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Uma arara chamada lear

    Araras-azuis-de-lear na Estação Biológica de Canudos, na Bahia: toda manhã, centenas delas fazem uma grande revoada em busca de seu principal alimento, o coquinho da palmeira licuri CRÉDITO: DANIEL LÓPEZ-VELASCO_ORNIS BIRDING_2021

vultos da natureza

Uma arara chamada lear

Como uma ave de nome inglês uniu cientistas e sertanejos nos cafundós da Bahia

Fernanda Ezabella | Edição 231, Dezembro 2025

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Entre o zum-zum das mamangavas e o tilintar dos sinos dos bois, uma gargalhada ecoa pelos cânions avermelhados no interior da Bahia. É Erica Pacífico, pendurada em cordas de rapel, ao lado de seu colega Máximo Cardoso de Macedo. Os dois descem por um paredão de arenito cravejado de buracos, um dos quais ela se prepara para explorar.

De binóculos, observo tudo ao pé do rochedo. Pacífico entra de cabeça e rasteja pela cavidade, deixando apenas as pernas agitadas do lado de fora – até que some por completo dentro do buraco. Pendurado na corda, Cardoso espera, de olho na paisagem: um tapetão verde de arbustos preenche o vale dos cânions.

Bióloga paulista de 44 anos, Pacífico tem um carisma oceânico e um riso que vem sempre à tona. Ela fez das profundezas do sertão nordestino sua segunda casa, desde que resolveu estudar um dos animais mais raros do Brasil, a arara-azul-de-lear. A ave cambaleava rumo à extinção nos anos 1980, com menos de cem indivíduos na natureza. Hoje, prospera com mais de 2,5 mil, graças aos esforços de conservação de cientistas e sertanejos, financiados por entidades nacionais e estrangeiras.

 

Um casal de araras-azuis-de-lear no topo do paredão observa a movimentação da dupla nas cordas. De vez em quando, corta o silêncio com uma vocalização estridente. O bicho emana simpatia. Seu bico curvo parece um sorriso. E sua bochecha amarela vibrante, da mesma cor da mancha em formato de gota ao redor dos olhos, lhe dá certo aspecto cômico, além de fazer um belo contraste com as penas azuis.

Avistar uma arara-azul-de-lear na natureza é um evento. Por mais de cem anos, a ave foi o maior mistério da ornitologia da América do Sul e uma obsessão de naturalistas de todo o mundo, que desconheciam o seu paradeiro. Alguns chegaram a duvidar de sua existência. Mas, no último dia de 1978, ela foi finalmente encontrada por cientistas perto dos paredões de arenito da Toca Velha, um pontinho do mapa no nordeste da Bahia. O local era um dormitório de araras.

É exatamente ali que Pacífico se encontra no momento, enfiada numa caverna apertada, naquela manhã quente de junho. A região é hoje parte da Estação Biológica de Canudos, criada pela Fundação Biodiversitas nos anos 1990. Do fundo do buraco, a bióloga tira dois filhotes de arara-azul-de-lear. Eles são colocados em sacos de pano e, depois, em um cesto de transporte. Pesquisadora pós-doutoranda no Instituto de Biologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pacífico é professora colaboradora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Em 2008, começou a estudar a espécie e hoje lidera o Grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear, que conta com outras três biólogas.

 

Para entrar nos ninhos, ela protege a cabeça com um lenço, leva uma lanterna presa à testa, usa máscara, repelente e veste duas calças e duas camisas. A camada dupla de roupas serve para se livrar logo da camada superior, caso saia do buraco infestada de parasitas, como um percevejo hematófago comum nos ninhos.

As cavernas, ou tocas, variam de 5 a 18 metros de profundidade, com até 1,20 metro de altura. Ficam em média a 53 metros de altura nos paredões e são usadas também por outros animais, como o papagaio-verdadeiro, a coruja-de-igreja, o urubu, o morcego e a tarântula. Nada disso parece atrapalhar Pacífico. “Ela passa por cima de regurgito de urubu”, diz Cardoso, de 39 anos, assistente de campo que nasceu no município de Canudos, onde fica Toca Velha, e trabalha há quinze anos no projeto. “Uma vez ela saiu podre do buraco, parecia que tinha se lambuzado na carniça. Vomitei lá de cima do rapel. E ela nem aí, não sentia nada”, conta o assistente. “Eu evito entrar. É meio assustador.”

O cesto com os dois filhotes chega pela corda de rapel até as mãos do assistente de campo João Carlos Nogueira, em terra firme. Ele o leva até uma lona amarela estendida na sombra, sobre a areia avermelhada. Sentindo o peso do pacote, declara: “Os bichos são grandes. Todo cuidado é pouco.” Sobre a lona, há uma parafernália de instrumentos: tubinhos de coleta de sangue, fitas de medição, régua, balança. Tem também as anilhas que serão colocadas nas patas dos filhotes.

 

Enquanto esperamos a dupla do rapel chegar, Nogueira abre o cesto e pega o primeiro saco. À beira dos 70 anos, ele faz lembrar o sertanejo descrito por Euclides da Cunha. Apesar de baixinho e magro, Nogueira é, “antes de tudo, um forte”, como escreveu o autor de Os sertões (1902) sobre os habitantes da região. Mas é também carinhoso e brincalhão. “Saaaaai, desgraça”, reclama dos pernilongos que nos cercam a manhã toda. “Vou fazer um cigarro muito doido e vou ver se embebedo essas muriçocas tão arretadas pelas minhas orelhas.” Ele é um homem de poucas palavras, mas de muito chamego com as araras. Ajoelhado na lona, coloca o filhote deitado de barriga para cima e segura as asas com as mãos. Com o polegar esquerdo, faz um carinho discreto no pescoço da arara. “Ô bicho valente, né, minha peia”, cochicha para o animal.

Pacífico chega descabelada, suada, e logo começa os trabalhos: anilhar, medir, pesar os filhotes. Eles também recebem um colar com medalhinhas de metal que trazem números bem visíveis: 147 e 148. Isso ajuda os biólogos a identificar as araras de longe quando fazem monitoramento da espécie. Com noventa dias de vida e cerca de 800 gramas cada, os filhotes devem em breve alçar seu primeiro voo para fora dos ninhos.

A bióloga coloca um filhote de pé no seu colo, enquanto escreve os dados numa prancheta. A arara fica quietinha, sem nem vocalizar. “Mansa, né?”, comenta Pacífico, após notar meu espanto ao ver um bicho selvagem reagir de modo tão calmo. “Na verdade, ela está com medo.”

Além da beleza e raridade, a arara-­azul-de-lear tem um papel ecológico fundamental. Como dispersora de sementes, ajuda na regeneração da vegetação do semiárido baiano, a Caatinga. Monitorar a espécie, portanto, é monitorar também o meio ambiente. Proteger um significa proteger os dois. As abelhas não nativas que se apossam dos ninhos, a falta de alimento e o tráfico ilegal são ameaças antigas às araras – sem falar dos novos perigos, como eletrocussão na rede de energia elétrica.

Os procedimentos nos filhotes levam pouco mais de uma hora. Eles voltam para as sacolas de pano e para dentro do cesto. Cardoso retorna às cordas de rapel e sobe o paredão para soltar as araras na boca da toca onde estavam. A equipe retorna para a base de campo da Estação Biológica de Canudos.

É uma construção com apenas uma sala e um quarto, sem luz nem água corrente. Os banhos ali são de canequinha, assim como a limpeza das louças, com água tirada de uma cisterna. Todos se revezam na cozinha nos três dias de expedição. No menu, cuscuz, feijão, frango, ovo, farofa e até feijoada. No final da tarde, os sinos dos bois voltam a tocar, quando meia dúzia deles passa a galope em frente à casa. A estação faz divisa com uma comunidade de fundo de pasto, um sistema tradicional de uso coletivo da terra. Os moradores deixam os bois e bodes livres para pastoreio e, sem cercas na região, muitos acabam invadindo a área de proteção. Nogueira volta de uma caminhada com um presente: uma sacola transbordando de mangas.

Em junho, quando a Caatinga entra em sua estação de seca, a vegetação ainda segue verdinha e florida, o oposto da mata branca e espinhosa dos tempos de estiagem, entre setembro e dezembro. Nogueira me guia em um tour pela redondeza. Da raiz do pé de jurubeba, ele faz um chá bom para gripe. Da moita de cansanção, ele avisa para ficar longe: é uma planta urticante. E de um umbuzeiro provamos uma fruta verde, bem docinha.

 

A arara-azul-de-lear ganhou seu sobrenome em homenagem ao artista e poeta inglês Edward Lear (1812-88). Ele foi o primeiro a desenhá-­la, a partir de alguma ave que se encontrava em cativeiro em Londres. Em 1832, a ilustração apareceu no seu livro sobre os psitacídeos – a família das aves de bico curvo, como papagaios, periquitos e araras. Coloridos e espertos, muitas vezes bons de imitação, esses bichos sempre foram extremamente populares em todo o mundo, o que turbinou o seu tráfico para as elites europeias desde a época da colonização. Em inglês, a pronúncia de “lear” soa como “líer”, mas muitos no Brasil preferem chamar pela versão aportuguesada “le-ar”. Tem ainda quem fale “liri”, alusão à segunda parte do seu nome científico, Anodorhynchus leari. “A gente fala de qualquer jeito mesmo”, diz Pacífico, que realmente varia a pronúncia. “Mas, para os moradores daqui, só tem uma: é apenas a arara-azul.”

O Brasil tem o maior número de espécies de psitacídeos do planeta e por pouco não nos chamamos Terra Papagalli, nome registrado em mapas antigos. O maior psitacídeo do mundo em comprimento vive no país, a arara-azul-­grande (Anodorhynchus hyacinthinus), que pode chegar a até 1 metro com a ajuda de sua longa cauda. Ela é bem parecida com a arara-azul-de-lear (que não passa dos 75 cm), mas tem marcações amarelas em formato menor. Como se distribui por uma área mais ampla, que inclui o Pantanal, a Amazônia e o Cerrado, além da Bolívia e do Paraguai, a arara-azul-grande é mais conhecida e popular que a arara-azul-­de-lear, uma raridade exclusiva dos cafundós da Bahia.

De fato, foi difícil encontrar o lugar onde ela vive. Quando o naturalista francês Charles-Lucien Bonaparte (1803-57), sobrinho de Napoleão, fez a descrição oficial da arara-azul-de-lear, em 1856, baseou seus estudos em exemplares empalhados na França e Bélgica. Ele deu o nome científico e deixou no ar o enigma sobre sua origem: só se sabia que era proveniente do Brasil. O mistério foi decifrado pelo alemão naturalizado brasileiro Helmut Sick (1910-91), um dos nomes mais influentes da ornitologia no Brasil. Sick morava no país desde 1939 e encafifou com a ave misteriosa. Fez quatro expedições em busca da arara-azul-de-­lear até chegar à cidade baiana de Euclides da Cunha, em dezembro de 1978. Ele seguia os passos do colega Olivério Mário de Oliveira Pinto (1896-1981), considerado o pai da ornitologia brasileira, que em 1950 havia encontrado a ave em cativeiro numa residência de Pernambuco, proveniente de Juazeiro, a 230 km de Euclides da Cunha. Com a ajuda dos locais, que já conheciam o bicho havia tempos, Sick finalmente achou a ave voando livre em seu hábitat natural. Foi uma das maiores descobertas da ornitologia no século XX.

“Inóspita” e “de reputação muito negativa” foi como Sick e seu assistente de campo Dante Martins Teixeira descreveram a região na publicação American birds, em 1980. “Foi o cenário da Guerra de Canudos (a maioria dos soldados morreu de sede) e o esconderijo do infame cangaceiro Lampião”, escreveram eles sobre o local. Dante Teixeira e Luiz Pedreira Gonzaga, o outro assistente da expedição, se tornariam professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A chegada do trio mudou para sempre a vida das araras – e também dos sertanejos. “Lembro de tudo: o Sick estava com uma blusazinha escura, meio amarronzada, e uma calça jeans. Não era muito alto, era meio forte”, conta Dorivaldo Macedo Alves, o Dorico, que tinha 15 anos na época. Seu pai, Elizeu Pereira Alves, foi quem guiou os cientistas forasteiros por mais de dez dias pelas veredas da Toca Velha até acharem o dormitório das araras. “Foi o primeiro branco, o primeiro gringo que vi. A gente morava no mato, dificilmente via pessoas assim. Foi um acontecimento”, continua Dorivaldo, hoje com 62 anos e amigos em vários países. “A arara trouxe muita gente: americano, japonês, argentino, italiano, inglês. Vinha mais gente para ver arara do que para visitar a cidade que tem a história da Guerra de Canudos.”

Elizeu Alves se tornou o primeiro guarda-parque de uma reserva da região, função que o filho também exerceu por 31 anos, virando um cobiçado assistente de pesquisa. “Antes a vida era muito sofrida”, diz Dorivaldo. “A gente mudou de patamar através da arara. Meu pai se empregou, o salário era bom.”

Cardoso, o assistente e colega de rapel de Pacífico, também se lembra do trabalho de seu avô de criação, José Cardoso de Macedo (1938-2024), outro guarda-parque que ajudou a guiar muitos cientistas. “Eu ficava era admirado de ver tanta gente pra proteger um bicho só. Ficava sem entender nada”, diz Cardoso, que tem duas tatuagens de araras-­azuis, uma da grande e outra da de-lear.

Em meados dos anos 1980, um novo personagem entrou em cena. Dessa vez, era uma mulher – e com os bolsos cheios de dinheiro. A médica radiologista americana Judith K. Hart era apaixonada por psitacídeos e se comoveu com a causa das araras baianas, então “criticamente em perigo” de extinção, segundo a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

Hart passava temporadas monitorando as aves de longe, acampada sozinha na Toca Velha, para assombro dos sertanejos. Ela ficou muito amiga de Elizeu Alves. O filho dele, Dorivaldo, a carregava num jegue para montar acampamento debaixo de um jatobá. “De três em três dias, a gente levava água e pão para ela”, lembra Dorivaldo. “Ela era brava, mas engraçada. Sabia umas coisinhas em português. Sabia dizer ‘água’ e sempre falava, brincando: ‘Pobre jegue, pobre jegue!’ Porque ela era pesada.” Quando Elizeu morreu em 1998, aos 76 anos, Hart visitou o túmulo do amigo. “Ela ficou sentada na cova conversando com ele. Meu pai tinha um carinho grande por ela também.”

Com dinheiro próprio, Hart ajudou a Fundação Biodiversitas a comprar as terras que abrigam a Estação Biológica de Canudos, em 1993. Em 2007, com verba da American Bird Conservancy e outros doadores internacionais, o tamanho da reserva cresceu para 1,5 mil hectares, tamanho de quase dez parques Ibirapuera. Pacífico chegou no ano seguinte e, de cara, teve que enfrentar Hart. Nem de longe seria o único confronto da paulista por aquelas paragens.

 

Erica Pacífico vinha de um universo paralelo. Havia começado a carreira no Zoológico de São Paulo e tinha paixão por outro tipo de aves, bem menos populares, ainda que mais imponentes: os catartídeos, a família dos urubus e condores. Mas logo ela debandaria para o lado dos psitacídeos.

Por três anos, Pacífico trabalhou como responsável técnica da Fundação Lymington, um criadouro na cidade paulista de Juquitiba, especializado em reabilitação e reprodução de aves ameaçadas. O local havia recebido um macho debilitado da ararinha-azul, uma espécie também nativa da Caatinga baiana, mas que estava extinta na natureza. A função da bióloga era ajudar o animal, que havia vivido décadas numa residência no Colorado, nos Estados Unidos, e pareá-lo com uma fêmea nascida em cativeiro na Alemanha.

O objetivo era formar um casal que se reproduzisse e levar os filhotes para um programa de reintrodução. O bicho inspirou o filme de animação Rio (2011), além de uma reportagem (Presley não morreu, piauí_106, julho de 2015). Mas o pareamento não deu certo e, desgastada com a experiência e as penosas tratativas com órgãos ambientais, Pacífico voltou aos estudos. “Resolvi que queria estudar biologia reprodutiva das aves, mas na natureza. E, como a ararinha-­azul estava extinta, fui atrás de outras.”

Primeiro, ela pensou em estudar os urubus-rei da Caatinga baiana. Depois vieram as araras-azuis-de-lear, ideia de seu orientador de mestrado, o biólogo Luís Fábio Silveira, hoje curador da seção de aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Um colega dele procurava alunos para pesquisar as araras na Estação Biológica de Canudos, e Pacífico topou. Ela escreveu um projeto focado na reprodução da ave, iniciativa que deu calafrios em Judith Hart. “Foi um climão horroroso”, diz o orientador Luís Silveira, ao se lembrar da conversa que teve com a americana. “Ela balançava a cabeça e dizia: ‘Nas minhas araras ninguém bota a mão.’ Ela achava que as araras nunca mais voltariam aos ninhos se a gente entrasse. E a gente já sabia que não funciona assim com as aves.” A Biodiversitas acabou autorizando os trabalhos, para a ira de Hart.

Pacífico chegou em Canudos e, pela primeira vez, pisou no sertão. Até aquele momento, ela nem cuscuz tinha provado. “Cheguei com a corda, duas cadeirinhas de rapel e muita vontade”, recorda a bióloga. “Nunca tinha feito rapel. Pensava: se traficante de araras entra no ninho, eu também consigo.”

Nogueira, assistente que trabalha há mais tempo com Pacífico, lembra do dia em que a avistou pela primeira vez – a bióloga tinha então 27 anos. “Ela era magrinha. Magrinha mesmo. Mas era danada. Ô mulherzinha forte, viu?”, conta. Ela, por sua vez, se lembra de Nogueira como um guru. “Ele encontrou a maior parte dos ninhos, registrou comportamentos inéditos e levantou hipóteses ainda não questionadas”, diz Pacífico. “Foi meu segurança, meu amigo e meu médico com seus fitoterápicos incríveis.”

Com 1,75 metro de altura e pele bronzeada, a bióloga se mistura bem entre os locais, formando com eles uma trupe de Indianas Jones do sertão. Por quatro anos, ela estudou os paredões e rodou a região ao lado de Nogueira. Dorivaldo e José Cardoso de Macedo também ajudavam, além de um ou dois estagiários de biologia. Localizaram 38 ninhos nas cavidades e acompanharam 68 filhotes. As tocas ficavam tanto na Estação Biológica de Canudos quanto na vizinha Estação Ecológica Raso da Catarina, a cerca de 40 km de distância. De ninho em ninho, ela analisou os padrões de reprodução: quantidade de ovos em cada postura (média de três por ano), frequência de eclosão (média de 1,5) e desenvolvimento dos filhotes (apenas um, em média, era criado). Os estudos viraram a dissertação de mestrado de Pacífico na USP, em 2011.

Na época, a espécie já se recuperava, graças à criação das reservas e à inclusão dos guarda-parques, conseguindo o feito raro de melhorar de status de conservação: de “criticamente em perigo” para “em perigo”, com mais de 1,2 mil indivíduos. “Hoje a população está muito bem, obrigada. Está crescendo. A meta é chegar nos 3 mil”, diz Pacífico, lembrando que no Censo mais recente, de 2024, foram contados 2 548 indivíduos. “A principal demanda é a melhoria da qualidade do hábitat.” De fato, a Caatinga sofre muito. Esse bioma único do Brasil e que ocupa mais da metade do Nordeste brasileiro já teve 46% de sua área desmatada e dispõe de menos de 2% de áreas protegidas. A pecuária extensiva, além do uso do fogo na agricultura, tornou escasso o principal alimento da arara, o coquinho da palmeira licuri.

Todo dia, ao amanhecer, centenas de araras deixam seus dormitórios nos paredões da Toca Velha, numa grande revoada azul em busca do licuri. É uma performance barulhenta de tremer os ouvidos. As vocalizações percorrem os cânions e servem de despertador na base de campo. Elas podem voar até 110 km atrás de alimento e devorar cem coquinhos por dia. Diversos programas tentam recuperar os licurizeiros, com as plantações protegidas por cercas, a fim de impedir que bois, bodes e cabras devorem os brotos verdes das palmeiras. Dorivaldo diz que a falta de água impede o sucesso de muitas iniciativas, embora a palmeira seja resistente à seca quando madura.

Na falta da fruta, as araras-azuis-de-­lear adoram os milharais, para desespero dos agricultores. “Se você chega hoje na sua roça e vê cinco araras, pode esperar que amanhã vai ver trinta. E, depois de amanhã, mais cem. Elas comem que nem um trator, devoram a roça”, diz Dorivaldo. “A gente sabe que o bichinho é inocente, mas muitas pessoas reclamam com razão. Querem aumentar a população de araras, mas então que se preocupem também com a alimentação. Do jeito que vai, o povo vai meter bala mesmo. Pode chegar num ponto que não tem futuro.”

Outro problema são as abelhas africanizadas que infestam o sertão. Em 2016, o grupo de pesquisa observou cerca de cem colmeias em áreas de nidificação de araras. Com ajuda de outras organizações, a equipe tratou metade das cavidades, atirando veneno com uma besta (um tipo de arma normalmente usada em caça). Cardoso manejava a besta e, no dia seguinte, descia de rapel para limpar as tocas, aplicar repelente e remover as colmeias, vestido de apicultor e armado de defumadores. “Elas atacam, mas estando bem protegidinho, não tem problema”, diz Cardoso. É possível que as abelhas tenham contribuído bastante para a extinção da espécie em outras localidades, uma vez que as aves, já com baixo índice de reprodução, tinham menos espaço para ninhos.

Agora, o vilão mais preocupante é a rede de energia elétrica, que se expandiu na zona rural com o programa do governo Luz para Todos, ao mesmo tempo que crescia a população das araras-azuis-de-lear. Ao menos 160 araras morreram eletrocutadas desde 2022. Só neste ano já foram 35. Pacífico acredita que o número é maior, já que muitas mortes não são registradas. Ela explica que as aves gostam de se empoleirar nos cabos e postes para descansar ou se alimentar depois de coletar frutos. A solução para esse problema é teoricamente simples: aumentar a distância entre os cabos de transmissão para que as araras não encostem em dois ao mesmo tempo, o que causa choque, e também inverter a posição do transformador de energia do poste. A Neoenergia Coelba, que atende cerca de 300 mil pessoas nos nove municípios da região, diz que já gastou 40 milhões de reais em adaptações em 5 mil torres de energia desde 2022 e que pretende continuar com esse trabalho. O Ministério Público do estado pressiona por mais mudanças.

Os estudos dos ninhos e o monitoramento contínuo fizeram avançar como nunca o conhecimento da espécie. “É um caso de grande sucesso de conservação de animais no Brasil, não só de aves”, diz o biólogo Silveira, mentor de Pacífico. “A Erica é um dínamo. Poucas pessoas no Brasil dariam conta do que ela faz. E no começo era tudo ainda muito mais precário. Eu ficava sem dormir imaginando ela se virando lá na Caatinga.”

Hart, que era do contra, encontrou Pacífico apenas uma vez, num alojamento da Estação Biológica de Canudos que hoje é usado para receber turistas que desejam ver a grande revoada. Foi quando a equipe voltava de campo, trazendo um filhote de arara num cesto. A ave era a segunda a cair de um ninho do paredão e a única a sobreviver. “O bichinho chegava na frente da toca pra tomar Sol ou pra chamar os pais, sapateava, escorregava e caía. A gente já tinha salvado um e devolvido pro mesmo ninho, mas ele caiu de novo e morreu”, recorda Pacífico. Dorivaldo desceu de rapel até a cavidade e corrigiu o declive do ninho com uma camada de cimento. Depois, o filhote foi devolvido ao ninho. A bióloga conta que Hart observou a dedicação da equipe e gostou. “Ela viu que a gente estava fazendo um trabalho para dar certo, para ajudar as araras.” Hart morreu em 2020, aos 87 anos.

Pacífico foi mais longe com as aves, literalmente. Na sua pesquisa de doutorado, defendido na Espanha, começou a investigar a distribuição geográfica histórica da espécie. Através de entrevistas com mais de cem moradores idosos, encontrou novos locais com dormitórios, além de seis áreas onde a espécie havia desaparecido. Uma delas ficava a 320 km de Canudos, na Área de Proteção Ambiental (APA) do Boqueirão da Onça, região vizinha ao parque nacional de mesmo nome, também na Bahia.

Hart foi a primeira a fazer uma expedição de peso ao Boqueirão em busca de araras-azuis-de-lear, com ajuda dos sertanejos, incluindo Dorivaldo, em 1993. O grupo passou treze dias procurando pelas aves até encontrá-las. Contaram 31 indivíduos. Quando Pacífico foi até lá, em 2012, restavam apenas duas. Elas são até hoje facilmente reconhecidas pelos moradores do lugar, que as apelidaram de Maria Careca e Maria Cabeluda, já que uma delas perdeu as penas da cabeça. Mas, como o casal não se reproduz, a população estava funcionalmente extinta no Boqueirão. “Voltei maquinada, queria repopular o Boqueirão”, diz Pacífico. “Eu era uma lunática. Não tinha como fazer, não tínhamos essas araras em cativeiro no Brasil. Estavam todas no Catar ou na Espanha.”

Foi quando os ventos fortes da região trouxeram a Enel Green Power à Caatinga, de olho num novo parque eólico. A empresa foi atrás de Pacífico para monitorar as áreas usadas pelas aves. Como só haviam sobrado as duas que não procriavam, a bióloga fez uma contraposta à empresa: reintroduzir os bichos e marcá-los com GPS.

Com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e outras instituições, além de recursos financeiros da Enel, o projeto no Boqueirão foi iniciado. Em 2019, a equipe trouxe as primeiras aves da Fundação Loro Parque, um zoológico e centro de pesquisas com a mais diversa coleção de psitacídeos do mundo, nas Ilhas Canárias, na Espanha. Agora, mais de trinta anos depois da expedição que durou treze dias, exatamente o mesmo número de araras-azuis-de-lear daquela época voam livres pelo Boqueirão – 31 aves.

 

A paisagem do Boqueirão da Onça é diferente da de Canudos. Ainda estamos na Caatinga, só que nas alturas, em elevações que passam dos mil metros. Em vez de paredões avermelhados e dramáticos de arenito, aqui as montanhas de quartzo e calcário são cinzentas e suntuosas. Em junho passado, a temperatura era amena, com manhãs frias e neblina.

A base de campo do Boqueirão tem certos luxos, como água corrente e luz de fonte solar. A casa de dois quartos fica em Cercadinho, uma comunidade no município de Campo Formoso onde os vizinhos cuidam de suas roças durante o dia e se reúnem nas ruas à noite para prosear. Além de erguer a base de campo, o Grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear, liderado por Pacífico, construiu um recinto de soltura para fazer a reintrodução das aves. O espaço é um grande viveiro feito com blocos de cimento e tela de arame galvanizado, de 6 metros de altura, 6 metros de largura e 15 metros de comprimento. Mais de 25 instituições apoiam o projeto de soltura, em parcerias intermediadas pelo icmbio.

O viveiro fica na propriedade de Jonas Cezário que, junto com o irmão, ajudou Hart em suas expedições nos anos 1990. A família cuida de uma roça caprichada, com mamona, milho, mandioca e, claro, licuri. Antes de serem soltas, as araras passam por um período de adaptação no recinto. A primeira soltura ocorreu em 2019. Seis aves que haviam nascido sob cuidados humanos na Fundação Loro Parque voltaram para a natureza. Mesmo depois de livres, elas continuam frequentando o exterior do recinto. Vão visitar alguns novos moradores, socializar e aproveitar a comida no local, o que facilita o monitoramento dos biólogos. Certa manhã de junho, oito habitavam o viveiro no Boqueirão, empoleiradas juntinhas num tronco. Todas tinham sido resgatadas do tráfico ilegal em operações no Suriname e no Togo em 2023 e 2024. Segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, uma arara-azul-de-lear pode chegar a valer mais de 200 mil reais.

Enquanto Cardoso e o assistente de campo Guilherme Feitosa, de 28 anos, traziam cachos de licuri para dentro do viveiro, sete araras deram o ar da graça do lado de fora, pousadas no topo da grade. Fátima, arara que leva a medalhinha 4J, estava bem na porta de entrada. “Essa eu reconheço pelo jeitinho da cabeça”, diz Pacífico. No Boqueirão, a meta é liberar cinquenta indivíduos num período de dez anos e chegar a 250 araras livres.

A verba para o projeto foi uma condicionante ambiental para a construção do Parque Eólico Delfina, da Enel Green Power, no Brasil, a cerca de 100 km do viveiro. A companhia investiu 400 milhões de dólares em noventa torres de vento de 80 metros de altura para atender 390 mil residências. As araras receberam 4 milhões de reais, um dinheiro que também levou a melhorias na comunidade, como um poço para coleta de água e internet.

Mas a parceria desencadeou uma enxurrada de críticas. Ativistas alegam que as aves ameaçadas podem se chocar com as torres e suas pás, mesmo com as recomendações da bióloga à empresa. No entanto, até hoje nenhuma morte foi registrada no parque eólicos no Boqueirão, de propriedade da Enel, e no da região de Canudos, controlado pela multinacional francesa Voltalia, com a qual o grupo de pesquisadores fez um acordo em 2020. Nesta última, um identificador de voo foi instalado para parada automática das turbinas no caso de aproximação das aves. “Fui massacrada”, lembra Pacífico. “O foco do problema foi totalmente desviado para as energias renováveis, enquanto as araras continuavam morrendo nos postes de energia elétrica de média e baixa tensão.”

Para entender melhor o deslocamento das araras, o projeto marcou cada uma das araras a serem reintroduzidas com um GPS. Assim seria possível mapear as áreas frequentadas e protegê-las. “Mas deu tudo errado”, conta Pacífico. “Os bichos destruíram os GPS em 2 minutos.” Psitacídeos são particularmente difíceis de marcar com GPS porque estão sempre limpando e alisando as penas com seus bicos afiados, às vezes com ajuda dos parceiros, danificando ou arrancando o aparelho. Cada bio-logger (nome técnico do GPS preso nos animais) custa 1,3 mil euros (cerca de 8,3 mil reais) e pesa 15 gramas, sendo que uma arara-azul-de-lear pesa em média 850 gramas.

Até que uma arara chamada Poti se adaptou bem ao aparelho. Resgatada do tráfico no Rio Grande do Norte, ela passou um tempo no viveiro e foi solta em 2021. Por mais de quatro anos, mapeou diversas áreas de uso das araras no Boqueirão. “A Poti foi um marco para a espécie. Ela nos deu insights cruciais”, diz a bióloga Fernanda Riera Paschotto. Ela trabalha com Pacífico desde 2015 e, em junho, defendeu sua tese de mestrado no Instituto de Biociências da USP com os dados coletados dos GPS da Poti e de outras dez araras (três deram mais de dois anos de dados, enquanto as restantes deram em torno de 10 a 30 dias).

Riera verificou que os locais de descanso e alimentação das aves estão predominantemente fora de áreas protegidas e, com frequência, em espaços agrícolas e perto de linhas de distribuição de energia. Há registros de Poti em áreas a menos de 5 km do parque eólico, embora não frequentes. “Esse padrão de uso do espaço reforça a alta vulnerabilidade das araras a pressões humanas”, diz Riera. “É um conhecimento essencial para o planejamento de ações de conservação.”

Os dias de Poti como cartógrafa, no entanto, estavam contados. Em junho passado, quando eu conversava com Pacífico no alto de um andaime, monitorando as araras de binóculos, ela notou que Poti estava em apuros, com um cordão pendurado no corpo. Era a fita de amarração do GPS, que havia sumido. A ave estava visivelmente incomodada. Logo, uma operação foi montada para resgatá-la.

Poti tinha sido vista fazia pouco tempo pareada com outra fêmea, que provavelmente ajudou a arrancar o GPS da parceira. A homossexualidade em psitacídeos é pouco conhecida e chega mesmo a confundir os biólogos, já que os casais procuram ninhos e copulam (sem gerar ovos férteis). “A cópula das araras não é igual à da galinha, uma em cima da outra”, explica Pacífico. “Elas se aproximam, vão encostando uma na outra, encostando, até encostar cloaca com cloaca, e giram a cauda”, descreve a bióloga, girando as mãos como se fossem as caudas. “A vocalização muda completamente. É um trinado, trum, trum, trum, trum, cada vez mais rápido.”

Na manhã seguinte, chegamos antes das 7h no viveiro. Cardoso trouxe um cacho de licuri para usar de isca e o colocou numa parte lateral alta, em uma câmara separada do espaço principal. Poti chegou meia hora depois e ficou bicando a corda vermelha que fecharia a porta do aviário com ela dentro. “Será que ela sabe que a corda é para ela?”, pensou Cardoso em voz alta.

Fátima, a arara da medalhinha 4J, também apareceu para comer, assim como o casal Asa Cruzada e Maria Amassada, o primeiro da reintrodução a ter filhotes no Boqueirão. Poti roubou um coquinho da isca e foi saboreá-lo no topo do recinto. Ela usa o pé como se fosse uma mãozinha e segura o fruto para cortá-lo. Depois, com a ponta do bico, tira a polpa e a engole.

Quando Poti voltou para pegar mais um coquinho, Cardoso puxou a corda, e a porta bateu com o bicho dentro. Feitosa entrou na câmara para pegar a ave com uma rede e a trouxe para uma salinha de concreto na entrada do recinto. Depois, segurou Poti de barriga para cima, enquanto Cardoso cortava a fita do GPS perdido. Em seguida, foi colocada uma medalhinha no pescoço da ave, número 108. Pacífico entrou em cena, preparando uma série de exames de rotina, colhendo sangue e swabs de bico e cloaca. Às 8h10, Poti estava pronta para voltar aos céus do Boqueirão. “Como é linda”, disse a bióloga mirando o bicho, que estava quietinho, de olhos arregalados, nas mãos do assistente. “Obrigada por tudo o que você fez por nós”, continuou Pacífico. “Vai ser livre, vai. E fique bem longe dos postes que dão choque, combinado?” E Poti saiu voando.

Fernanda Ezabella

Fernanda Ezabella, jornalista, é correspondente da Folha de S.Paulo em Los Angeles

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