teatro

Uma noite em cinco atos (fragmento)

Dois poetas atravessam a cidade escura

Alberto Martins
IMAGEM: GIORGIA MASSETANI

Do lado de fora da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, no centro de São Paulo, o poeta Zé Paulo Paes (1926-1998), manco de uma perna, caminha ao lado de Álvares de Azevedo (1831-1852), um rapaz branquelo, de uns 20 anos, que traz um lenço preto no pescoço e capa sobre os ombros. É noite. Pela primeira vez, Álvares de Azevedo se vê diante da “sinfonia do século” de que lhe falou Zé Paulo – a cidade imensa, ruidosa, inclassificável. As empenas dos edifícios se projetam para o alto, fantasmagóricas.

Álvares  Que cidade é essa? Podíamos estar no México, na Dinamarca… Podíamos estar em qualquer parte.

Zé Paulo  Mas não estamos. Estamos no centro de São Paulo, no antigo largo do Capim. Ou largo do Curso Jurídico. Você o conheceu bem. E o que você vê lá embaixo não é mais o ribeirão do Anhangabaú, nem do Chá, é uma avenida com ônibus, túneis e carros.

Álvares (espantado com a altura dos edifícios Mas por que essas formas?

Zé Paulo  É a cidade que o século XX construiu.

Álvares  E onde estão os cavalos?

Zé Paulo  Os cavalos?… Foram tragados pelo homem.

Álvares  Não sei se me agradaria viver aqui…

Zé Paulo  Não tem escolha.

Álvares  Para você talvez não, mas eu posso me retirar a qualquer momento…

Zé Paulo  Você acha?

Álvares  Não?

Zé Paulo  Não sei. Por experiência própria, digo que um poeta não tem muitas escolhas na vida.

Álvares  Agora está falando como poeta.

Zé Paulo  Então talvez eu esteja equivocado.

Álvares  Não há graça nenhuma nisso. (Pausa. Álvares lança os olhos ao redor.) E o que tem aí dentro?

Zé Paulo  Firmas, cofres, comércios, contrabandos, esconderijos… e escritórios de advocacia.

Álvares (tomado por súbito interesse E como é passar o dia aí dentro?

Zé Paulo  Triste.

Álvares  E as noites?

Zé Paulo  Podem ter a sua graça.
Zé Paulo dá um passo à frente, dirige-se ao público e passa a recitar o início de “Noite na repartição”, de Drummond:
Papel,

respiro-te na noite de meu quarto,

no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.

Até quando, sim, até quando

te provarei por única ambrosia?

Eu te amo e tu me destróis,

abraço-te e me rasgas,

beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!

Álvares (caindo em si Então era nisso que eu me transformaria se não fosse poeta? Um bacharel, um escrivão, um notário, um tabelião… Ainda bem que a Poesia entrega à Morte os melhores filhos… (pára, hesita, tenta se lembrar de alguns versos) Eu deixo a vida… como deixa o… deserto… (olha em volta; repete) Eu deixo a vida como deixa… o pó… Não, o poente… o poento… pesadelo… (esquece, se angustia)… Não lembro… Não lembro do poema…

Zé Paulo  Calma, Álvares…

Álvares  Eu não lembro!

Zé Paulo  Calma!

Álvares (gritando Mas eu não lembro!

Zé Paulo (também gritando Calma! O poema se chama “Lembrança de morrer”… Está em qualquer antologia escolar. É só ler e decorar outra vez.

Álvares  Você disse lembrança de morrer? Lembrança de morrer? Mas então estou morto mesmo! Droga! A morte me tirou a memória… (pausa) Quer saber de uma coisa?

Zé Paulo  O quê?

Álvares  A morte é uma merda! Com ela, não me tornei nem uma coisa nem outra. Nem poeta nem bacharel em direito…

Zé Paulo  Tudo bem. Você escapou dessa.

Álvares (baixinho Pra melhor?

Zé Paulo (impaciente, agarra Álvares pelo braço e passa a conduzi-lo Sim, pra melhor, pra melhor…

Álvares  Aonde vamos?

Zé Paulo  Sair por aí. Você precisa mudar de ares, respirar um pouco, se acostumar com a cidade para…

Álvares  Para?

Zé Paulo  Nada. Só se distrair um pouco…

Álvares  Fausto e Mefistófeles também se distraíram como nós…

Zé Paulo  Eu, pelo menos, não cheguei a vender a minha alma.

Álvares  É que já não a compram como antigamente.

Zé Paulo  Ah, e como compram, Álvares! Você não imagina…

Álvares  Você que diz que também é poeta, certamente é bacharel…

Zé Paulo  Não. Posso ter tido muitos defeitos, mas bacharel em direito nunca fui… Fiz um curso técnico de química. Depois passei o resto da vida fabricando pequenos venenos.

Álvares  Como? Então é possível ser poeta sem ser bacharel em leis?

Zé Paulo  Nesse ponto, o país progrediu muito.

Álvares  Não consigo acreditar. Recita-me um de teus venenos.

Zé Paulo  Não sei recitar.

Álvares  Como!?

Zé Paulo Não sei recitar. Pra mim o poema é como medicina, só uso quando necessário.

Álvares  E você não está doente agora?

Zé Paulo  Não. A sua companhia me faz bem. Até de minha perna esqueci… (pausa) Posso lhe perguntar uma coisa: como é do lado de lá?

Álvares  Do lado de lá?

Zé Paulo  É.

Álvares (olhando em volta e afetando conhecimento Não muito diferente.

Zé Paulo  Não muito diferente?

Álvares  Não.

Pausa.

Zé Paulo  Mas o que você fez esses anos todos?

Álvares  Andei pelos corredores, fumei um tanto, cuspi pra cima… e estudei um pouco.

Zé Paulo  Estudou? Que tipo de coisa?

Álvares (hesitante Não sei, acho que… botânica! Quando fecho os olhos só vejo bulbos e raízes.

Zé Paulo  Bulbos e raízes?… Faz sentido. E havia bichos?

Álvares  Baratas, camundongos… No começo muitos, depois não mais…

Zé Paulo  E era tudo escuro o tempo todo?

Álvares  Não, havia o dia e a noite… Havia muitas outras coisas. Não consigo me lembrar dos detalhes…

Zé Paulo  Do conhecimento só fica aquilo que se usa.

Álvares  Como?

Zé Paulo  Só fica aquilo que se usa.

Álvares  Não entendo… Isso soa como desculpa esfarrapada.

Zé Paulo  Pode ser um farrapo, mas não é uma desculpa.

Álvares  Não lembro sequer dos meus versos…

Zé Paulo Tanto melhor.

Álvares  Por quê?

Zé Paulo  Porque quando voltar a se lembrar, eles lhe parecerão novos.

Álvares  Não tem graça.

Zé Paulo  Desculpe, Álvares, não tenho muita paciência para explicar as coisas. É outro dos vícios que adquiri com a poesia moderna… Olhe que coincidência. Viemos dar justamente aqui… Lembra-se?

Álvares  O largo do Piques!

Zé Paulo  O largo da Memória!
Ambos circulam a pirâmide de granito do Piques. Cada um murmura, conversando ao mesmo tempo consigo e com o outro.

 
Álvares   Deste eu me lembro.

Zé Paulo  A pedra não tem culpa do que lhe fazem.

Álvares  Não traz nenhuma inscrição. O chafariz não está mais…

Zé Paulo  Tivemos muitos problemas com a água…

Álvares  Ou mudaram-no de lugar…

Zé Paulo  Por aqui as coisas sempre mudam dos lugares.

Álvares (olhando em volta Pelo visto para pior…

Zé Paulo O humor, quando não vem cedo na vida, vem tarde.

Álvares  Uma frase e tanto.

Zé Paulo  Levei anos para pô-la em prática. Quando eu era moço, achava que a poesia era toda séria.

Álvares  Ah, só na fachada…

Zé Paulo  Você está falando sério?

Álvares  Nem um pouco.

Silêncio.

Álvares  Você vem muito por aqui?

Zé Paulo  Não, faz tempo que não venho ao centro. A perna…

Álvares  Pena…

Zé Paulo  Nem tanto. Eu tenho outros divertimentos.

Álvares  Secretos?

Zé Paulo  E públicos.

Álvares  Como, por exemplo…

Zé Paulo  Traduzir.

Álvares  Traduzir?

Zé Paulo  É. Traduzo o que é secreto no público e a ação pública na privada.

Álvares  Bobagem. Você é uma vítima dos trocadilhos… Já que gosta tanto de jogar, me diga: se este é o centro, o que há na borda?

Zé Paulo  Outros bairros, outras barras, muitas borras.

Álvares  Lá vem você de novo.

Zé Paulo  Não, Álvares, aqui você é que é o novo e eu sou o velho… Mas eu gostaria de lhe mostrar alguém mais velho do que eu, alguém que mora na Barra Funda… (Tomando Álvares pelo braço) Vamos! O metrô fecha à meia-noite.

Os dois partem ao encontro de Mário de Andrade.

Alberto Martins

Alberto Martins, escritor e artista plástico, é autor do livro de poemas Cais e da novela A História dos Ossos, ambos da Editora 34.

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