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    Depois de ser morto a tiros, Jomar Aguayo foi velado jogando dominó. Parentes se sentavam à mesa, moviam peças e beijavam suas bochechas FOTO: ALVIN BAEZ

despedida

Último desejo

Os funerais festivos de Porto Rico

Carol Pires | Edição 112, Janeiro 2016

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Quando tinha apenas 6 anos, o porto-riquenho Ángel Luis Pantojas Medina assistiu ao velório do pai e não gostou do que viu: o corpo macilento coberto por flores, sobre um esquife estofado. Decidiu então que, quando morresse, não queria parecer um defunto. Adulto, volta e meia passava pela funerária Marín, próxima a sua casa, e avisava as proprietárias: se lhe acontecesse algo, queria ser velado em pé.

Assim como o pai, Pantojas se foi cedo, aos 24 anos. Em agosto de 2008, seu corpo foi abandonado numa ponte de Santurce, o bairro mais populoso de San Juan, capital de Porto Rico, cravado por onze tiros e vestindo apenas cueca. A imprensa acabou se interessando menos pelas razões do assassinato do que pela forma como a família decidiu se despedir do rapaz: por três dias seu corpo esteve exposto em pé, ao lado de uma parede divisória entre a sala e a cozinha da casa, num complexo habitacional popular de Hato Rey, o centro financeiro da cidade.

Se não fosse pela mesa de flores a sua frente, um desavisado poderia pensar que as fotos do velório registravam Pantoja em qualquer outro dia da vida, vestindo sua roupa favorita: jeans, camiseta por cima da camisa de manga comprida, óculos escuros e um boné do New York Yankees. “Esse era seu desejo, queria estar alegre, parado – como ele era, firme”, disse Carlos, o irmão do “Muerto Parado”, como o falecido ficou famoso.

 

 

Elsie Rodríguez é quem cuida da funerária Marín, negócio familiar que administra com a irmã, Damaris, em Hato Rey. Formada em cursos técnicos de biologia e justiça criminal, Rodríguez sempre se interessou “pela ciência e pelo corpo humano” – e disse ter encontrado sua vocação ao se matricular num curso de embalsamento. Trabalhou como funcionária em algumas funerárias antes de fundar a própria empresa, em 2002. A princípio, oferecia apenas o serviço padrão: cerimônia fúnebre com as tradicionais flores decorativas ao redor do defunto, deitado no caixão.

Tudo mudou com o Muerto Parado. Para prepará-lo, Rodríguez seguiu, num primeiro momento, o procedimento de embalsamento usual, no qual todo o sangue é substituído por formalina para frear a decomposição do corpo. Ela não revela, porém, como fez para que o finado ficasse rígido o suficiente para manter-se em pé ou sentado, mas não tão duro que depois não pudesse ser desdobrado e disposto no caixão. “Ahí es donde está el secreto.”

A notícia do velório de Pantojas correu San Juan. Em pouco tempo o procedimento passou a ser adotado por outras famílias, em outras funerárias do país. Em 2010, David Morales Colón, conhecido por “El Matatán”, foi morto a tiros, aos 22 anos. Porque trabalhava como entregador, foi velado sobre sua Honda CBR600 F4. Recebeu a alcunha post mortem de “Muerto en Motora”.

 

No ano seguinte, Carlos Cabrera Mercado recebeu uma surra ao intervir numa discussão de bairro. Tinha 53 anos e não resistiu aos ferimentos. Como era fã de Che Guevara, vestiram-no com as roupas militares e a boina do revolucionário cubano. Cabrera era também adepto da meditação, e por isso passou o velório sentado em posição de lótus. Ganhou notoriedade como “El Muerto Sentado”.

A funerária Marín voltou a ganhar destaque na imprensa local recentemente, depois de Elsie Rodríguez ter preparado o corpo de Jomar Aguayo Collazo. Assassinado aos 23 anos durante um tiroteio num bar, Aguayo foi velado de boné e óculos escuros. Pelas fotos, parecia jogar dominó, tranquilo. Somente nos vídeos feitos pela família nota-se “El Muerto del Dominó” inerte em meio aos parentes, que se revezavam para sentar à mesa, mover uma ou outra peça do jogo e beijar-lhe as bochechas.

A violência, traço comum na morte de muitos dos embalsamados, provocou o debate sobre a possível relação entre a vida de excessos e excentricidades da cultura narco e a voga dos funerais “a caráter”. O professor José Rodríguez-Gómez, da Universidade de Porto Rico, no entanto, vê no modismo a continuidade do tradicional sincretismo religioso local, formado pelas culturas espanhola, negra e indígena. Estudioso de ritos fúnebres, Rodríguez-Gómez lembra que, já em 1893, um dos quadros mais famosos do país, El Velorio, do pintor Francisco Oller, retratava o ritual baquiné, de origem africana – no qual a tristeza dos pais se mistura a cantos, bailes, jogos e comilança para celebrar a chegada ao céu de uma criança morta.

 

“O que muita gente considera estranho, incomum ou até mórbido, eu entendo como uma preparação para a partida que satisfaz o último desejo do morto”, disse o professor. Ao cumprir a vontade do falecido, a família se sentiria reconfortada. “Como é pouco comum fazer festa e vestir o morto como se estivesse vivo, mais gente vai ao funeral, o que também significa mais contato social, mais apoio para a família.”

 

O negócio de Elsie Rodríguez cresceu tanto nos últimos anos que o sucesso de sua funerária acabou chamando a atenção do departamento de saúde de San Juan. Decidiram investigar a empresa, mas não encontraram nenhuma irregularidade na preparação dos corpos. Em 2012, a Assembleia Legislativa de Porto Rico também se manifestou sobre o modismo, ao aprovar uma lei que regulamenta as celebrações funerárias: contanto que não sejam dispostos em posições imorais, os cadáveres podem ser embalsamados segundo a vontade das famílias.

Elsie Rodríguez tem recebido mais encomendas do que nunca. Além da garantia de fama póstuma, o procedimento que ela oferece possui outro atrativo: o preço, a partir de 1 300 dólares. É que ser velado em pé e fantasiado não chega a encarecer o serviço – custoso mesmo é o ataúde usado para o enterro ou a cremação.

Acostumada a cumprir as últimas vontades de quem a contrata, a empresária já deixou instruções para a sua própria farewell party. Rodríguez quer que a vistam de preto, sua cor favorita, quando passar desta para uma melhor. Tem ainda duas preocupações: não gostaria de ser vista pelos amigos em um caixão chinfrim – e o que reservou para si é todo dourado. Além disso, apesar de aceitar o destino de sair de cena deitada, como a maioria das pessoas, já avisou a irmã: a cada meia hora de seu velório, seus sapatos devem ser trocados, até que tenha calçado todos os 300 pares que guarda no armário.

El Velorio, pintura de Francisco Oller

Carol Pires
Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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