concurso literário

Who are you?

O vencedor e os finalistas do mês

WHO ARE YOU?
Rodrigo Corsi

“Pai, paiê, pai”, Carlos entra aos gritos no gabinete do presidente. “Aquela Regina tá trazendo um monte de esquerdista pra cá”, continua o filho, em tom que mistura reclamação e choro adolescente (o que soa estranho vindo de alguém que beira os quarenta). Jair, sentado de costas para a porta, parece não se importar com o protesto e, estranhamente sereno, segue com os olhos voltados à paisagem que entra pelas janelas de sua ampla sala. “O Olavo tá emputecido”, insiste o Zero Dois.  “Não entendi a referência, mas o professor disse que ela é uma noviça rebelde, infiltrada pela Globo para subverter nossos valores e disseminar a cultura comunista.” O esforço do rapaz, porém, é inócuo. Diante do silêncio do pai, Carlos sai batendo a porta, aos berros: “Vou fritar essa mulher, vou fritar.”

Mal termina a frase, Carlos esbarra com o irmão Eduardo no corredor.

“Pra fritar eu ajudo”, diz o Zero Três, animado. Ainda na infância dos filhos, Jair os apelidou com números, evitando assim o esforço que é lembrar o nome de cada um deles. “Porra, Duda, não tô falando de hambúrguer, não”, responde o Zero Dois.

Ainda irritado com a indiferença do pai, Carlos expõe ao irmão o complô vermelho, e os dois correm para reunir provas contra a nova secretária de Cultura.

Não demora e a dupla está de ouvidos colados à porta da sala que Regina ocupa na sede do governo, em cena que poderia ter saído de um daqueles filmes de acampamento da Sessão da Tarde.

“Falei pra você, Duda”, sussurra Carlos ao irmão, que o questiona com olhar confuso. “Presta atenção”, pede o Zero Dois. Eduardo havia notado a música que vinha da sala, no entanto, não entendia como aquilo poderia estar relacionado à denúncia de Carluxo.

“No cu me acalmo”, exclama Carlos, ao repetir um trecho da canção que ecoava nas paredes do gabinete.

“No cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador”, cantarola Eduardo, para perplexidade do Zero Dois.

“Deu pra escutar música de gayzista agora? Se a Damares ouve essa do ‘cu’ é capaz de ter um troço”, reclama o indignado Carluxo. Aos risos, Eduardo conta que a turma que pegava onda com ele na adolescência era fã de Raul Seixas.

Há algum tempo, desde que Jair foi alçado ao posto de chefe do Executivo, a sede oficial do governo tornou-se uma espécie de escritó-rio da família. Além de Carlos e Eduardo, Flavio, o mais velho dos três irmãos, é visto com frequência pelos corredores do prédio. Apesar do relacionamento do trio não ser dos melhores, Carluxo e Duda saem à procura do Zero Um para juntarem forças contra a ameaça comunista.

“O pai tá estranhão. Essa birra de vocês com a Regina não vai dar em nada. Melhor esquecer essa história”, Flavio aconselha.

“Você nunca ajuda em nada!”, esbraveja Carlos.

Acostumado aos embates entre os irmãos mais velhos, Eduardo avalia que é melhor não se meter na discussão e, como bom caçula, apenas observa.

“Já falei que o pai tá estranho”, repete Flavio. E explica: “Entrei na sala dele hoje pra perguntar o que faço com os meus laranjas e ele nem me olhou, nem xingar xingou. Só disse que queria o dele com gelo e açúcar.” Encafifados, os três se entreolham, sem saber o que dizer.

Enquanto isso, no gabinete presidencial, Jair anda de um lado para o outro ao celular.

“Ô, Carioca! Aguenta mais um pouco aí, tá okey?”, pede a voz do outro lado da linha. “Se você não fizer nada, ninguém vai desconfiar que tem outro no meu lugar”, Jair instrui o fake. O humorista enxuga o suor da testa e senta-se novamente na cadeira de presidente para apreciar a vista privilegiada.

*

CONCURSO LITERÁRIO

Se você acha que tem alguma vocação para Machado de Assis, participe do maior concurso da literatura dos trópicos, o já tradicional Encaixe a frase.

Funciona assim: todo mês propomos uma frase obrigatória e um ingrediente improvável que deverão ser incorporados a uma história que, ao menos, nos faça sorrir um tiquinho em meio a esses tempos estranhos. Envie seu texto de até 5 mil toques ou uma história em quadrinhos de 1 página até o dia  20 de abril para concurso@revistapiaui.com.br.

Além de ser publicado na próxima edição da piauí, você ainda pode ganhar um lindo jogo de panelas e uma caixinha de pastilhas pra garganta.

FRASE DO MÊS:
“Um fio de cabelo no meu paletó”
Elemento estranho: Darth Vader

AO VENCEDOR, O TAPETE VERMELHO: A frase do mês passado era “No cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador”, e o elemento estranho era “Noviça rebelde”. O campeão é Rodrigo Corsi, de Guarulhos, a quem recomendamos cautela e um colete à prova de balas. Os outros quatro finalistas estão abaixo.

Confira aqui as regras do nosso paleolítico certame literário.

*

Textos finalistas

A CONVERSÃO NO CAMINHO DO MASP
José Carlos de Lima Júnior

Envaidecido com o fato de uma cidade tão grande e atraente ser batizada em meu nome, resolvi visitar São Paulo. Acidentalmente, no site da prefeitura, enquanto procurava sobre rotas de ônibus, descobri que era uma cidade irmã de Damasco, o que me causou algum desconforto, embora não tão grande quanto o que senti ao chegar no MASP e me deparar com uma exposição de Caravaggio. Não era possível que novamente me acontecesse aquilo que se repetia há séculos e que era obviamente uma obsessão católica. Estruturalmente da mesma forma, montada com os mesmos atos, a se repetir, em esculturas e pinturas. Dias atrás, eu havia debatido brevemente com meu amigo Pedro, um tipo sempre queixoso, de fato, e com uma jaqueta notável, o conceito canônico de que os fatos históricos e os personagens ocorrem duas vezes. Acrescentei, com uma dor pessoal, que incontáveis vezes, na verdade. E ele ainda me lembrou secamente do apêndice marxista de que os homens retomam os espíritos do passado no momento de executar as crises revolucionárias: assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo. Então, Paulo era a versão trágica e Lutero, a farsesca. Eu não poderia discordar de que eu era uma representação bem adequada da tragédia e que também nada restava do meu passado fariseu. Do contrário, eu vivia de encenar a repetição da queda do cavalo e a cegueira súbita.

Ainda assim, mesmo incomodado com a aura do meu iminente infortúnio, decidi seguir. Havia muito movimento no museu, estava acontecendo um festival de cosplay de filmes de época. No caminho para a bilheteria, cruzei com a Noviça Rebelde, que me cumprimentou muito efusivamente, com um certo flerte, até, mas ficou ofendida quando a chamei de Mary Poppins. Rapidamente tentei corrigir e meio sobressaltado chamei-a de Maria von Trapp, o que soou como um spoiler gravíssimo. Não me corrigiu, tampouco tolerou mais qualquer argumento como subterfúgio, também nem se emendou em qualquer resposta. Apenas me virou as costas. Também me apressei em entrar no MASP, a minha Damasco particular.

Não foi sem espanto que as memórias daquela época ressurgiram. Mas com todo desconforto possível de ter que relembrar o período ao qual pertenciam aquelas personagens sombrias. Havia séculos eu estava livre daquilo tudo. Quando todo aquele período novamente se iluminou naquele cavalete, a cena me perseguiu por dias e dias. Estive novamente três dias sem ver. E também não comi, nem bebi. Amargamente maldisse a precisão fotográfica daquele Caravaggio. Aquela história não me deixava. Atualmente, eu vinha pretendendo um certo revisionismo, defendendo uma adaptação e que eu já não precisasse cair de um cavalo, o que era razoável com a minha idade.

Subitamente, entrei no banheiro e procurei meu comprimido de naratriptana, torcendo para que a cegueira súbita fosse apenas uma aura das enxaquecas que vinham me atormentando. Também quis me antecipar a alguns novos sintomas e imaginei que teria uma alucinação auditiva, mas não estava a par de se era crível que alucinações fizessem parte da minha enxaqueca. Pensei em tomar um café. Não podia descer de escadas até o saguão sem enxergar e com náuseas. “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Ora, ora, que anacrônico. Eu já não me chamava Saulo. E como encontrar Ananias em São Paulo, para me recuperar a visão? Pensei em ir a algum pronto-socorro. By the book, Ananias deveria me procurar pessoalmente. Resolvi esperar um pouco pela fidelidade das escrituras. A mesma voz também deveria o perturbar, e deveria dar ordens de que deveria vir até mim e recuperar minha vista. Ele iria se espantar, retrucar que eu era um fariseu, mas, bem, eu devia esperar orando. No vão do MASP havia um espaço amplo, mas também pensava em ficar por aqui no segundo andar, para evitar as escadas, naturalmente.

Ele não viria sem que eu orasse. Nem devia esperar por isso. Era muito dogmático. Resolvi orar enquanto esperava Ananias: Senhor, perdoai-me, mas esteja atento, sou Paulo, o Coelho, Rio de Janeiro, não Roma, aquele parceiro do Raul: “no cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador… la ra ra”. Livrai-me disto! Logo me dei conta de que deveria comemorar apressadamente minha visão restabelecida já à espera de uma metamorfose ambulante, no caso de O Senhor ser muito literário e me reservar um destino kafkiano.

 

*

OURO DE TOLO
Fernando Gomes Schettini

O rádio estava desligado, mas o motorista cantarolava, com quase sotaque nenhum, “Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, No cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador. Toda vez que passava pelo Plano Piloto e avistava o Congresso Nacional, imaginava serem, suas duas tigelas, espaçonaves. Não entendeu o prédio da primeira vez que o viu, sendo essa a impressão imediata que teve dele assim que chegou do Haiti há onze anos. A música veio depois, quando aprendia português. Com a iluminação noturna lançada sob o prédio de Niemeyer e as linhas e cores por ela produzidas, passou a imaginar que a canção tinha sido feita para o monumento. Era lindo.

À medida que avançava na nova língua, a canção passou a ter outros sentidos, a revelar novas facetas: A mentira das fronteiras, a ilusão do conforto material, a poluição do entretenimento vazio dificultando a visão do que era realmente importante. Estar vivo e poder viver, ver e sorver o mundo, isso sim valia a pena, era tudo que tinha e que acreditava que todos deveriam ter. Os vizinhos brasileiros da periferia em que morava insistiam que a música Faroeste Caboclo era a cara de Brasília e suas cidades satélites. Para ele Ouro de Tolo era a sua música no Planalto Central. João de Santo Cristo era burro, não sabia para onde ir.

Comprara aquele carro há pouco tempo – claro que não era um Corcel 73 – com a intensão de fazer um Uber, mas o brasileiro era bem mais racista e xenófobo do que parecia ser. O viam com desconfiança. Além disso, o país tinha mudado bastante nos últimos anos. Deus me livre no que aquele general de cabeça branca fez no Haiti, na Cité Soleil. Como se diz aqui, quem anda com porcos, farelos come. Esse novo presidente dava medo. Falava com ódio e valorizava a violência. Havia mais hostilidade em toda parte. Mas, ainda assim, o carro passou a atender a si, à família e a alguns amigos. Conseguiu mais mercado para os doces e geleias que ele e a mulher fabricavam, bem como pegar mais serviços pela periferia de Brasília e cidades satélites. Eletricista e encanador.

Agora isso: Risco de epidemia. Esse capitão não sabe o que é isso. Ele sabia. O Haiti sabia da guerra e do sofrimento. Pessoas doentes e morrendo. Desespero e desamparo. Conhecia muitos imigrantes, muita gente pobre. É a gente que mais sofre com guerras e doenças. Os ricos têm tudo que precisam. Melhores hospitais, melhores médicos. Como é irresponsável esse homem. Ia em missão, era nisso que acreditava. Não aguardaria o pior sentado “No trono de um apartamento com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar”, cantarolou, dessa vez quase sem mexer os lábios.

Desceu de seu carro velho e misturou-se a um grupo de visitantes. Disse apenas que queria falar ao presidente por que amava Brasil e os brasileiros. Teve permissão para aguardar a comitiva no cercadinho onde outros esperavam. Não prestou atenção ao redor, não se interessava pelo que diziam. Se pôs atento quando os automóveis pretos começaram a chegar.

O presidente há muito não era chamado de você – mito, capitão, senhor presidente, presidente – mas não de você. Talvez por isso teve dificuldade de entender o enxurro de palavras cheias de sotaque que, a seus ouvidos, pareceram um conjuro, mas que, na verdade, era só uma constatação: Haiti, Falando brasileiro, Acabou, Você não é presidente mais, Você precisa desistir, Você está espalhando vírus e vai matar os brasileiros. Se fosse uma mulher, o presidente provavelmente teria partido para o esculacho e xingamentos. Um vazio na barriga, um descompasso na respiração e batidas mais surdas no peito lhe tiraram a reação. Bajuladores recitaram salmos, alguns se indignaram, alguém pediu para orar. Será que aconteceu algo que não estou sabendo, pensava o presidente sem seu smartphone à mão. Vibrava seu vício em redes sociais.  Após o apoio da claque, o presidente, mais seguro, mirando para onde estava o estrangeiro, recomendou que ele voltasse para a Etiópia, mas o homem já não estava lá.

Entrou no carro. Não achou conforto no banco. Olhos estatelados:

– Quem era aquele cara? E se fosse terrorista? De onde esse crioulo saiu? O cara vem lá da puta que o pariu para falar merda comigo. Eu sou o presidente da república, caralho. Quem era aquele cara, pô?

– Não sei, senhor presidente. É só um bobo, não se preocupe com essa Mary Poppins vodu dos infernos. Noviça rebelde do subterrâneo.  Deve estar nervoso porque acabou a banana lá onde ele mora – disse, ensaiando um riso, o assessor que ia ao lado.

O presidente, que sempre ria de qualquer osso misógino ou racista que lhe lançassem – ainda que não entendesse –, não esboçou reação. Olhos fixos para frente. Lábios cerrados. Só se sentiu tranquilo quando lembrou que o percurso até o já destino já estava quase terminado.

Inverossímil? Clichê? Na volta para casa, o rádio do carro homenageava o haitiano, cujo nome não sei, com outra do Raul que ele não conhecia: O dia em que a terra parou.

*

DIÁRIO DA QUARENTENA
João Paulo Bley Ruivo

6 de março
Meu nome é Olavo e eu não consigo terminar meu TCC. Tentei de tudo: Pomodoro, aplicativo que bloqueia o Twitter, até vídeos de coach de Mindfulness. Este é meu último recurso: um diário de bordo. Quando eu perder a concentração, vou recorrer a ele. Acho que agora vai.

12 de março
Escrevi 2 páginas. Enquanto isso Cléber, meu colega de apartamento, estocou papel higiênico, nuggets e álcool em gel. Minha mãe ligou hoje. Tá toda paranoica com o corona, sendo que 3 dias atrás falou no grupo da família que era conspiração comunista para gongar o ato do dia 15. Perguntei o que fez ela mudar de ideia, e ela admitiu ter sido a cartomante:

— Não dá pra confiar no dr. Drauzio. Mas as cartas não mentem.

P.S. – Recebi um email do meu orientador. Não tive coragem de abrir.

14 de março
Quanto mais eu escrevo, mais eu tenho dúvidas sobre o TCC. O tema é: “Falta de dinheiro e revanchismo explosivo: Seu Madruga como arquétipo da classe média brasileira”. Precisava fazer uma enquete no Twitter pra saber se falar de Chaves configura como apropriação da cultura mexicana. Mas vai que só de perguntar já me cancelam?

15 de março
Hoje o Cléber ficou me dando afazeres o dia todo, e eu não posso recusar. Dois meses atrás, fui expulso de uma república porque eu fiquei sem grana pro aluguel. Fiquei sem teto até achar um anúncio do Cléber no Facebook: agora eu moro com ele na faixa em troca de realizar as tarefas de manutenção do imóvel. Achei o esquema bom no começo, mas aí ele confessou ter me escolhido por causa do meu nome. Depois foi só ladeira abaixo:

— Olavo! Já ouviu falar do Flávio Morgenstern? Ele é genial, vai dar uma palestra sobre o terrorismo cultural que o Pabllo Vittar promove nos show dele.

— Até aceito que você traga sua planta do capeta, mas comprar Pepsi não dá. Aborto líquido não passará!

Hoje ele viu o filme A Noviça Rebelde pela 2ª vez na semana. Deu pra ouvir ele cochichar:

— Fale o que quiser sobre os nazistas. Mas eles eram limpinhos…

16 de março
Fiquei 9 horas na frente do computador e nada. Como vim parar aqui? Perto de ser jubilado, morando com um olavista hipocondríaco num país comandado por bufões fascistóides.

Olhei para o meu violão, cheio de adesivos das chapas estudantis fracassadas que participei, e me peguei relembrando daquele jovem Olavo que entrava na faculdade de Sociais 7 anos atrás, tocando Raul, Belchior e um Iron Maidenzinho acústico nas rodinhas da facul. Tantos bons momentos o separam do Olavo de agora: as greves e piquetes históricos; as viagens para casas de praia de conhecidos meio desconhecidos; a briga que puxei num sarau de boteco com uma monarquista que declamou um soneto para a família real brasileira…

E então recordo o golpe, a eleição, e agora essa epidemia doida. Será que ela é a gota d’água que faltava? Será que o vírus na verdade é um sinal para eu dar a volta por cima? Reajustar a vida, refazer o TCC.

P.S. – Tive um pesadelo em que eu abria o email do orientador e o dito cujo saía da tela do meu notebook pra me estrangular com um lenço nazista.

18 de março
Ontem, depois de participar do panelaço, dormi e tive um sonho revelador. Ele se passou num zoológico: eu dava pipoca aos macacos, até perceber que no meio deles estava o meu orientador e que as pipocas eram letras do meu TCC. Foi quando Raul Seixas apareceu atrás de mim e disse: “Que saco, né?”.

Acordei eufórico e comecei a escrever sem parar, refiz tudo numa tacada só. Agora só falta a conclusão. E o título. Tenho 2 opções:

  1. No cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador: a visão não-conformista como elemento alienígena no contexto do Capital”;
  2. “Toca Raul: pedido musical ou ato de resistência?”.

 

31 de março
Não me deixam terminar o TCC. Minha mãe ligou chorando porque a cartomante avisou que o filho dela seria vítima do corona. Falei mil vezes que eu não tô nem saindo do quarto, mas não adiantou. Depois veio o Cléber só de toalha e máscara de médico, falando que o chuveiro tá com mau contato. Pelo jeito ele só vai me deixar em paz depois que eu fizer o serviço. Mas tudo bem. Agora sou um homem feliz de novo: falta só um parágrafo.

P.S. – Abri o email. Segue sua transcrição, ipsis litteris:

Oi Olavo,

Com a pandemia à vista, é melhor nos precavermos. Qual é seu “corre”? Ouvi falar do “rappi da erva” que entrega em casa. Conhece? Seria uma mão na roda para os tempos de quarentena.

Grande abraço. Se cuida!

NOTÍCIA DO DIA 1º DE ABRIL:

Jovem morre em quarentena

O estudante Olavo Pinheiro, 28, levou um choque fatal dentro do seu apartamento durante uma troca de resistência do chuveiro.

Segundo Cléber Santana, seu colega de quarto e amigo, Olavo “era gente finíssima, mesmo sendo esquerdista”. Cléber conta que o choque fez o corpo de Olavo ser projetado para fora do box, caindo logo abaixo da pia com a boca escancarada e cheia de dentes. O chuveiro foi quase inteiramente carbonizado, a não ser pelo canto inferior, onde ainda é possível ler:

Duchas Corona: um banho de alegria num mundo de água quente”.

*

ATO DIVINO
Paulo Castelo Branco

Ao entrar no ônibus, logo percebi os seus cabelos negros derramados sobre os ombros. O que me chamou mais a atenção foram os olhos verdes esmeralda reluzentes. O ônibus estava quase vazio, em obediência às determinações das autoridades sanitárias que exigiam que os passageiros se acomodassem nos assentos, mantendo a distância mínima de dois metros.

Ela estava sentada no assento da janela. Olhei para os demais passageiros, e me encaminhei para o assento do outro lado, no corredor.  Eu a cumprimentei com um olhar de admiração, já que não podia sorrir, pois mantinha a boca e o nariz cobertos pela máscara indicada para proteção contra o Covid 19. A minha era dessas comuns, brancas; a dela era rosa e de melhor qualidade, com  respirador lateral, daquelas usadas por médicos e enfermeiros nos hospitais repletos de contaminados.

De vez em quando, eu olhava para o lado e imaginava como seria a face dela. Deveria ser linda. Estava vestida com roupas imitando as de grife. O sapato de saldo alto, na cor vermelha, completava a silhueta. Não me olhava.

O ônibus só parava para entrada de passageiro, quando saía alguém abrindo espaço para mais alguns. Todos usavam máscaras, inclusive um rapaz que desenhara o bigode do Salvador Dali sobre a dele.

Pensei se todas aquelas pessoas estavam contaminadas, mas não pareciam. Eu sim, no grupo de risco, aos 75 anos e sobrevivente a uma doença preexistente, senti que estava gripado, pois acordara indisposto, com o nariz entupido e com coriza. Vi no celular que a Itália, que possui 1/3 da população de idosos, estava descartando os velhinhos, os mandando para casa para aguardar a chamada divina.

Fiquei com pena de mim e dos meus amigos que chegamos à senectude com saúde e vigor físico, mas que, agora, teríamos que ir para o além, mesmo pagando o plano de saúde em dia. Todas as sextas-feiras, nos encontrávamos para almoçar, beber vinho e conversar, nunca faltou ninguém; até o dia que Carvalho abriu a porteira e partiu.

Quando me mudei do Rio de Janeiro para o Planalto Central, no rastro de um sonhador, perdi a visão das montanhas. Lembrei-me de uma antiga canção que dizia: “No cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador”. A música fez muito sucesso na minha geração; e o cantor, grande poeta, era como nós, muito doido.

Absorto em meus pensamentos, não percebi que a moça passou para o assento do corredor e me olhava com aqueles dois faróis de milha. Sem tirar a máscara, falou: – Acho que o senhor pode me ajudar. Assenti com a cabeça. – Percebi que o senhor, ao entrar no ônibus, olhou para mim com admiração. Achei que não seria um desses assediadores que vivem atacando jovens moças, prometendo mundos e fundos. Nasci no interior e me apaixonei por um homem com a idade do meu pai. Houve uma grande revolta em casa e acabei fugindo com o meu príncipe encantado. Minha família me considerava uma perdida, chamando-me de noviça rebelde de quem eu nunca ouvira falar.

O príncipe me trouxe para cá e, um mês depois, colocou-me em pequeno apartamento com outras três moças. No dia seguinte, chegou com uma caixa de papelão já usada e mandou que eu experimentasse o que servisse em mim. Eram sapatos e vestidos elegantes. Escolhi o que achei bom e os separei para limpá-los.

O tal príncipe, deu a ordem: – Quando escurecer, você sai com as meninas, elas se chamam, Marta, Ivone, Margarida e você será Maria. Gosto de nomes simples. Os homens estão cansados de nomes complicados. Elas ensinarão a você o que fazer, apesar de você saber bem os segredos do sexo.

Ouvia o relato com atenção e disse: – Moça, eu já fui bom nisso, mas hoje, além de não ter atrativos, vivo da minha aposentadoria. Não sobra nada.

Ela, assustada, continuou: – Não, não estou lhe oferecendo sexo, pois percebi a sua seriedade e resolvi pedir-lhe que me ajude; levantou a máscara e mostrou a boca machucada e sem os dentes. Eu preciso ir à Delegacia da Mulher denunciar o príncipe por agressão e ameaça. Estou com medo.

Descemos no ponto da delegacia e ela fez o boletim de ocorrência. – Você tem endereço? Adiantei-me e disse: – Sou padrinho dela e moramos em minha casa. Em seus olhos brilhantes, vi a sombra sonora de um disco voador.

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