concurso literário

Oportunidades e visões

O vencedor e os quatro finalistas da edição de fevereiro do nosso concurso literário

 

– Posso sentar? – perguntou um homem branco.

Todo de preto. Calvície à mostra e barba volumosa caindo para o pescoço. Trazia consigo dois exemplares do Seja o Cara Mais Demais da sua Casa e Conquiste o Mundo em Três Dias. Melhor que Jesus, seu novo best-seller.

– Não sei se é uma boa ideia. – disse o homem sentado à mesa.

Estava de óculos escuros e olhava fixamente para o horizonte. Ao seu lado, um cachorro comia um biscoito de chocolate.

– Por quê, meu caro?

Esticou o braço para cumprimentá-lo. Ficou assim por três segundos, chegou bem perto de seu rosto, percebeu o equívoco.

– Estou bem aqui sozinho.

– Dois segundos. Pode ser? – Terminou a pergunta já sentando.

– Tudo bem.

– Permita-me me apresentar: sou Jorge Barreiro. Claro, já deve me conhecer. Tá vendo aquela livraria ali?

– Não vejo nada.

– Como não? Bem ali. – Apontou para a esquina mais próxima.

– Sou cego.

– Ah sim, claro. Claro. Enfim, escrevi o livro Seja Demais. Nunca Deixe de se Olhar no Espelho. É um sucesso. Estou na divulgação do meu segundo livro: Seja o Cara Mais Demais da sua Casa e Conquiste o Mundo em Três Dias. Melhor que Jesus. Agora, deixa eu te perguntar: você se acha solitário?

– Olha, eu realmente estou bem aqui.

– Mas é claro que se acha. Afinal, não é a solidão o destino final de todos os homens?

– Pode ser. Mas eu queri…

– Nesta condição horrível que o senhor se encontra. Nada vê. Pode, talvez, não enxergar a mudança em sua frente. Sabe quem também está cego? O governo. A imprensa. Os globalistas. Mas tudo bem. Isso pode mudar pra você. Com este livro e mais alguns cursos, que terei o prazer de te indicar. Tudo a um preço tranquilo. Pode pagar com bitcoin. E tudo, claro, com certificado personalizado para você postar no seu perfil do LinkedIn.

– Eu agradeço, mas não sou muito de ler.

– Sim. Claro. Segundo a última pesquisa do DiaPapel, 95% dos brasileiros não leem sequer uma página por ano. Uma página. Não é isso que faz o Bill Gates. Posso te garantir. Você conhece os hábitos dos milionários? Aliás, quais são os seus ídolos? E as referências? O que te inspira? Fiz um post no meu blog sobre isso ontem mesmo.

– Não tenho ídolos.

– Pois esse é justamente o 14° passo para ser demais. Está bem aqui. – Foi abrindo o livro para ler o trecho. – Olha, posso te contar o que me inspirou a me tornar o escritor que sou hoje. Não tem problema. Anota aí.

– Não escrevo.

– Tudo bem. Escuta aí. Primeiro da lista: Paulo Guedes. Conhece?

– Não.

– Porra, cara. É o melhor. História fantástica por trás dos panos da política. Sempre atento. Sabe de economia como ninguém. Quis me matricular no workshop “Ensinando pobre a poupar”, do Paulo Guedes, mas faltou grana. Tudo bem. Ano que vem tem mais. Sempre bom ouvir o Nando Moura também. Ótima pessoa. Luccas Neto está em outra área, mas é exemplo de empreendedorismo neste país preguiçoso. Tem o Netinho de Paula também.

– Esse aí não bateu na mulher?

– Erros. Apenas erros. Olha. Veja isso aqui.

Tirou do bolso um chaveiro do Baby Yoda e balançava como um pêndulo na frente do cego.

– Sou cego.

– Claro. Mas, veja: essa criaturinha aqui eu levo comigo para todos os lugares. É o Baby Yoda. Aquele do Star Wars, sabe? Ele comanda toda a franquia. Tem o mindset de um vencedor. Domina a porra toda. Olha pra esse rostinho. Olha esses olhinhos de quem vai vencer. Desde criança. É isso que passo para meus alunos. É isso que está neste livro. É isso que quero te passar. É o DNA vencedor.

Conforme foi avançando no discurso, seus olhos se encheram de lágrimas e a voz embargou.

– Está chorando?

– Esse carinha aqui sempre me deixa orgulhoso demais. Que storytelling. Que vida.

– Entendo.

– E aí, vamos começar?

– Realmente não estou interessado.

– Cara, a vida é uma só. As coisas não voltam. É uma pena. Mas, de qualquer forma, deixo este exemplar aqui para o senhor ler. Meu telefone está na contracapa.

– Eu não conseguirei ler.

– Mas posso fazer um stories contando nossa história? Meus seguidores vão amar. O dia que encontrei um cego e fiz ele se emocionar.

– Estou bem no meu canto. Leve seu livro.

Irritado com a última recusa, penteou a barba, levantou-se da mesa e xingou o coitado do cego. O cego permaneceu imóvel, segurando o livro em suas mãos.


ESTREPITOSO CONCURSO LITERÁRIO
Faça-nos rir e ganhe o Prêmio Nacional das Artes Nazifasci.

Se você acha que leva jeito pra coisa, participe do já antológico concurso Encaixe a frase.

Todo mês, proporemos uma frase obrigatória e um ingrediente improvável. Atentando sempre para a nobreza de nossos mitos fundantes, ambos deverão ser incorporados a uma história que seja heroica e nacional, dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e também imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo. Envie um texto de no máximo 5 mil toques ou uma HQ de 1 página, até o dia 17 de fevereiro  para concurso@revistapiaui.com.br.

Além de ser publicado na próxima edição da piauí, o vencedor terá direito a fazer o papel de Plínio Salgado em O Ouro do Tietê, ópera de Wagner em releitura integralista de Roberto Alvim.

FRASE DO MÊS:
“Não se assustem se alguém pedir uma jujuba azul.”
Elemento estranho: Raskolnikov

O VENCEDOR DE FEVEREIRO: A frase a ser encaixada era: “Quis me matricular no workshop ‘Ensinando pobre a poupar’, do Paulo Guedes, mas faltou grana”, e o elemento estranho era “Baby Yoda”.  O campeão é Danilo Brandão, a quem recomendamos vivamente que não dirija sob efeito da própria escrita. Os outros quatro finalistas estão abaixo.

Confira aqui as regras do nosso paleolítico certame literário.

*

Textos finalistas

MOSCA MORTA
ADILSON ROBERTO GONÇALVES

Eram duas as formas de matar moscas: traumatismo craniano ou falta de espaço. A eletrocussão veio bem depois, quando uma raquete de plástico com tela de aço ligada a pilhas no cabo foi comprada.

Esperando a mosca sentar em lugar visível, de preferência na altura entre o peito e o umbigo, estendia-se a mão direita com a palma aberta em sentido vertical. Aproximava-se lentamente do inseto, pela frente dele, e, quando a mosca cruzava suas patas dianteiras parecendo se limpar, fazia-se o movimento súbito em direção a ela, fechando a mão, sendo fácil capturá-la, isso com treino. Depois, era só arremessar o conteúdo dentro do punho fechado com toda a força no chão. Pronto, morte por traumatismo craniano.

Moscas maiores ou mais lentas voam baixo, perto do chão, e demoram para pousar. A essas o arremesso de um chinelo resolve, calibrando a mira e mantendo-o na horizontal, e elas morrem esmagadas entre a sola e o piso, ou seja, por total falta de espaço.

As técnicas eram sabidas e o mentor do orfanato improvisado observava meus gestos e, generoso, gostaria de empreender e vender o conhecimento de um de seus protegidos. Seu carinho era distribuído às crianças todo dia. Era pobre de direita, gente de bem, e, quando foi preso tempos depois, dizia que só queria a felicidade dos miúdos, não se perguntando se quando fodesse, todos gozavam.

Um curso de ‘dead flies coaching’ seria o caminho para aprimorar a técnica de vender e convencer, leu no twitter, mas precisava de um capital inicial para o empreendimento. Bater na porta dos vizinhos para matar moscas não devia dar muito lucro, pobres que todos eram, além de chamar a atenção desnecessária para o amoroso orfanato ali existente. Acabar com mosquitos da dengue seria mais chamativo, porém, a técnica era restrita às moscas.

O governo pagava diretamente a ele para cuidar de nós; conseguiu tal façanha com um advogado que trabalhava com ‘gerenciamento de pessoas de menor’, como ele educadamente nos chamava, mas a assistência social exigia que uma quantidade mínima de dinheiro, em cédulas de baixo valor, ficasse em nossos bolsos, para uma certa autonomia e pagar algum lanche na rua. Pena que não examinavam o que ficava entre os dois bolsos dos calções que usávamos.

O mentor até quis me matricular no workshop ‘Ensinando pobre a poupar’, do Paulo Guedes, mas faltou grana; bem faltou para ele que veio me pedir para usar o que eu recebia para ajudar no grande empreendimento. Fiz cara de paisagem urbana. Os caraminguás no meu bolso eram para assistir escondido a Star Wars, sem ele saber, e encerrar de vez minha questão com os Jedis. Minha poupança já tava metida e comprometida mesmo e não ia perder a oportunidade de entender por que o Mestre dos Mestres, meu herói, foi transformado no infantil Baby Yoda de tanta repercussão na internet. Talvez ele também coma moscas para sobreviver.

FALA “OI”
DANIEL U. IANAE

– Dinda, adivinha o que eu trouxe pra você de presente de Natal?

– Oi, Antônio, mas que maravilha.

– Calma, Dinda, você ainda não viu o que é.

– Eu tenho certeza que vindo de você só pode ser uma coisa maravilhosa.

– Vai, Dinda. Abre logo que eu também quero ver…

– Deixa ela, Mari.

Depois de um tempo se esforçando para abrir o embrulho, cheio de fitas adesivas, Dinda pede ajuda:

– Antônio, eu tenho certeza que é muito lindo, mas está um pouquinho difícil de abrir.

Então Mari pega o pacote da mão de Dinda e rasga o embrulho. Antes que qualquer um ali esboçasse uma reação, Mari retornou a caixa já revelada para o colo da Dinda:

– Olha, Dinda, é um smartphone!

– Agora a gente vai poder se falar todo dia pelo telefone, pelo zap.

– É, Dinda, a família inteira já tem um, só faltava você.

– Meus amores, que belezinha! A gente vai se falar todo dia, então

– Vai! Antônio, já liga aí pra testar e cria uma conta pra ela.

Antônio abre a caixa, coloca o chip e liga o celular. Aos poucos, com o movimento dos dedos vai conectando, baixando e criando conta.

– Dinda, eu vou precisar tirar uma foto sua.

Enquanto Dinda ainda arrumava os cabelos e esboçava um sorriso, a foto já estava tirada e agora era pública nos domínios da internet.

– Mari, adiciona o número dela no grupo da família. Família-2020, ok?

Dinda ainda estava um pouco perdida com tanta informação. Parecia querer levantar um pouco, mas com Antônio de um lado e Mari do outro lado, ficava difícil até se mexer.

– Dinda, eu vou te mostrar tudo. Está vendo essa tela? Agora você tá no Zap, entendeu? É aqui que todo mundo se encontra e conversa. E tem uma facilidade: você não precisa nem digitar mais. Tá vendo esse microfone aqui? É só apertar o botão e falar o que
quiser…

– O que eu quiser?

– Sim, mas fala oi só pra testar.

Dinda arrumou novamente os cabelos e meio sem graça disse:

– Oi!

Começaram a chegar mensagens de resposta:

– Olha as mensagens que estão chegando pra você. Consegue ver? A tia Beth mandou um beijo e a tia Julia mandou flores.

– Flores… a Julia? Nossa, quem diria.

Logo após as flores da tia Julia, uma mensagem estranha apareceu na tela:

– Mari, o que é essa criatura aqui?

– É o Baby Yoda. É uma brincadeira do Marco, não tente entender.

– Ah sei, sei. O Marquinho sempre foi o mais brincalhão de vocês. E agora, o que eu faço?

– Agora você pode interagir, falar, mandar foto. O pessoal fica conversando sobre as coisas o dia todo.

– O dia todo?

– Fica vendo.

Dinda ficou observando as mensagens que continuavam a aparecer e sumir na tela. Eram mensagens de bom dia, de pratos de comida, até que uma chamou atenção dela.

– Antônio, venha cá. Quem é esse velho pedindo dinheiro?

– Deixa eu ver.

– Não, Dinda. É brincadeira do Marco, de novo. Ele não tá falando com você. Ele quis dizer algo assim: “Quis me matricular no workshop ‘Ensinando pobre a poupar’, do Paulo Guedes, mas faltou grana.”. Acho que é um curso que ele quer fazer. Eu sei lá. A
foto desse velho é o Paulo Guedes. É tipo uma figurinha.

– Paulo Guedes? Parece tanto o seu vô Arlindo.

– Credo, Dinda. Vou responder o Marco aqui óh: “Vai trabalhar, vagabundo kkkk”

– Ele já respondeu com outra figurinha. Vou responder aqui, Dinda. Ele vai ver só.

– Antônio, acho que eu prefiro ligar pra vocês mesmo viu.

Como Antônio e Mari não respondiam mais, atentos que estavam à tela do smartphone, Dinda enfim tomou impulso e se levantou. Andou um pouco e foi se sentar na cadeira que dava pra rua.

Um senhor passava na rua de bicicleta:

– Oi, Seu Jair, Feliz natal.

– Obrigado, Dona Zulmira. Feliz natal pra senhora também.

Dona Zulmira ficou um pouquinho mais na cadeira, sem falar com ninguém.

 

TALVEZ NUM FUTURO, MAS NÃO TÃO PRÓXIMO
JUNIOR SILVEIRA

Eles tiveram muito tempo pra planejar as férias.

Há 54 anos, DRE iX-75 e Romeo-b07, trabalhavam na montagem de uma fábrica de palmilhas antiaderentes sem ter um dia de folga.

Quando começaram ainda não existia nenhum grupo em apoio aos direitos trabalhistas dos robôs.

Apesar de serem Made in China, DRE iX-75 era tatatatatataraneto de uma antiga urna eletrônica. Já, Romeo, tinha em seus circuitos cobre que pertenceu a antigos robôs automatizados usadas na campanha de 2018.

O destino da viajem não foi muito difícil de escolher. Brasil.

Pousaram na JJ Camargo & Associados, antiga São Paulo, que teve seu nome alterado depois que o Governo usou a venda de namming rights das capitais para arrecadar fundos.

Paradinha rápida no hotel na beira de uma hidrelétrica para recarregar as energias.

Aproveitaram que robô não sente fome, pularam o almoço e foram direto para o Museu de Política Neo-Moderna.

Por ser uma coleção de coisas muito antigas, tudo parecia muito novo.

– Que que é isso aí? – DRE disse apontando pra uma tela posicionada em cima de um pedestal.

– Não lembro o nome. Mas tem a ver com um passarinho azul. – Respondeu Romeo.

– Pra quê serve?

– Acho que os humanos usavam pra se comunicar. Tinha protesto em forma de piada. Piada que era protesto. Até o Governo usava pra se comunicar internamente em público.

DRE chegou mais perto para conseguir ler.

“@OdeCarvalho: Em breve só restarão duas religiões no mundo: maconha e cu.”

– Não entendi. – disse ele.

– Deve ser arte. Vamos pra próxima.

Logo em frente a atração mais esperada: cabine de áudios.

“Capitão, há várias formas de se falar. Nós trocamos mensagens ontem três vezes ao longo do dia, capitão.”

Pula.

“Seguinte, eu tô mandando o “BESSIAS” junto com o PAPEL pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade.”

Pula.

“Quis me matricular no workshop ‘Ensinando pobre a poupar’ do Paulo Guedes, mas faltou grana.”

– Ah, os humanos adoravam isso. Eles usavam umas coisas chamadas “celular” pra se falar sem precisar escrever.

– Fascinante. –  Respondeu DRE. – Tá escrito aqui. O primeiro é de um Bebianno. O segundo da Dilma. O terceiro é do Moro um tempo depois que ele começou a parceria com o Eike Batista.

Na parede ao lado, a foto de todos os últimos presidentes brasileiros na era da democracia.

– Se você acertar o nome desses últimos 5, te dou um jogo de pilhas novas.

– Fácil: Bolsonaro. O primeiro nome é Carlos.

Continuou.

– Hulk. Não, Huck. Luciano Huck. Eu lembro dele porque minha placa-mãe adorava o Lata Velha.

– E ela?

– Anitta. E o quarto é o cara que começou fazendo vídeos…Felipe Neto.

– Isso. Depois já começa a era dos presidentes não-humanos.

– Esse último não sei. É o Baby Yoda?

– Não.

– Dollynho?

– Não.

– Não sei então.

– É o Baianinho. Ele era mascote da Casas Bahia até 2046, mas aí resolveu se voltar contra a sociedade capitalista e escreveu o Manifesto Comunista Pt.2 em audiobook.

Já na volta, no quarto do hotel, Romeo parecia confuso.

– O que foi? – Perguntou DRE vendo o semblante preocupado na lata do amigo.

– Eu fiquei meio assim de perguntar lá…não sei…

– Fala.

– Que que é essa tal mamadeira de piroca?

– Não faço ideia.

 

ALGORTIMOS
RODRIGO VINHOLO

— Ô, João! E o trabalho na startup?

— Vai bem.

— Tá ganhando bastante?

— Mais ou menos. A previsão é que nos próximos meses apareça algum investidor, aí começam a me pagar.

— Ih, então tá apertado?

— Um pouco. Tô pegando uns freelas para aliviar, e aí tô contingenciando onde dá, me controlando com uns planos. Quis me matricular no workshop ‘Ensinando pobre a poupar’, do Paulo Guedes, mas faltou grana.

— Ah, mas essa aí você não ia conseguir, mesmo. Não te contaram o truque?

— Truque?

— Não existe workshop.

— Oi?!

— O Paulo Guedes não fez workshop nenhum. Tem o site, tem tudo, mas não tem aula.

— Não entendi.

— São os algoritmos. Aqueles programas que calculam as coisas de acordo com o que você faz na internet. Eles acompanham seus hábitos e sabem tudo sobre você.

— O algoritmo sabe o quanto eu tenho pra gastar, é isso? Achei que ele só sabia o que eu gosto.

— Não diretamente, né. Ele sabe por inferência. Claro que se você pesquisar, sei lá, “Baby Yoda” ele vai te mostrar coisas de Baby Yoda e achar que você se interessa por ele. Mas o importante é o insumo que tira disso. Da soma de suas buscas, sacou? Ele usa o algoritmo pra saber que tipo de pobre você é.

— Cê tá dizendo que eu faço pesquisa de pobre?

— Mas é lógico, João! Eu e você! Se a gente fosse rico a gente tava ligando direto pro Paulo Guedes, mas a gente tá pesquisando curso de deixar de ser pobre! O algoritmo sabe! Procurou o curso? Pobre. Financiamento? Pobre. Oferta de viagem pra Orlando na CVC? Pobre. Cotação de dólar turismo? Pobre. Rico não faz essas coisas, não do jeito que pobre faz. E tem outras coisas mais sutis, lógico. Tem classificações de pobreza. Se o algoritmo te pega pesquisando Fusca de coleção, por exemplo, aí já sabe: pobre de restauração automotiva.

— Eu gosto de Fusca de coleção, sempre pensei em restaurar um, arranjar placa preta…

— Isso é coisa de pobre, João! Gente rica não gosta de Fusca! Fusca de colecionador é o carro de pobre que quer ser colecionador, mas nunca vai ter grana nem pra entrada de uma BMW! Você torra uma grana porque parece barato, depois torra uma grana restaurando, se enganando que vai usar pra andar de fim de semana, pra tua mulher achar que é uma merda e você só deixar na garagem e ficar andando com aquele Corsa 2001! O algoritmo sabe, João. Ele sabe, não adianta!

— Tá, mas e o workshop? O algoritmo diz que eu sou pobre, e o Paulo Guedes não me vende?

— O site do curso usa o algoritmo. Ele sempre vai mostrar um preço impraticável para você. Sempre vai ser mais caro do que você poderia gastar. Dependendo do caso, se você tenta pagar, o preço sobe de última hora, pra te fazer desistir.

— É um golpe, então?

— Não, a ideia é que você não faça o workshop, mesmo. Porque ele não existe. Até marcam data e local, mas ninguém vai lá dar a aula. Teve um jornalista, amigo meu, que chegou a comprar o curso, e ele fez uma matéria a respeito, mas vetaram.

— Ele encontrou a sala de aula vazia?

— Não, ele pagou uma nota pelo workshop — a redação acabou por financiar, porque o salário dele não cobria —, aí chegou no dia todo arrumado e tinha um segurança na porta.

— E aí?

— E aí que o segurança era o algoritmo da porta. Dizia quem podia entrar, e pelo jeito ninguém podia. Aparentemente o cara era bem treinado: sabia que o terno era alugado, e terno alugado é coisa de pobre. Rico tem alfaiate. Aí ele ameaçou o jornalista, disse que ele claramente deveria ter feito algo de errado porque nunca que poderia ter conseguido pagar pelo workshop. Deu briga, e quando meu amigo chamou a polícia, quase acabou preso.

— Isso não faz sentido.

— Ele não desistiu. Voltou e ficou à espreita, e viu que chegou mais gente. Tinha uma desculpa pra cada um. Um porque era malvestido, outro, um Faria Limer todo metidinho, foi recusado porque o segurança disse que ele era rico demais para o curso, e o curso era só pra gente pobre.

— Isso dá processo! Isso dá PROCON!

— Aí é que tá a coisa: não dá. Ou até daria, mas ninguém tem coragem, porque ninguém quer declarar que fez o curso, porque ninguém gosta de falar que é pobre fora de piadinha de rede social ou reclamação na fila da lotérica. É cafona reconhecer pobreza. Então ninguém que desiste processa, e nem reclama em público. Mas tem outro truque aí. O Paulo Guedes tem uma coisa meio de monge, meio de Clube da Luta. Ele quer testar quem pagou o curso.

— É?

— É. Quando dá a hora de terminar, o segurança vai embora, e deixa a porta desprotegida. Se alguém tentar entrar, vai encontrar uma sala vazia com uma mesa e uns envelopes nomeados. Aí neles tem uma mensagem de parabéns pelo esforço meritocrático de não desistir de seus sonhos, seguido por uma bronca por você, auto-intitulado pobre, gastar tanto quanto gastou no curso. Num golpe de mestre, ele fecha a carta dizendo que não vai te dar o peixe, mas vai te ensinar a pescar, e coloca um endereço de um site.

— E nesse site tem o workshop de verdade?

— Não, é um link de cadastro para você fingir que foi aprovado e enviar o golpe para outros trouxas.

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