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Para o diretor-geral do Miguel Couto, a população já aprendeu a reclamar

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Sua ante-sala e gabinete, no andar térreo da instituição que se esparrama entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, é um entra-e-sai ininterrupto de pessoas. Um pouco à imagem do próprio hospital, cuja característica é ser “portas abertas”, ou seja, quem bate lá, entra.

Recebeu a reportagem da piauí  numa manhã de março, sem agendamento prévio, em meio a  despachos variados. Não se preocupou em ser diplomático nem falou em burocratês. Foi costurando temas numa velocidade verbal que espelha o dia-a-dia de um hospital de emergência:

MÉDICOS x PACIENTES – “A emergência é um lugar muito árido para se trabalhar. Durante um plantão, pode não acontecer nada ou pode ter tudo. Quem chega no pronto-socorro vem num estado de crise, em situação  aguda – pode até ser besteira, mas para o paciente é sério. Ele chega com medo, não sabe quem vai atendê-lo e a propaganda dos hospitais públicos é muito ruim.  Ele sempre lembra de algum caso ruim que viu no noticiário, lembra que alguma vez faltou gaze. Muitas vezes ele já tentou ser atendido em outras unidades mas, como faltava médico, ele veio bater aqui. Chega agastado, diminuído, com medo, desconfiado e pronto para ser mal atendido. Quando é bem atendido, ele até se surpreende. “Ué, me deram atenção!”

O profissional de saúde, por sua vez, pode estar  mal dormido, agastado, sem equilíbrio. E fala besteira para o paciente, que vê nisso uma agressão. Pronto, a crise está instalada. Muitas vezes o motivo do atrito é completamente sem importância – o familiar do doente quer trazer uma maçã, ou algo assim – então é preciso aparecer uma terceira pessoa para desatritar, para aparar as arestas. Este é o papel de um chefe de plantão.

Um dos problemas que invariavelmente causa transtornos, e acaba chegando à direção do hospital,  é o pedido de atestado médico. Muitas pessoas de fato precisam do atestado. Outras tantas estão apenas fingindo. Como nossos médicos não podem se recusar a atender ninguém, quando lhe chega o quarto sujeito com uma dor lombar e um pedido de atestado, ele se irrita e vai haver atrito.”

PARENTES DE PACIENTES –  “Paciente idoso ou criança só se sente amparado num hospital quando tem um familiar ao lado. Por melhor que seja a enfermeira, vai lhe faltar confiança se estiver internado sozinho. O profissional de saúde, por sua vez, se sente inseguro, por estar sendo vigiado pelo familiar. ‘Olha aqui, o soro está acabando’, diz, por exemplo, uma mãe. Isso irrita profundamente o profissional, mexe na vaidade dele. De minha parte, acho muito bom que o Estatuto da Criança e do Idoso  obrigue os hospitais a autorizarem acompanhante para essas duas faixas de doentes. Eles acabam sendo um olho a mais nosso no funcionamento da casa.

Aliás, a capacidade de sofrimento desses acompanhantes é infinita. Como se sabe, toda emergência é superlotada. Às vezes você tem um paciente idoso dormindo, e seu acompanhante está sentado numa cadeira que ele mesmo trouxe de casa, com três doentes em sofrimento à sua volta. Como é que ele consegue ficar aqui vendo  isso? Você fica com pena e quer tirá-lo dali. Mas aquela pessoa já está acomodada emocionalmente, aguenta ter pessoas vomitando e sangrando à sua volta. Somos nós, como médicos, que ficamos desconfortáveis”.   

FALTA DE MÉDICOS – “Até três anos atrás, todos os nossos funcionários eram concursados. Mas como a Lei de Responsabilidade Fiscal determina um teto para gastos com funcionalismo público, e como a Saúde e a Educação já estariam bastante próximas deste teto, não haveria mais como fazer contratações novas – pelo menos é o argumento que vem sendo usado para o fim dos concursos na nossa área. Com os mais antigos pedindo aposentadoria ou demissão, nosso quadro vem sendo enxugado ao extremo. 

Dois anos atrás, a Secretaria de Saúde nos alocou  80 médicos através da Fiotec (Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde), em regime de CLT.  O entrosamento com os profissionais  que entraram aqui por concurso tem sido bom, embora me pareça  que os médicos da área clínica vestiram menos a camisa do Miguel Couto do que os da área cirúrgica. O clínico talvez veja isso aqui como apenas uma etapa passageira de sua carreira. Ele tem a  percepção – a meu ver equivocada –de ter pouco a aprender aqui nesta nossa era de especializações. Isso ocorre no mundo inteiro. A cabeça do clínico está mais para atender alguma doença rara, para a qual ele pede exames sofisticados e se sente recompensado. Acaba não se sentindo recompensado por estar atendendo pessoas, que é a essência de sua profissão. Ademais, na emergência do Miguel Couto ele ganha R$ 3 mil, enquanto o salário numa UPA (Unidade de Pronto Atendimento) o seu salário será de R$ 5 mil.” 

CASO DE POLÍCIA – A nossa população já aprendeu a reclamar. Quando há um atraso no atendimento, ela vai direto dar queixa na 14ª Delegacia aqui do bairro e volta com um policial a tiracolo. É quando os médicos se sentem agredidos pelo absurdo de você estar trabalhando e aparece um policial armado para ver o que você está fazendo. Com 800 atendimentos diários no pronto socorro daqui, alguma coisa de ruim sempre haverá de acontecer. É por isso que de vez em quando dou plantão como  clínico, dou umas incertas. Afinal, sou mesmo é médico, apenas estou no cargo de diretor.

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