vultos da república

O chanceler do regresso

Os planos de Ernesto Araújo para salvar o Brasil e o Ocidente

Consuelo Dieguez
“Não creio que a China não queira exportar seu modelo, que só pretenda fazer negócios. Aos chineses não interessa que os países mantenham a sua liberdade, já que não tem isso lá”, diz Araújo
“Não creio que a China não queira exportar seu modelo, que só pretenda fazer negócios. Aos chineses não interessa que os países mantenham a sua liberdade, já que não tem isso lá”, diz Araújo FOTO: JR Duran_2019

Na tarde de 21 de fevereiro, a assessoria do chanceler Ernesto Araújo dava os retoques finais na nota do Ministério das Relações Exteriores sobre a operação de ajuda humanitária internacional à Venezuela que ocorreria dali a dois dias. O pedido para que o Itamaraty se incumbisse da divulgação do evento fora feito, horas antes, pelo Palácio do Planalto, e os jornalistas aguardavam ansiosos pela informação no andar térreo da chancelaria, na Esplanada dos Ministérios. Embora aquele fosse um dos dias mais tensos da crise da Venezuela com os países vizinhos, o ministro, acomodado na cadeira estofada em couro preto, atrás da grande mesa de madeira de seu gabinete, no 2º andar do prédio, demonstrava tranquilidade.

Por volta das sete da noite, seu assessor de imprensa, o diplomata João Alfredo dos Anjos Junior, interrompeu de maneira cordata a entrevista que o chanceler dava à piauí. Queria informá-lo que o porta-voz do Planalto concedia naquele instante uma entrevista coletiva para explicar a logística da operação na fronteira. Araújo assistiu à transmissão no celular do assessor e, em seguida, anunciou: “Deixa eu tuitar aqui então.” Numa velocidade surpreendente, o ministro postou três mensagens em seu próprio aparelho, informando: 1) Da sua ida para Cúcuta, na fronteira da Colômbia com a Venezuela, no dia seguinte; 2) Da viagem que faria à Pacaraima, em Roraima, no sábado, para supervisionar o envio da ajuda brasileira aos venezuelanos; 3) De sua reunião em Bogotá, na segunda, dia 25, em companhia do vice-presidente, general Hamilton Mourão, para discutir a crise com o Grupo de Lima, formado por Brasil e mais treze países, entre eles Argentina, Paraguai, Colômbia, Peru, Chile, Costa Rica e Canadá. Enquanto escrevia, levantou por um instante a vista para mim e, se desculpando pela interrupção, disse, com expressão marota: “Momento de tuitagem.” E voltou a mergulhar na tela do celular.

Seu assessor aguardou que ele terminasse para então indagar se não seria o caso de suspender a nota do Itamaraty. Araújo assentiu. “Acho que ficaria redundante. Vale o que o porta-voz do Palácio falou”, disse. Perguntei se ele se incomodara com a forma como o Planalto agira, atropelando a chancelaria. “De forma alguma”, respondeu, com riso tímido, seguido de um leve espasmo, um pequeno soluço que lhe é característico e produz um som quase imperceptível – “ic”. “É ótimo que o Planalto fale sobre uma questão de tamanha envergadura, pois demonstra que a decisão foi avalizada pelo presidente”, disse.

Puxou a cadeira para a frente para se acomodar melhor, batendo o joelho na mesa. Esboçou uma expressão de dor, mas não interrompeu o raciocínio. “Foi o Itamaraty quem preparou a ajuda humanitária e fez a coordenação com os órgãos envolvidos. O que falei corresponde à nossa orientação, mas vindo do Palácio, não resta dúvida do que deve ser feito.”

O início dessa operação com consequências imprevisíveis tanto para os venezuelanos quanto para os países vizinhos não o perturbava. Apesar dos riscos envolvidos, ele falou de forma entusiasmada sobre a missão, como quem estivesse se preparando para uma aventura. “Eu gosto de desafios. A gente precisa de desafios na vida”, disse, fazendo uma ressalva. “Estamos tomando todos os cuidados para que não aconteça nada, e não vai acontecer.” Como podia ter certeza? “Se a gente for prever cada segundo do que vai acontecer, a gente não faz nada.” A operação, de seu ponto de vista, era administrável pelas precauções adotadas pelo governo brasileiro. “Não vai ter ação militar acompanhando a ajuda”, explicou. “Os caminhões são venezuelanos, e o governo Maduro vai ou não deixá-los cruzar a fronteira. Não há nenhuma disposição nossa de forçar a entrada.”

Com 257 mil seguidores no Twitter, o ministro postou, nos dias seguintes, suas fotos em Cúcuta, em companhia de Juan Guaidó, o autoproclamado presidente da Venezuela, e em Roraima, durante a operação de ajuda humanitária que acabou não acontecendo, uma vez que as forças de Maduro fecharam as fronteiras com o Brasil e a Colômbia. Seus seguidores, no entanto, o saudaram com frases de incentivo – uma delas dizia: “Parabéns, chanceler! Leve esperança à Venezuela e eleve o Brasil ao nível da grande nação que somos.” O saldo final da operação foi de três mortos e quinze feridos do lado venezuelano.

 

Ernesto Araújo, de 51 anos, é um homem alto – 1,88 metro –, corpulento e bochechudo, de cabelos ondulados e barba de fios um pouco eriçados e grisalhos, sobretudo na região do queixo. Faz uso permanente de óculos de grau com discreto aro negro. Embora a distância pareça uma figura sisuda, de perto a impressão que passa é outra. Suas bochechas rosadas e o sorriso de dentes pequenos, um pouco separados, dão a seu rosto uma expressão juvenil.

O ar meio adolescente é reforçado pelos modos inseguros, pela voz discretamente desafinada e pela forma por vezes hesitante de se expressar, com o emprego sistemático de um espichado “éééé”, ou de um “então”, ao desfiar uma ideia. Também costuma usar interjeições como “perfeito”, “ótimo” ou “exato”, após ser questionado sobre qualquer assunto, como se agradecido pela pergunta. Enquanto fala, tem por hábito tocar as pontas dos dedos de uma mão na outra e também de tamborilar no tampo da mesa, de forma irrequieta. Há um descompasso entre o tom de voz ameno e o teor de suas ideias, raivosamente anti-iluministas.

No começo de dezembro, antes mesmo de assumir o comando da chancelaria, Araújo comprou briga com o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, que tentou levar para o seu ministério a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento, a Apex, sob o guarda-chuva das Relações Exteriores. Araújo queixou-se com Bolsonaro e a agência permaneceu onde estava. O que chocou a diplomacia brasileira, porém, foi ele ter desconvidado para a posse Nicolás Maduro e os emissários de Cuba e da Nicarágua, sob a alegação de serem representantes de ditaduras de esquerda.

Em 17 de janeiro, após uma reunião do presidente Jair Bolsonaro e de outras autoridades brasileiras com os líderes da oposição venezuelana, em Brasília, Araújo seria acusado novamente de ferir as tradições do Itamaraty. Valendo-se de uma linguagem inédita para a diplomacia brasileira, escreveu de próprio punho uma nota em que acusava o governo Maduro de se basear “na corrupção generalizada, no narcotráfico, no tráfico de pessoas, na lavagem de dinheiro e no terrorismo”. A virulência do comunicado estarreceu a corporação. Embaixadores aposentados logo se manifestaram. Entre eles, Rubens Ricupero, de 82 anos, autor do livro A Diplomacia na Construção do Brasil 1750-2016 e considerado um dos luminares da política externa brasileira.

Estive com Ricupero poucos dias depois do episódio, em seu gabinete na Faculdade Armando Álvares Penteado, a FAAP, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, onde ele ocupa o cargo de diretor. Conhecido pela austeridade e zeloso dos costumes da diplomacia, ele se mostrava inconformado com a atitude do chanceler. “É uma ofensa pesadíssima. Normalmente, uma coisa dessas só teria lógica se quiséssemos declarar guerra”, opinou. “Podem dizer que ele sente tal repúdio à Venezuela, que quer exprimir com uma linguagem adequada”, especulou. “Mas isso não se coaduna com um diplomata. Um diplomata tradicional não é um homem que deve dar vazão a emoções que são sem medida com a realidade. Em duzentos anos, o Brasil já teve monarquia, Primeiro Reinado, Segundo Reinado, teve ditadura militar, teve governos que eram mais à esquerda e mais à direita. Mas, invariavelmente, a tradição brasileira era de comedimento, de equilíbrio, de senso de proporção”, disse.

A visão de Araújo sobre diplomacia, contudo, segue na direção oposta do que prega Ricupero. Na conversa em seu gabinete, no final de fevereiro, o novo chanceler manifestou sua contrariedade com a postura passiva que o Itamaraty mantinha diante de situações extremas como a da Venezuela. “O que a gente pode fazer é falar. É usar a linguagem forte”, defendeu. Ao se referir a esse país, a diplomacia brasileira preferia usar o termo “quebra da ordem democrática”, em vez de ditadura, o que, para ele, era inadmissível. “Alguns diplomatas insistem na tese de que a tradição brasileira é buscar o equilíbrio. Não é”, disse, batendo com força os dedos na mesa. “Ou talvez seja, mas está errada. Não tem sempre que buscar o equilíbrio. Em muitos casos, um país tem que se posicionar e fazer julgamentos morais”, arrematou.

As críticas de muitos embaixadores à sua nota o aborreceram. Não por se sentir atacado pessoalmente, mas, segundo ele, “pela miopia das pessoas que acham que a diplomacia é um fim em si mesmo”. Valeu-se de uma metáfora futebolística para explicar a guinada do governo na política externa brasileira. “Durante muito tempo o Brasil ficou sem chutar para o gol, só pensando no meio”, disse. “Tem que chutar para o gol. Chega de zero a zero na política externa. Vamos tomar gol? Vamos. Mas vamos tentar fazer gol. O brasileiro não quer política do zero a zero.” Cada vez mais empolgado, frisou que essa é a posição do presidente Bolsonaro. “Desculpe se me exalto. Mas é isso. O presidente quer fazer a diferença. E eu posso sugerir os meios para isso.”

Claro que boa parte dos diplomatas não o suporta. Eles acham que Araújo, ao acusar o Itamaraty de passividade, desmerece a história da diplomacia brasileira. “O Brasil sempre teve uma presença forte na comunidade internacional, pela independência e equilíbrio de suas propostas”, disse Ricupero. Rubens Barbosa, ex-embaixador nos Estados Unidos, lembra que o Brasil se afirmou perante o mundo, em muitas situações. Como na discussão do Acordo de Paris, sobre as alterações climáticas, do qual o país assumiu a liderança, sendo respeitado por isso.  Araújo, que é cético a respeito do aquecimento global e crítico do acordo, desdenha. “Estar na vanguarda de uma coisa errada não adianta nada.”

Araújo defendia uma ação mais dura contra o regime de Maduro desde 2017, quando ocupava a chefia do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do ministério. Por isso, se entusiasmou quando, numa conversa com Bolsonaro, antes de tomar posse na chancelaria, os dois acertaram que o Brasil agiria de forma implacável com o vizinho. O veto à presença de Maduro na posse foi o primeiro passo. “O Arnesto desconvidou, pronto”, disse, numa referência ao famoso samba de Adoniran Barbosa. “Não pode? Agora pode”, desafiou, sorrindo.

O “desconvite”, ele acredita, foi um sinal para o mundo de que o país estava mudando. “O Brasil tem um peso muito grande na região. Nós encorajamos os outros países a também tomarem ações mais duras contra a Venezuela. Com isso, trouxemos esperança e alento aos venezuelanos que se sentiam abandonados.” Na verdade, o Brasil vinha subindo o tom com Maduro desde o governo de Michel Temer, quando o alinhamento que vigorou nos governos do PT se desfez. Araújo avalia que, na era Temer, as cobranças ao país vizinho foram muito tímidas.

 

A sugestão do nome de Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores partiu de três personagens com grande influência sobre o presidente Bolsonaro: Olavo de Carvalho, o famigerado guru da extrema direita brasileira, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho caçula do primeiro casamento do presidente, e Filipe Martins, um analista político de 31 anos que, no ano passado, ocupava o cargo de secretário de Assuntos Internacionais do PSL e hoje é assessor internacional do presidente – função semelhante à que Marco Aurélio Garcia desempenhava junto ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os três, Araújo parece não ter dúvida de quem foi determinante na sugestão: “Quando soube que o professor Olavo tinha indicado o meu nome, fiquei felicíssimo. Sei que foi decisivo.”

Antes de ser nomeado, ele esteve duas vezes com Bolsonaro na casa do presidente, que fica em um condomínio de frente para o mar, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Em ambas as ocasiões, foi levado por Eduardo Bolsonaro e Filipe Martins. A primeira visita ocorreu antes do segundo turno. A segunda, após a vitória.

Araújo chamou a atenção de Carvalho e de Martins – um “olavete” como Eduardo – após publicar, no início de 2018, o artigo “Trump e o Ocidente”, nos Cadernos de Política Exterior, revista semestral do Ipri, o Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais, do Itamaraty. O texto foi recebido com rumor por setores da extrema direita e extravasou do ambiente diplomático. Araújo contou que, na ocasião, Nestor Forster, ministro-conselheiro da embaixada do Brasil em Washington, seu amigo desde o tempo em que serviram juntos nos Estados Unidos, telefonou para parabenizá-lo pelo artigo. Dias depois, Foster entraria novamente em contato para alertá-lo sobre Olavo de Carvalho ter feito uma postagem muito elogiosa ao ensaio no Facebook.

O futuro chanceler não se conteve de tanta felicidade. Ao saber que fora o próprio Foster, amigo de longa data do polemista, quem o enviara a Carvalho, pediu para que fossem apresentados. Em maio de 2018, acompanhado por Foster, esteve na casa de Carvalho, em Richmond, na Virgínia. Araújo se entusiasma ao relembrar a visita. “Eu só o conhecia através dos seus livros e de lê-lo na internet”, contou. “Achei sensacional estar ali na presença dele. Eu pensava: ‘O professor Olavo realmente existe.’ Sempre achei tão extraordinária a figura dele, pelo brilho intelectual, pela coragem, clareza e inspiração”, derramou-se. Passaram uma tarde juntos. “Mais recebendo ideias do que dando”, disse Araújo, rindo risos curtos, seguidos do pequeno espasmo – “ic”.

O ministro levantou-se da mesa para encaixar o cabo do celular na tomada da parede, às suas costas, adornada com uma enorme tapeçaria do mapa-múndi. Após a pausa, dirigiu sua louvação para Filipe Martins, lembrando que ele sempre dera como certa a vitória de Bolsonaro. “O professor, com toda a razão, considera o Filipe o maior analista do Brasil. Eu concordo que ele é um dos maiores, pela profundidade e precisão das suas análises.” O fato de Martins ter acesso direto ao presidente de forma alguma o incomoda. “Além de sua competência e talento, temos relação de amizade e compreensão mútua, o que é fantástico para nós, no Itamaraty, e para eles, no Planalto”, enfatizou. “A rapidez de consulta e coordenação tem sido útil nesse mês e meio de governo.”

No Palácio do Planalto, Martins não causa a mesma impressão. Tanto o vicepresidente Hamilton Mourão quanto os ministros militares questionam o fato de Bolsonaro ter como assessor internacional alguém tão moço e inexperiente. E, mais grave, alguém sob a influência direta de Olavo de Carvalho. Discreto, Martins evita se manifestar sobre as críticas a respeito de sua pouca vivência na área. Recentemente, porém, postou no Twitter: “VVV” – uma alusão à célebre frase atribuída a Júlio César: “Vim, vi e venci”, proferida em carta ao Senado romano após uma vitória militar.

O deputado Eduardo Bolsonaro, indicado para presidir a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara, é outro que, desde antes da posse do pai, vem se imiscuindo, sistematicamente, nas questões externas brasileiras. Entre os diplomatas existe a percepção clara de que o filho do presidente e Martins são eminências pardas da política externa. Uma situação que causa mal-estar entre a turma mais experiente da diplomacia.

O ministro não vê nenhuma intromissão no seu quintal. Prefere falar em “parceria”. Diz que todos eles comungam da mesma visão de mundo, a começar pelo patriotismo, “no sentido de Pátria e nação”. “Pessoas do Itamaraty e de fora que analisam a política externa têm uma concepção tacanha, canhestra e tímida do que é o Brasil”, afirmou, batendo novamente com os dedos na mesa. “Acham que o Brasil não tem condições de ser alguém no mundo e que temos que nos contentar em vender alguns produtos e ficar quietos, copiando as agendas que vêm de fora, como a do clima ou dos direitos humanos.” Ajeitou-se na cadeira e, entusiasmado, prosseguiu. “Acredito que o Brasil tem que tentar ser grande. É preciso abandonar o pensamento antiamericanista que dominava o Itamaraty.”

 

Essas convicções de Araújo foram desenvolvidas em “Trump e o Ocidente”, o artigo que chamou a atenção de Olavo de Carvalho. Com mais de trinta páginas, o texto é uma longa ode a Donald Trump. Logo na parte inicial, o autor adverte: “Não nos satisfaçamos com uma caricatura, com as matérias de trinta segundos que aparecem no Jornal Nacional e tentam sempre mostrar um Trump desconexo, arbitrário, caótico.” Contra essa imagem, ele vê o presidente americano como o salvador da civilização ocidental, nada menos. “Os Estados Unidos iam entrando no barco da decadência ocidental, entregando-se ao niilismo, pela desidentificação de si mesmo, pela desaculturação, pela substituição da história viva pelos valores abstratos, absolutos, inquestionáveis. Iam entrando, até Trump”, escreve Araújo. O ensaio se organiza a partir de um discurso proferido pelo presidente dos Estados Unidos em Varsóvia, na Polônia, em 6 de julho de 2017. “Um discurso que nenhum outro estadista no mundo hoje teria a coragem ou a capacidade de pronunciar”, nas palavras do chanceler.

O Trump que surge das páginas do ensaio não é uma figura vulgar e venal, ligada a toda sorte de preconceitos, mas um líder mundial espiritualizado, uma alma repleta de sabedoria, que Araújo ora relaciona à psicologia junguiana, ora vê como herdeiro de Ésquilo. E vai além, associando uma frase de Trump aos poloneses (We want God) à célebre afirmação de Martin Heidegger em entrevista à revista Der Spiegel, no final da vida: Nur noch ein Gott kann uns retten (“Só um Deus pode nos salvar”). Araújo, nesse momento, se esforça para salvar o filósofo alemão de si mesmo e, com ele, o nacionalismo como virtude: “Heidegger sempre foi um nacionalista, e nos anos 30 achou que com o nazismo a nação estava renascendo, mas logo se desencantou. Entretanto, ao repudiar o nazismo, nunca abjurou do nacionalismo, e por isso tornou-se um pária social, pois o poder dominante instalado no pósguerra não admitia essa dissociação.” Isso, claro, antes de Trump.

Ao mesmo tempo que exalta o líder americano, o chanceler vai demarcando seu terreno. Coloca-se contra os imigrantes (“O Ocidente escancara as portas para milhões de imigrantes porque se nega a si mesmo, porque está psiquicamente doente. Trump quer deter o avanço desse impulso autodestrutivo”); investe contra a Revolução Francesa (“O povo que queria pão, respeito e liberdade, mas que amava a monarquia como símbolo nacional, foi rapidamente traído pela elite intelectual que o manobrara para chegar ao poder e que imediatamente começou a dar-lhe opressão, miséria e discurso ideológico, juntamente com a cabeça de Luís XVI, que ninguém pedira”); defende o fervor nacionalista (“cada nação é uma religião”); e investe contra o globalismo – “entendido como os padrões liberais antinacionais e antitradicionais na vida social e do mercado globalizado sem fronteiras na vida econômica”.

Não é difícil compreender por que o artigo de Araújo encantou o guru do bolsonarismo. Olavo de Carvalho é um ferrenho crítico do “globalismo”, segundo ele “comandado pelo marxismo cultural”, cujo objetivo seria “destruir os valores cristãos, da família, da sociedade e do Ocidente”. Sua tese é que, desprovidos de seus valores tradicionais, os indivíduos seriam facilmente dominados pelo Estado e triturados pelo mercado global.

Expoentes da ultradireita mundial compactuam dessas ideias. Entre eles, Steve Bannon, estrategista de Donald Trump, com quem rompeu depois das eleições. Bannon, de retórica nacionalista, teria dado orientações à campanha de Bolsonaro e acredita que o brasileiro será um forte aliado dos Estados Unidos na difusão dos valores da direita pelo mundo. Do ponto de vista mais pragmático, defende que os brasileiros também poderão ajudar os americanos a equilibrar o poder com os chineses.

Admirador de Bannon, Eduardo Bolsonaro, junto com Filipe Martins, foi encontrar-se com o estrategista, logo após a vitória de seu pai. Voltou a aparecer ao lado de Bannon às vésperas da viagem de Jair Bolsonaro a Washington, em março passado. Foi Eduardo, inclusive, quem apresentou Bannon a Olavo de Carvalho.

Os dois se entenderam imediatamente. Tanto assim que no dia seguinte ao encontro, 20 de janeiro, Bannon convidou o polemista para um jantar em sua casa, em Washington. No encontro, testemunhado por uma correspondente do Estado de S. Paulo, o americano quis saber o que Carvalho achava dos rumos do governo Bolsonaro. O guru manifestou preocupação com “o quanto o cara de Chicago” poderia atrapalhar o avanço de uma agenda nacionalista no Brasil. O “cara de Chicago” é o ultraliberal ministro da Economia, Paulo Guedes. Enquanto degustava a salada servida de entrada, Bannon fez elogios ao vice-premiê e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, e ao primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, dois expoentes do novo populismo de direita na Europa. Salvini e Orbán também contam com a admiração do chanceler brasileiro.

 

Araújo reproduziu parte das ideias de seu artigo “Trump e o Ocidente” no discurso de posse no Itamaraty, em 2 de janeiro. Surpreendeu, de cara, ao fazer citações em grego e latim e rezar uma Ave-Maria em tupi. Defendeu em seguida que o Brasil se aproximasse dos Estados Unidos e de Israel; se disse admirador dos novos governos da Itália, Hungria e Polônia; sugeriu que os diplomatas ouvissem mais Raul Seixas e menos a CNN; colocou-se outra vez contra o “globalismo” e desprezou os riscos do aquecimento global. Como se fosse pouco, constrangeu o corpo diplomático brasileiro ao afirmar que o ministério estava distante do povo e que a política externa do país vinha se atrofiando por medo de ser criticada. Arrematou o discurso pregando a “libertação” do Itamaraty.

O embaixador aposentado Marcos Azambuja, de raciocínio rápido e senso de humor apurado, classificou como “inquietante” o discurso de Araújo. “Aquele discurso não parecia ser feito por alguém que vem da nossa tradição diplomática.” Detalhou seu ponto de vista: “Era um discurso feito por outro mundo, outras pessoas, movidas por outros impulsos. Parecia que tinha sido traduzido para o português de outra língua qualquer. Não é o que nós costumamos dizer, nem pensar.”

O ministro das Relações Exteriores de Michel Temer, o tucano Aloysio Nunes Ferreira, me recebeu no dia seguinte à transmissão do cargo para Araújo. Estava em seu apartamento na Asa Sul de Brasília, terminando de encaixotar a mudança para São Paulo. Foi Nunes Ferreira quem promoveu Araújo a embaixador, em junho do ano passado. Contou que, quando assumiu a pasta, Araújo chefiava o departamento América do Norte e Integração Regional e o acompanhou em algumas viagens. A impressão que teve do então ministro conselheiro foi das melhores. “Um profissional dedicado, culto, muito cortês e trabalhador”, opinou.

Disse ter tomado conhecimento da faceta de militante político de Araújo só mais tarde, quando viu o blog Metapolítica 17, em que o futuro chanceler fazia defesa aberta da candidatura Bolsonaro. “Vieram me perguntar o que eu ia fazer contra ele por ter se manifestado a favor de um candidato”, contou. “Respondi que não faria nada porque se tratava de um cidadão brasileiro que estava dando apoio a um candidato nos meios próprios dele, e não nos do Itamaraty”, afirmou, reconhecendo, contudo, não ser essa uma prática usual no ministério.

Diferentemente de seus pares, o exministro, talvez por sua longa vivência política como senador pelo PSDB paulista, não se espantou com o discurso do sucessor. Nunes Ferreira acha que ele expôs exatamente o modo de pensar do novo governo. “Independentemente das convicções do Ernesto, que são muito claras, ele cumpre um papel político evidente”, pontuou. “O discurso dele é de alguém que é portador de uma cultura política muito diferente da minha, muito diferente da que vigorava no Itamaraty. Não só no Itamaraty, mas no Brasil.”

Ajeitou-se no sofá, tomou um gole de água e continuou sua análise. O que veio à tona nessa eleição, afirmou Nunes Ferreira, foi algo muito profundo, não captado pelo sistema político: desejo de ordem – um tema tratado com receio porque poderia evocar a ditadura militar –, combate à criminalidade e demanda ultraconservadora de costumes. “Quando o Ernesto fala em libertar o Brasil e o Itamaraty, na verdade está pretendendo destampar essa panela de pressão. Foi isso que o Bolsonaro fez.”

Nunes Ferreira acredita, no entanto, que um ajuste na forma de pensar do novo governo será inevitável. “A questão é como essas ideias vão aterrissar na política. Política externa é política. Ou seja, em algum momento ela terá que levar em consideração ‘a verdade efetiva das coisas’, como disse Maquiavel” – e gargalhou.

 

Poder se manifestar abertamente a favor de Donald Trump, tanto no artigo quanto no discurso, foi uma espécie de alforria para Araújo. Ele precisou guardar por muito tempo sua admiração pelo americano para não entrar em choque com seus superiores na chancelaria. Sentia um particular incômodo com José Serra, que havia se manifestado publicamente contra Trump em 2016, afirmando que seria um “pesadelo” tê-lo na presidência dos Estados Unidos. Para Araújo, foi um momento complicado no ministério. “Eu torcia pelo Trump e via pessoas no Itamaraty desbragadamente a favor dos democratas”, queixou-se.

O que mais o incomoda no projeto dos democratas americanos é o fato de ser globalizante e não ter conteúdo nem identidade nacional. “A globalização foi um horror para os Estados Unidos porque destruiu a classe média, destruiu os empregos e transferiu o poder econômico para outros lugares, sobretudo para a Ásia”, disse. Araújo se sensibilizou durante a campanha presidencial americana, ao ver Trump se colocar como defensor dos valores nativos e da identidade nacional. “Eu pensei, esse é o cara”, contou. A forma como Trump dizia querer recuperar o sentimento nacional o encantava sobremaneira. Na visão do chanceler, ele trazia para o debate a necessidade de resgatar não só a economia como também a cultura local, a família, a religião e a fé.

No pacote de fatores de destruição da “alma das nações”, Araújo acrescentou a permissividade em relação à imigração. Eis aí mais uma razão para se colocar ao lado do presidente americano. Trump, segundo ele, não é contra a imigração, mas contra “a ideologia da imigração imposta pela ONU, que restringe a possibilidade dos governos de imporem limites em quem pode ou não entrar nos seus países.” Nesse sentido, a construção do muro na fronteira dos Estados Unidos com o México seria uma forma de Trump mostrar que um país tem direito de tomar suas próprias decisões. “O muro é o símbolo da soberania”, argumentou.

Fiel a esse entendimento, o Brasil, no governo Bolsonaro, acompanhou a posição americana e deixou o Pacto Mundial para a Migração da ONU, do qual 164 países são signatários. Contudo, diferentemente do que diz o chanceler, a resolução da ONU dá apenas diretrizes humanitárias, sugere trocas de informações entre as nações e ajuda mútua no enfrentamento do problema, sem fazer qualquer ingerência nas políticas internas de imigração dos países.

A decisão repercutiu mal na comunidade diplomática, dentro e fora do Brasil. “É o afastamento de um acordo de cooperação numa área relevante para a ordem internacional. Vamos contra a corrente do mundo, sem termos problemas relevantes de imigração”, me disse um diplomata que preferiu manter seu anonimato por temer retaliações.

 

O gaúcho Ernesto Henrique Fraga Araújo nasceu em Porto Alegre, em 1967. Quando tinha 1 ano e meio, seu pai, Henrique Fonseca de Araújo, procurador da República, foi transferido para Brasília, e a família o acompanhou. O pai, apesar de ter feito carreira no Ministério Público, foi deputado estadual no Rio Grande do Sul por quatro mandatos. Era um conservador, diz o filho, mas um antifascista, que se opôs à ditadura de Getúlio Vargas e ao integralismo. Em 1964, apoiou o golpe militar, ou revolução, como diz o chanceler, e chegou a se apresentar em um quartel no Rio Grande do Sul para pegar em armas “contra Leonel Brizola e a favor do movimento de 31 de Março”. Em 1975, no governo do general Ernesto Geisel, Henrique Araújo foi nomeado procurador-geral da República.

Recentemente, uma reportagem da Folha de S.Paulo afirmou que o pai de Araújo, quando era procurador-geral, teria dificultado, em 1978, a extradição para a Alemanha de um nazista refugiado no Brasil. A matéria levou o chanceler a se manifestar em seu blog a favor do pai. Seu texto intitulava-se “Pro patre”. Seis dias depois, o site Jota, especializado em notícias do Judiciário, mostrou que a informação da Folha estava incorreta. Na verdade, fora o Supremo Tribunal Federal que, em 1979, barrara a extradição autorizada pelo procurador-geral. Quando perguntei como reagira à reportagem, disse que a achou injusta, mas evitou atacar a Folha, alvo preferencial de Jair Bolsonaro.

Ernesto Araújo estudou em colégios católicos – primeiro o Rosário e depois o Marista. Até meados dos anos 80, Brasília era quase um deserto e tinha poucas opções de lazer. Por isso, ele se refugiava nos livros. “Cada novo livro era uma preciosidade, uma descoberta”, contou. Seu maior interesse sempre foi história, principalmente a das religiões, embora gostasse do passado do Egito, de paleontologia, teoria da evolução, línguas e também literatura. Aos 17 anos, publicou um livro de poemas intitulado Ocidente. Um deles, “Força”, diz o seguinte: “Fé é um nome muito grande/Para algo que não se vê/Nunca faz o que se lhe mande/E não sabe dizer porque/Falta-lhe algo que dê certo/E que faça vir a fato/De que adianta tê-la por perto/Se não é capaz de um só ato?

Seu interesse por literatura e escrita o levou a cursar letras na Universidade de Brasília, a UnB, onde se formou em 1988. Pensou em ser professor de grego, mas acabou optando pelo Instituto Rio Branco e enveredou pela diplomacia. Nos primeiros anos no Itamaraty, a vida intelectual de Araújo andou separada da profissional. Suas áreas de afinidade eram a filosofia e a literatura, mas no ministério tinha que lidar com assuntos econômicos. Entre os anos 1990 e 2000, sua tarefa foi negociar acordos comerciais, o que, para ele, não era nada estimulante, pois não entrava, como desejava, na “substância do ser humano e da sociedade”.

O embaixador Sergio Florencio, com larga experiência na diplomacia, foi seu professor no Instituto Rio Branco. Durante uma conversa na varanda de sua casa, em Brasília, ele me contou que Araújo era um estudante aplicado e, embora tímido, se dava muito bem com os colegas. Após a formatura, a maior parte dos alunos daquela turma, inclusive Araújo, foi trabalhar no departamento do Mercosul, chefiado por Florencio.

Apesar de não ter formação em economia, Araújo foi encarregado de cuidar da Tarifa Externa Comum, considerada a parte mais complicada e árida do tratado de comércio, já que os países envolvidos – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – tinham economias e interesses muito distintos. Debruçou-se sobre o assunto até tornar-se um expert. Florencio costumava brincar que o Itamaraty era tão bom que o maior entendido em Tarifa Externa Comum era um diplomata formado em língua e literatura francesas.

Pela experiência acumulada no Mercosul, Florencio foi contratado para escrever um livro sobre o tema e convidou Araújo para ser coautor. Segundo ele, além de escrever muito bem, Araújo era extremamente rápido. O livro, publicado em 1998, chama-se Mercosul Hoje.

A vida diplomática, orbitando em torno de discussões econômicas e de tratados comerciais, entediava o jovem diplomata. Entre 1995 e 1999, Araújo serviu em Bruxelas. Na seção de política internacional, chegou a acompanhar os conflitos nos Balcãs, mas achava tudo aquilo “muito chato”. Não havia desafios, não havia questionamentos, ele me disse. De lá, foi transferido para Berlim, onde reencontrou uma colega dos tempos de Rio Branco, a conselheira Maria Eduarda de Seixas Corrêa, então casada com um diplomata e mãe de dois filhos adolescentes.

 

Maria Eduarda, ou Duda, como é chamada pela família e pelos amigos, é filha do embaixador aposentado Luiz Felipe de Seixas Corrêa, um diplomata de grande reputação no Itamaraty, duas vezes secretário-geral da Casa, nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Quando se separou do marido, ela engatou um romance com Araújo, com quem está casada há dezenove anos. Os dois têm uma filha, Clarice, hoje com 12 anos.

A conselheira Maria Eduarda de Seixas Corrêa Araújo é uma mulher miúda, de feições angelicais, fala e gestos suaves. Ocupa um cargo administrativo no Itamaraty e admitiu que, por vontade própria, não progrediu muito na profissão – nunca escreveu a tese exigida pelo ministério para ascender na carreira. Seus colegas de turma, contou, já são todos embaixadores. Ela preferiu cuidar dos filhos e do marido. “Não sou nada competitiva”, confessou.

Maria Eduarda viu Araújo pela primeira vez quando prestou concurso para o Rio Branco em Brasília. Ele era aluno do 1º ano do instituto e fora visitar a namorada no hotel onde a jovem Seixas Corrêa também estava hospedada. Perguntei se ela prestara atenção nele já naquela época. Ela pensou um pouco, e respondeu: “Bem, eu me lembro desse dia até hoje.” O que a encantou foi o lado “poético” de Araújo. “O Ernesto escreve muito bem sobre política e economia, mas ele tem um lado que poucas pessoas têm o privilégio de conhecer, que é esse olhar de poeta.” Quando percebe que o marido está focado demais no trabalho, ela chama sua atenção. “Cadê a poesia, eu pergunto.”

Araújo escreveu algumas obras de ficção entre o final dos anos 90 e o início do milênio – A Porta de Mogar (1998), Xarab Fica (1999) e Quatro 3 (2000), todos publicados pela editora Alfa Ômega. São livros praticamente desconhecidos e difíceis de entender. A contracapa do último dos três rebentos avisa: “Não é um romance, nem uma coleção de contos, nem um conjunto de poemas, mas um espaço ficcional. Um sistema anárquico de textos, que quer se libertar da autoridade superior da trama e da lógica dos personagens.”

Quatro 3 começa assim:

O Estado entorpece o homem. (Muitas coisas o entorpecem. A própria razão não é a luz que desperta, mas sim o enorme sono de milhares de anos, cada vez mais profundo, em que se vão apagando as letras a lápis do texto, plastificando os sabores das frutas. O que por um lado é bom. O homem precisa dormir e não aguentaria o solzão do impacto por muito tempo seguido.) O Estado é uma parede de concreto que nos esconde a verdadeira realidade e o abismo do mundo. O mundo são os tapetes roubados da embaixada que Iscaramã enviou a Veneza em 1602 e que nunca mais apareceram. O Estado deveria existir para buscar tesouros, e não para organizar a coleta de lixo.

De maneira quase sempre incompreensível, o autor dá vazão a sua fome de transcendência, configurada na luta do indivíduo contra a sociedade desumanizada, descrente e materialista. Num trecho mais acessível de Quatro 3, a insatisfação com a existência prática, carente de espiritualidade, é assim sintetizada por um dos personagens:

O ser humano está hoje fechado num quadrilátero formado pelo Financial Times e pelos direitos humanos, crescimento econômico e justiça social. Hoje é impossível mandar que alguém se exploda. Não se pode querer que os pobres vão para Ukará-lhô nem que os empresários com sua bolsa de valores vão para Ukará-lhô. Qualquer impulso sincero do ser humano é contra alguma lei, seja do mercado, seja do capítulo social da constituição. O ser humano é contrário aos direitos humanos.

De certa forma, os anseios expostos na ficção canhestra viriam a ser o cerne da futura pregação política de Ernesto Araújo contra o “globalismo” e em defesa de um Ocidente mítico, ancestral, encarnado na figura extravagante de Donald Trump.

Ernesto Araújo e Maria Eduarda costumam passar os fins de semana em família. Até pouco tempo, os filhos dela, que se dão muito bem com o padrasto, moravam com o casal. Desde que ele se tornou chanceler, as oportunidades de estarem juntos diminuíram. Quando estive com Maria Eduarda, em seu gabinete, com vista para a Esplanada, ela acabava de voltar de um almoço com o marido – coisa rara nos últimos tempos. No trabalho, eles quase não se falam, embora estejam separados por apenas um andar. Discreta, ela prefere não misturar a vida privada com a pública.

As críticas a Araújo, às vezes, a incomodam, mas ela tem a consciência de que ele também se transformou em vidraça. Aborreceu-a, especialmente, uma reportagem que dizia que ela andava constrangida com as ideias do marido. “Não sei de onde tiraram isso”, reclamou. Nem mesmo o tão enxovalhado discurso de posse, de cujo conteúdo só tomou conhecimento na hora, a deixou embaraçada. “Eu achei o discurso surpreendente e corajoso”, me disse. “Aliás, é disso que gosto no Ernesto.”

 

Durante os governos petistas, Araújo serviu em Ottawa, no Canadá, e em Washington. Nessa época, Lula, Dilma e o PT não eram alvos da fúria do diplomata. Ao contrário. Em 2008, a tese que defendeu no Curso de Altos Estudos do Itamaraty para se qualificar a embaixador – “Mercosul: negociações extrarregionais” – estava alinhada à política externa do governo na preferência que este tinha pelas relações com os países mais pobres. Só dez anos depois, essa visão seria questionada no Itamaraty por Aloysio Nunes Ferreira, que defendeu a necessidade de o Brasil pleitear sua entrada na OCDE, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, da qual participam os países mais ricos.

Em 2011, no governo Dilma, Araújo estava na embaixada em Washington, como ministro-conselheiro. Num evento diplomático, chegou a justificar a atuação da presidente como guerrilheira durante a ditadura militar, dizendo: “Especialmente entre os jovens não havia esperança de ver a democracia restabelecida por meios pacíficos. A impressão era de que o governo militar iria ficar para sempre. Então, muitas pessoas, a despeito das instituições, decidiram pegar em armas. Ela [Dilma] foi parte disso.”

Em Brasília, Araújo voltou a se ajeitar na cadeira, massageou a testa e deu sua versão para o episódio. “Nesse caso específico, eu pretendi explicar o governo do PT, e não defendê-lo.” Ele admitiu, contudo, ter acreditado em certo momento no nacionalismo econômico, nas políticas sociais e no crescimento feito à custa do endividamento público, tal como defendido pelos governos petistas. “Tudo se mostraria, depois, insustentável”, disse. “Fui iludido, como outras pessoas foram.”

As manifestações a favor do impeachment de Dilma moldaram o novo pensamento político de Ernesto Araújo. Em 2015, quando ocupava em Brasília a subchefia de gabinete do chanceler Mauro Vieira, acompanhou, fascinado, a ebulição nas ruas e redes sociais. Viu ali uma novidade, uma vez que os protestos não eram apenas contra o governo, mas, conforme avaliou, “contra todo um sistema de condomínio de poder que vinha desde a redemocratização”. A grandeza das manifestações, afirmou, estava no fato de proporem uma mudança política profunda. “Era o lado nacional, nacionalista, patriótico”, exultou. Ele diz que se emocionava ao ver as bandeiras verde-amarelas flamulando no lugar das bandeiras vermelhas – sinal, nas suas palavras, de que a defesa de um partido ou de uma ideologia tinha dado lugar à luta pelo país. Descobriu que era exatamente isso que ele mesmo buscava.

Marcou-o, em especial, o dia em que o então juiz Sergio Moro, numa decisão muito controversa, tornou pública a conversa telefônica de Dilma com Lula na qual ela avisava o ex-presidente que o nomearia ministro da Casa Civil e deixava implícito que aquilo visava evitar a prisão dele. Pelos grandes painéis de vidro de seu gabinete, Araújo viu a multidão ocupar a Esplanada dos Ministérios, em protestos contra o gesto da presidente. Decidiu, então, se juntar aos manifestantes. “Foi libertador poder gritar pelo impeachment de Dilma, por Lula na cadeia”, contou.

Aquele momento foi uma epifania, uma espécie de “caminho de Damasco” em sua vida, em que reviu todos os seus conceitos políticos. “Me senti parte do povo. Senti o movimento entrando na vida nacional e mudando tudo. Não era PT e PSDB que eu queria. Entendi que os dois faziam parte de um mesmo sistema de poder, desvitalizado, descomprometido com a nação.”

Começou a prestar atenção nas discussões nas redes sociais, nas ideias de Olavo de Carvalho e no discurso de Jair Bolsonaro. “O grande projeto político de Bolsonaro é a união da dimensão econômica com a identidade nacional, sem a qual não se muda nada. Foi a primeira vez que vi isso no Brasil; antes, só tinha visto no Trump.”

No Itamaraty, há quem veja em Ernesto Araújo nada mais que um oportunista – isso explicaria o desembarque do modelo intervencionista do PT e a adesão ao projeto ultraliberal e nacionalista de Bolsonaro. Mas Sergio Florencio defende o ex-aluno. “Não creio que seja um oportunista. Nunca o vi como um entusiasta do PT, mas reconheço que também não conhecia esse seu lado conservador nacionalista.”

O mais ruidoso adversário declarado do ministro dentro do Itamaraty é o embaixador Paulo Roberto Almeida, que foi demitido da presidência do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais, o Ipri, após fazer reiteradas críticas em seu blog Diplomatizzando a Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro e Filipe Martins.

Almeida se referiu a Carvalho como “sofista da Virgínia”, chamou Martins de “olavista fanático”, e Eduardo, de “fundamentalista trumpista”. Na esteira dos ataques, replicou o apelido que o colunista José Fucs, do Estado de S. Paulo, pespegara em Martins: “Robespirralho”, um trocadilho com Robespierre, o radical líder do período do Terror da Revolução Francesa. Na manhã de 4 de março, segunda-feira de Carnaval, Almeida recebeu um telefonema de Pedro Wollny, chefe de gabinete de Araújo, comunicando-o de que estava fora do Ipri. “O Pedro alegou que a demissão já estava decidida, em razão das várias mudanças que estão sendo feitas no Itamaraty”, disse. “Ora, se era assim, por que me despedir na segunda-feira de Carnaval?” O embaixador sugeriu que a dispensa ocorresse depois do feriado. Wollny foi irredutível, admitindo que o ministro não estava satisfeito com ele. “Fui demitido porque falei mal dos gurus do Ernesto.”

Almeida se referiu ao chanceler como “uma figura menor na cadeia alimentar da política externa brasileira”, que teria no topo – conforme a classificação que expôs para mim – Eduardo Bolsonaro, seguido de Carvalho e, depois, Martins. “O Ernesto é um peão nas mãos desses malucos trogloditas”, afirmou. Na sua avaliação, Araújo é um diplomata conservador, muito profissional, mas apagado. “O Olavo deve ter metido na cabeça dele, naquele encontro na Virgínia, que ele poderia vir a ser o chanceler”, especulou. “Ele viu aí uma oportunidade e passou a apoiar Bolsonaro no blog dele.” Apesar disso, não considera Araújo um oportunista. “Ele é um adesista”, disse. Fez uma pausa, e arrematou: “Ele faz o que todo diplomata obediente faz. O diplomata é antes de tudo um submisso.” Nesse sentido, explicou, ele não age muito diferente de Celso Amorim, que serviu a Lula, Dilma, Fernando Henrique Cardoso e foi até mesmo representante cultural da ditadura militar, ao presidir a Embrafilme no governo Figueiredo.

A demissão de Almeida ganhou as páginas dos jornais e as redes sociais. Dias depois, Araújo explicou a decisão numa entrevista: “Ele tem o direito de discordar, mas não de me ofender.” Pela eloquência com que emite suas opiniões, Almeida já havia sofrido reprimendas nos governos tanto de Fernando Henrique Cardoso quanto do PT. Segundo sua versão, foi o secretário-geral Seixas Corrêa, durante o governo FHC, que o puniu com a “lei da mordaça”, proibindo-o de expressar suas ideias publicamente. Almeida passou o período do PT no ostracismo, sem posto, por ser um crítico ácido da política econômica do governo.

 

O embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa é um homem calvo, parrudo e de expressão bonachona. Quando conversei com ele, em março, em seu apartamento em Copacabana, decorado com obras de arte e muitos porta-retratos com fotos da família, negou que tivesse punido Almeida com a lei da mordaça. “De forma alguma”, disse. Depois, dando a entender que não perderia tempo com o antigo subordinado, foi mansamente ferino. “O Paulo Roberto é um rapaz muito inteligente, mas, sinceramente, ele não existe.”

Seixas Corrêa recebeu com orgulho a indicação do genro para o ministério, mais ainda por causa da filha, com quem tem grande afinidade. Ele avalia que Araújo, apesar de jovem, teve uma carreira muito consistente. Trata-se, na sua descrição, de um sujeito reservado, inteligente, culto e dono de uma excelente biblioteca. Quando perguntei se era verdade, como foi ventilado na imprensa, que se sentia constrangido com a forma de o chanceler agir, ele foi sincero. “Constrangido, não. Mas não faria o que ele está fazendo.”

Em seguida, como se atendesse a um alerta interior, avisou: “Mas não quero falar com você sobre isso porque não quero dar a ideia de que o estou combatendo.” Justificou-se. “Não seria correto, da minha parte, explicitar minhas divergências com ele. Ele é o chanceler de um governo que tem uma determinada linha ideológica, ele tem a confiança do presidente, está bem alicerçado nessa confiança e está enfrentando com muita galhardia a oposição interna do Itamaraty.” Oposição que o embaixador, com ar de desconsolo, disse nunca ter testemunhado em seus cinquenta anos de carreira. Seixas Corrêa reconhece, entretanto, que um chanceler com o perfil de Araújo é uma novidade.

Embora admire as qualidades morais do genro, não compartilha dos mesmos pontos de vista. Nunca se ocupou, por exemplo, dos livros de Olavo de Carvalho. Tentou ler um deles, mas achou desinteressante. Quanto a Trump, tem dúvidas de que possa ser reeleito. “Se os democratas tiverem um bom candidato, pode ser que ele caia.” Interrompeu a explanação, como se refletisse se deveria manifestar ideias tão opostas às de seu genro, mas foi em frente. “O Trump é um demagogo de primeira qualidade. Ele olha com olhar ameaçador. A vitória dele foi um espanto.”

Por causa da polêmica que cerca Araújo, Seixas Corrêa tem evitado aparecer nas rodas dos amigos diplomatas. “Quando eu chego, as pessoas, para me proteger, interrompem a conversa e avisam: ‘Olha, o Felipe está chegando.’” E riu, como se a situação o divertisse.

 

Na gelada tarde de 13 de fevereiro, o chanceler Ernesto Araújo relaxava no agradável bar do hotel Regent Warsaw, numa área arborizada de Varsóvia. Ele desembarcara por volta de 13 horas na capital polonesa, onde iria participar no dia seguinte de um evento de nome pomposo: Conferência Ministerial para Promoção de um Futuro de Paz e Segurança no Oriente Médio, organizada pelo governo americano, com apoio do governo polonês. Apesar das longas horas de voo, parecia bem-disposto e satisfeito.

A Polônia tem um significado especial para Araújo. Um ano depois da publicação de seu texto “Trump e o Ocidente”, inspirado no discurso feito pelo presidente americano em Varsóvia, Araújo desembarcava na capital do país, atendendo a um chamado dos Estados Unidos. Mais de cinquenta nações participariam da conferência. Além dos países diretamente interessados, como Israel, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Bahrein e Catar, estavam lá Itália, Hungria e Áustria. O Brasil era o único representante da América Latina.

Comentei com Araújo, enquanto a garçonete depositava café e água sobre a pequena mesa redonda, que não deixava de ser inusitado um chanceler brasileiro participar de uma conferência sobre a paz no Oriente Médio – onde o Brasil não tem a menor influência. Ele mexeu o café, tomou um gole e iniciou sua explanação. “Num encontro desses ganhamos projeção internacional”, disse. “Existe uma tendência de se distinguir o econômico do político. Isso é errado. Quando você está presente, as pessoas querem se aproximar, se interessam em fazer parcerias. E parcerias políticas se traduzem em parcerias econômicas.”

A viagem do chanceler à Polônia talvez seja a chave para entender a estratégia da política externa de Bolsonaro. Quando conversamos no bar do Regent Warsaw, Araújo defendeu com entusiasmo que o Brasil só será forte se mostrar ao mundo que tem aliados fortes. “A China tenta traduzir poder econômico em político”, explicou. “O Brasil, ao contrário, tenta ter presença política maior e quer tentar traduzir isso em mais poder econômico, mais pujança.” Já os Estados Unidos, ele avaliou, têm uma visão integral. Tudo está na mesa: geopolítica, economia, defesa.

Chegou então ao ponto central. “Quando os americanos veem que temos posições mais próximas às deles nessas discussões sobre o Oriente Médio, fica mais fácil chegar para eles e discutir a questão do trigo ou do etanol. Isso tem valor.” Disse também que, se algum país tentar tomar alguma atitude contra o Brasil, “vai pensar duas vezes, porque verá que o Brasil tem articulação”. A conversa não deixou dúvida de que o objetivo de sua presença ali era mostrar que, no jogo das grandes potências mundiais, o Brasil não está mais neutro. Agora tem um lado: os Estados Unidos.

No dia seguinte, às sete e meia da manhã, o ministro já estava a postos no saguão do hotel, de onde seguiu com a comitiva brasileira para a conferência, no Estádio Nacional, nos arredores de Varsóvia. O ponto alto do encontro seria o pronunciamento do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence. O discurso foi duro, fazendo lembrar os inflamados pronunciamentos de George W. Bush, em 2002, quando acusou o Irã e o Iraque de fazerem parte do “Eixo do Mal”. Pence despejou uma série de impropérios contra o Irã, acusando o país de apoiar o terrorismo e ser uma ameaça ao Oriente Médio. Voltou-se, depois, contra a Alemanha, a França e a Inglaterra, por causa do aval que dão ao acordo nuclear com o Irã e das relações comerciais que mantêm com o país, furando o bloqueio americano. Ao final do encontro, os participantes adotariam em conjunto uma linguagem pesada contra o Irã.

 

De volta ao hotel, o chanceler acomodou-se em uma pequena saleta, no 1º andar do prédio. Enquanto abria uma garrafa de água mineral, disse que a conferência mostrou para a França, Inglaterra e Alemanha que os países do Leste, Israel e boa parte dos países árabes não querem o acordo nuclear com o Irã. Contou que o evento foi uma boa oportunidade para que ele pudesse conversar com representantes dos países árabes e de Israel, cuja delegação foi chefiada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Além de fazer contatos comerciais, aproveitou para explicar a posição brasileira a respeito da transferência da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, o que é rechaçado pelos árabes, grandes parceiros comerciais do Brasil. “Nós achamos que é direito de Israel ter a sua capital em Jerusalém, mas explicamos, tanto para os representantes dos países árabes quanto para Israel, que este ainda é um assunto em discussão.” O ministro trata com cautela a questão para não melindrar a base evangélica de Bolsonaro, a principal interessada na transferência da embaixada. Para os evangélicos, a reocupação integral de Jerusalém pelos judeus resultará na segunda vinda de Cristo e na redenção da humanidade.

Na parte da manhã, Araújo fora um dos palestrantes do painel sobre refugiados. Expôs sobre a crise com o governo da Venezuela, ao qual só se refere como ditadura. “Existem imperativos morais que nos obrigam a usar de uma linguagem dura”, me explicou. Fez uma pausa e trouxe a China para a conversa, afirmando que também com relação a esse país há uma questão ética a ser considerada. Enquanto amassava uma tira de metal que tirara da tampa da garrafa, valeu-se da “linguagem dura” contra o principal parceiro comercial do Brasil. “O predomínio econômico chinês não vai se traduzir em perda de liberdade para as pessoas no resto do mundo? Claro que vai”, disse. E seguiu numa escalada: “No curto prazo, precisamos da parceria com a China. Mas não se pode enfiar a cabeça na areia e ser cego à realidade. Não creio que a China não queira exportar seu modelo, que só pretenda fazer negócios. Aos chineses não interessa que os países mantenham a sua liberdade, já que não tem isso lá”, diz Araújo.

O chanceler não parecia preocupado em expor, sem travas, sua opinião sobre a China, e justamente no ano em que o Brasil sediará a reunião dos países que compõem o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Do seu ponto de vista, não há dúvida de que “a China quer comprar o mundo e avançar os seus interesses em todos os lugares, até que os países se tornem dependentes e não consigam fazer mais nada”. Ele acha que, nas relações com os chineses, não se pode separar o interesse econômico dos valores da democracia.

Para ele, está muito claro que a China será um problema cada vez maior para o Ocidente e que os europeus ocidentais, embora reconheçam os riscos do avanço chinês, evitam discutir o assunto porque, “erroneamente, não gostam de Trump”. E, outra vez, tomou as dores dos americanos. “Os europeus acham que eles não têm nada a ver com os Estados Unidos, que não são parte do mesmo projeto civilizacional”, disse, esticando a fita de metal na borda da mesa e dobrando-a novamente. “Veem a China chegar e não querem fazer nada a respeito. Os americanos querem. Eu não quero viver em um mundo em que os Estados Unidos sejam economicamente secundários, e a principal potência mundial seja um país que não é uma democracia.”

Isso poderia significar que o Brasil reduziria o comércio com a China? Ernesto Araújo foi pragmático. Sustentou que a China continuará como grande parceiro do Brasil e que o comércio com o país deverá até ser incrementado. Era a tal “verdade efetiva das coisas”, da qual falava Maquiavel.

Existe, porém, uma coordenação no ataque aos chineses feita por Steve Bannon e Olavo de Carvalho. Quando, em janeiro, uma delegação de parlamentares do PSL voou para a China para apreciar a tecnologia do país, Carvalho liderou uma cruzada nas redes sociais contra os parlamentares, acusando-os de serem comunistas infiltrados no partido do governo. Os Estados Unidos travam uma guerra comercial com a China principalmente em torno das novas tecnologias, nas quais os chineses começam a ganhar a dianteira. Os americanos temem perder os grandes mercados para seu rival asiático.

Bater violentamente num parceiro crucial para o país fere, sem dúvida, os manuais da diplomacia. O embaixador José Alfredo Graça Lima, um especialista em Ásia, vê com apreensão as manifestações do chanceler e de Bolsonaro contra os chineses. “Não existe nenhum outro país hoje que tenha uma parceria tão institucionalizada quanto o Brasil com relação à China”, ele me disse. “Os chineses são nosso parceiro no Brics. Isso envolve, senão lealdade, pelo menos o reconhecimento de que temos vínculos com o país. Além disso, não temos nem o poderio econômico nem o poderio militar dos Estados Unidos. Nós somos um país dependente do agronegócio, e a China é o nosso maior comprador.”

Perguntei a Araújo se as restrições à democracia na Polônia não o incomodavam tanto quanto o incomoda o regime político chinês. Embora tenha sido eleito pelo voto popular, o governo polonês tem adotado medidas que ameaçam as liberdades civis e a independência entre os poderes. “A Polônia é uma nova cara da democracia”, rebateu Araújo. E foi além, atacando os críticos dos governos nacionalistas que têm despontado na Europa: “O que essas pessoas querem é uma democracia controlada por certa visão de mundo compartilhada por uma pseudoelite intelectual e pela mídia, que desconsidera o sentimento de nação e acusa qualquer tipo de nacionalismo de xenofobia e autoritarismo.”

 

Pouco mais de um mês depois da conferência de Varsóvia, o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva desembarcaram em Washington para o encontro com Trump. Araújo, claro, estava junto. A visita deu ocasião a cenas explícitas de vassalagem do presidente brasileiro em relação ao americano. Apesar do desbunde e das concessões feitas pelo Brasil (por exemplo, o fim da exigência de visto para os americanos entrarem no país, sem a contrapartida para os brasileiros), alguns analistas sustentam que Bolsonaro saiu dos Estados Unidos com algumas vitórias.

A primeira foi o apoio de Trump aos anseios do Brasil de fazer parte da OCDE, ao lado dos pesos-pesados do comércio mundial. A segunda foi o acordo para arrendar aos americanos a base de lançadores de satélites de Alcântara, no Maranhão. O dinheiro arrecadado irá para a Força Aérea, que o empregará no programa espacial brasileiro. Finalmente, o terceiro ganho foi a conquista do status de “grande aliado extra-Otan” (Organização do Atlântico Norte) dos Estados Unidos, o que permitirá que o Brasil compre armas com desconto dos americanos – antiga reivindicação dos militares brasileiros.

“Os Estados Unidos deram três presentões a Bolsonaro”, me disse Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas de São Paulo e estudioso das relações entre Brasil e Estados Unidos. “De uma só tacada, Trump facilitou a vida do presidente com o mercado e com os militares, duas bases importantes de seu governo.” Isso mostra que o governo Trump está vendo de maneira muito positiva a aproximação com o Brasil, uma vez que Bolsonaro é um dos poucos chefes de Estado a celebrá-lo abertamente.

Apesar das aparentes conquistas, a adesão cega de Bolsonaro a Trump comporta riscos. O primeiro deles é a insatisfação do Partido Democrata com o governo brasileiro. Na mesma semana da visita, democratas americanos criticaram o país por causa do retrocesso nas questões relativas ao clima (o Brasil sinalizou que sairia do Acordo de Paris, mas recuou) e pela leniência com as milícias. Spektor não tem dúvida de que, se o Brasil precisar de alguma concessão americana que demande aprovação do Congresso, os democratas irão barrar.

Caso Trump não vença as eleições em novembro do ano que vem, a situação pode se complicar. “Seja um democrata o vencedor, ou um republicano que derrube Trump nas primárias, o Brasil vai estar em maus lençóis”, analisou Spektor. “Todos esses acordos assinados agora podem dar para trás.”

Nem mesmo os governos militares, em plena Guerra Fria, aderiram tão incondicionalmente aos americanos como agora. Ao contrário. Nos governos Médici e Geisel, o país se indispôs algumas vezes com os Estados Unidos. Uma delas, por causa do alargamento do mar territorial brasileiro para 200 milhas, disputa na qual o Brasil saiu vencedor. A outra, em razão do acordo nuclear do país com a Alemanha, que desagradou os Estados Unidos. No campo da segurança, os militares brasileiros sempre foram cautelosos em relação ao maior parceiro do Norte.

 

A adesão irrestrita ao governo americano, conduzida com entusiasmo juvenil pelo bolsonarismo, preocupa seriamente os diplomatas brasileiros. Um deles é Roberto Abdenur, que era embaixador na Alemanha quando Ernesto Araújo serviu em Berlim. “O risco é que o pró-americanismo do atual governo nos leve a atitudes equivocadas e contrárias aos interesses nacionais, afetando as relações com a China, o Irã, os palestinos, os países árabes, os africanos, e assim por diante”, me disse ele, em seu apartamento, na Zona Sul do Rio de Janeiro. “Não vejo grandeza na atual posição do Itamaraty; vejo, sim, subserviência aos Estados Unidos.”

No dia seguinte à volta da comitiva brasileira, o chanceler convocou uma entrevista coletiva no Itamaraty para falar dos resultados da viagem. Antes de enumerá-los, fez uma espécie de desabafo em relação às críticas de que teria tido um papel secundário – entre outras razões porque Eduardo Bolsonaro, e não ele, acompanhou o encontro entre o presidente brasileiro e Trump no Salão Oval da Casa Branca.

Demonstrando certo nervosismo na voz, desabafou. “Se vocês gostam dos resultados com os Estados Unidos, então reconheçam que parte disso são as ideias que eu venho desenvolvendo e publicando. Se não gostam dos resultados, está bom, então critiquem minhas ideias.” Foi justamente no ensaio “Trump e o Ocidente” que ele expôs com mais vigor tais ideias.

Voltemos ao ensaio que catapultou Araújo ao topo do Itamaraty. No final do texto, ele ressalva que Martin Heidegger “jamais acreditou na América como portadora do facho do Ocidente” e que considerava os Estados Unidos um país tão materialista quanto a União Soviética, “incapaz da autopercepção metafísica indispensável à geração de um ‘novo começo’’’. Mas conclui afirmando que o filósofo, caso tivesse ouvido o discurso do presidente americano em Varsóvia, talvez dissesse: “Nur noch Trump kann das Abendland retten, somente Trump pode ainda salvar o Ocidente.” Heidegger talvez não fosse tão longe, mas Araújo chegou lá.



Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras