vultos da república

O chanceler do regresso

Os planos de Ernesto Araújo para salvar o Brasil e o Ocidente

Consuelo Dieguez
“Não creio que a China não queira exportar seu modelo, que só pretenda fazer negócios. Aos chineses não interessa que os países mantenham a sua liberdade, já que não tem isso lá”, diz Araújo
“Não creio que a China não queira exportar seu modelo, que só pretenda fazer negócios. Aos chineses não interessa que os países mantenham a sua liberdade, já que não tem isso lá”, diz Araújo FOTO: J.R. DURAN_2019

Na tarde de 21 de fevereiro, a assessoria do chanceler Ernesto Araújo dava os retoques finais na nota do Ministério das Relações Exteriores sobre a operação de ajuda humanitária internacional à Venezuela que ocorreria dali a dois dias. O pedido para que o Itamaraty se incumbisse da divulgação do evento fora feito, horas antes, pelo Palácio do Planalto, e os jornalistas aguardavam ansiosos pela informação no andar térreo da chancelaria, na Esplanada dos Ministérios. Embora aquele fosse um dos dias mais tensos da crise da Venezuela com os países vizinhos, o ministro, acomodado na cadeira estofada em couro preto, atrás da grande mesa de madeira de seu gabinete, no 2º andar do prédio, demonstrava tranquilidade.

Por volta das sete da noite, seu assessor de imprensa, o diplomata João Alfredo dos Anjos Junior, interrompeu de maneira cordata a entrevista que o chanceler dava à piauí. Queria informá-lo que o porta-voz do Planalto concedia naquele instante uma entrevista coletiva para explicar a logística da operação na fronteira. Araújo assistiu à transmissão no celular do assessor e, em seguida, anunciou: “Deixa eu tuitar aqui então.” Numa velocidade surpreendente, o ministro postou três mensagens em seu próprio aparelho, informando: 1) Da sua ida para Cúcuta, na fronteira da Colômbia com a Venezuela, no dia seguinte; 2) Da viagem que faria à Pacaraima, em Roraima, no sábado, para supervisionar o envio da ajuda brasileira aos venezuelanos; 3) De sua reunião em Bogotá, na segunda, dia 25, em companhia do vice-presidente, general Hamilton Mourão, para discutir a crise com o Grupo de Lima, formado por Brasil e mais treze países, entre eles Argentina, Paraguai, Colômbia, Peru, Chile, Costa Rica e Canadá. Enquanto escrevia, levantou por um instante a vista para mim e, se desculpando pela interrupção, disse, com expressão marota: “Momento de tuitagem.” E voltou a mergulhar na tela do celular.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES
Para acessar, assine a piauí

Consuelo Dieguez

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina #47: Bolsonaro joga diesel na crise, deputada é ameaçada, e STF embarca na censura

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Delação financiada

Pressionada pela Lava Jato, CCR decide pagar 71 milhões de reais para demitir executivos e transformá-los em delatores; acionistas minoritários protestam

A guerra perdida de Toffoli

Embate no Supremo mostra sucessão de equívocos, avalia professor da FGV

Verbas pelo ralo

Empresa contratada com dinheiro de emenda apresentada pelo secretário de Previdência fez depósitos na conta de parente de Marinho; caso explicita descontrole na fiscalização

Foro de Teresina #46: Os 100 dias de governo, o marasmo na economia e a chuva (de tiros) no Rio

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O Caso Hammarskjöld – persistência recompensada

Documentário tem chance de ajudar a esclarecer morte de secretário-geral da ONU

Foi atender o telefone e voltou demitido

Embaixador diz que Apex era “jardim de infância” com diretora despreparada e protegida pelo chanceler

Mourão, o avalista  

Atacado pelos radicais bolsonaristas, o vice-presidente se coloca como garantia contra solavancos do governo

Balança mas não vende

Bolsonaro prioriza relações com Israel, mas Brasil tem déficit com israelenses e superávit com Liga Árabe

Mais textos
2

Delação financiada

Pressionada pela Lava Jato, CCR decide pagar 71 milhões de reais para demitir executivos e transformá-los em delatores; acionistas minoritários protestam

3

Verbas pelo ralo

Empresa contratada com dinheiro de emenda apresentada pelo secretário de Previdência fez depósitos na conta de parente de Marinho; caso explicita descontrole na fiscalização

4

Foi atender o telefone e voltou demitido

Embaixador diz que Apex era “jardim de infância” com diretora despreparada e protegida pelo chanceler

7

“A vida, a humilhação, a gozação nas ruas”

Uma história da República chega ao fim

8

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

9

The BolsozApp Herald

A rede social mais patriótica do Brasil

10

Os manifestantes estão em pânico

O que querem os coletes amarelos?