: “Você é brasileiro?” O homem confirma. Diz ser do Rio de Janeiro. Mamadou conta que viveu por quatro anos nessa cidade, de onde era a família de seu pai, embora ele mesmo tivesse nascido em outra terra, onde seus pais se conheceram. “Brasil é melhor. Mais fácil. Mais barato. Aqui tudo muito caro.” O homem estende a conversa. “Então você gosta mais de lá?” “As pessoas lá fica mais junto.” Foi assim mesmo, em português ruim, que expressou sua carência. “Eu vou voltar lá. Tem família. Namorada. Depois eu volto aqui.” A conta da mobilidade de Mamadou entre fronteiras e de sua ascendência multinacional pareceu um pouco imprecisa ao seu interlocutor, que não questionou. Apenas perguntou seu no­me, sentou-se ao lado no banco público e pediu autorização para que tirassem uma foto juntos. Despediram-se. Mamadou agradeceu – talvez não devesse. Não alcançou os 6 euros do início de seu dia. O homem partiu para algum outro ponto de Paris. Poucas horas depois, Mamadou foi comer sua marmita calado, ouvindo o uólofe e o árabe de outros vendedores ambulantes como ele.

A uma quadra de distância da Torre Eiffel, num museu de pouco movimento que Mamadou desconhece, turistas lerão em francês ou em inglês placas explicativas sobre peças e objetos sagrados vindos da África, vigiados para contemplação estrangeira. Nem o acervo do museu, nem os turistas, nem a torre, nem a igualdade, nem a liberdade, nem a fraternidade sabem sobre Mamadou ou sobre o homem que o conheceu numa manhã de terça. Uma pena. Num mundo justo e inexistente, somos belos e inesquecíveis.


[1] Sim, vamos celebrar aqueles que não celebram/Mais uma vez, eu gostaria de fazer um brinde àqueles que não podem fazê-lo.

 
Paulo Vicente Cruz
Paulo Vicente Cruz

Jornalista, publicou Enquanto os gigantes dançam (Quelônio)

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