questões ambientais

Memória do óleo

Mais de um mês depois da chegada do petróleo numa praia do Sul da Bahia, voluntários anônimos enfrentam o cansaço, o sol e a exaustão mental para tentar limpar até a última mancha

Fernanda Santana
12dez2019_07h18
A catadora de óleo Mirian Ribeiro –
A catadora de óleo Mirian Ribeiro – Ilustração de Paula Cardoso sobre foto de Fernanda Santana

O celular toca no bolso de Mirian Ribeiro Santos, 47 anos, por volta do meio-dia do dia 27 de outubro. Do outro lado da ligação, um conhecido fala sobre a possibilidade de as praias de Canavieiras estarem manchadas pelo mesmo óleo que, desde o dia 30 de agosto, atingia praias nordestinas. Canavieiras, no Sul da Bahia, faz fronteira ao Norte da região dos Abrolhos, onde está o Parque Nacional de Abrolhos, a maior biodiversidade marinha do Oceano Atlântico Sul. Como é domingo, e muitos voluntários estão incomunicáveis, Ribeiro segue para a Praia de Atalaia verificar a informação. Antes, buscou três voluntárias em pontos diferentes da cidade. De frente para o mar, encontraram a areia de cinco praias tomada de preto. Ao final do dia, Mirian e os outros voluntários tinham retirado 200 kg de óleo das praias.“Foi uma tristeza ver aquilo. É a mesma sensação diariamente”, diz. Mais de um mês depois,  Ribeiro repete como se fosse um ritual a limpeza das praias manchadas de Canavieiras. Uma rotina que lhe toma a saúde e o tempo.

Desde então, às 4h30 da manhã, sem folga, o despertador vibra na cabeceira da cama. A rotina é a mesma desde aquela tarde de domingo “Todo dia fazemos a mesma coisa, olhando as praias de uma barra à outra”, conta Ribeiro, a caminho da primeira vistoria do dia, na Barra do Albino. No chão do seu carro, abastecido por conta própria para as ações nas praias, está uma garrafa de café. “A gente tem que acordar de algum jeito, não é?”, brinca. Desde a chegada do óleo, ela dorme menos de seis horas por dia e, mesmo quando dorme, o petróleo está nos seus sonhos.

A casa de  Ribeiro está localizada numa área conhecida como Rua da Areia, onde as casas foram erguidas sobre um areal aterrado. Ribeiro foi tomada por revolta ao assistir as primeiras notícias do aparecimento de manchas de óleo no Nordeste. A primeira veio no dia 30 de agosto 2019, na Paraíba. No dia 1º de outubro, o óleo apareceu na Bahia, no município de Mata de São João, no Litoral Norte. O estado foi o último do Nordeste onde o óleo chegou. Até agora, o navio grego Bouboulina é apontado pela Polícia Federal como responsável pelo vazamento.

A Bahia tem o maior número de localidades afetadas pelo óleo. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), até o último dia 10, houve 907 locais atingidos, sendo 341 baianos.  Ribeiro vive justamente na área do estado mais afetada. Somente na Região Sul estão vinte dos 31 municípios onde o óleo foi encontrado. A chegada do material mais ao Sul é associada a fatores como correntes marítimas e sistema de brisas. No dia 22 de novembro, duas semanas depois do primeiro registro no Espírito Santo, o óleo chegou a São João da Barra, Litoral Norte do Rio de Janeiro.

 

Depois do fim da coleta na Praia de Atalaia, segunda praia visitada numa segunda-feira de novembro, onde encontrou vestígios de petróleo em estado volátil,  Ribeiro diz, enquanto dirige, que a questão do óleo está cercada de “contrainformações”. Uns dias mais, outros menos, o óleo tem chegado diariamente às praias locais. Na parede da entrada da sede do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Canavieiras, um painel mostra que já foram pelo menos 36 toneladas de óleo recolhidas nas praias da cidade.

Os voluntários fazem parte, desde o início, da história do que chamam de desastre ambiental. Antes mesmo de o óleo alterar a rotina de Canavieiras, onde vivem 31 mil pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma reunião no dia 12 de outubro definiu quais seriam as ações caso a cidade fosse impactada. Seria o início das atividades do grupo SOS Mangue Mar de Canes. A própria  Ribeiro decidiu ir a escolas para recrutar o máximo de voluntários possível. A lista com os nomes dos interessados em ajudar resultou na criação, no dia 24 de outubro, do grupo “Voluntários da Mirian” – no WhatsApp, o grupo tem 240 participantes.

A ex-comerciante desembarcou em Canavieiras há três anos, vinda de São Paulo, onde possuía duas lojas, nos bairros da Liberdade e do Paraíso. Natural de Potiraguá, também na Região Sul baiana, Ribeiro antecipou a aposentadoria em nome da saúde da única filha, e partiu para Canavieiras, onde os pais já moravam. Aos 13 anos, Rebeca foi diagnosticada com uma arritmia cardíaca. Três meses depois do diagnóstico, convencida de que a tranquilidade do interior curaria a menina, Mirian e a filha estavam instaladas na Bahia. Hoje, Rebeca não apresenta mais nenhum sintoma do problema, como arritmias, e fica em casa na companhia da avó, com quem as duas moram. O marido permaneceu em São Paulo. “Mas sossego é algo que não estou tendo”, comenta, vestida em uma das três calças separadas para a coleta de óleo. Os tecidos já foram escurecidos pelo petróleo. Quando recebeu a piauí, nos dias 24 e 25 de novembro,  Ribeiro tinha os olhos avermelhados por uma possível intoxicação, o corpo 8 kg mais magro e o cansaço físico e mental de quem, assim como ela, dedica os dias a uma luta que ninguém sabe quando terminará.

No quintal de uma casa na Rua Rio Pardo, onde vive uma comunidade pesqueira, cinco pessoas discutem como a vida mudou desde as primeiras manchas pretas. O trabalho começa quase sempre antes de o sol nascer, mas só termina entre 22h e a meia-noite. Nos primeiros dias de coleta, muitos voluntários sequer usaram luvas. A marisqueira Jaqueline Mendes, 34 anos, conta que o marido, João, ficou em observação por dois dias, com manchas e coceiras pelo corpo. A exposição a gases tóxicos do petróleo, como o benzeno, pode provocar intoxicações na pele, no trato respiratório e nos olhos. Ainda assim, os voluntários se arriscam nas praias. O óleo não para de chegar, e as atualizações são feitas principalmente por meio de mensagens.

Como a quantidade encontrada por Ribeiro na coleta daquele dia 24 de novembro foi pequena, quase 5 kg, as ações só foram retomadas à tarde. “Eu abri mão da minha vida”, relata Ribeiro, acompanhada do pescador Lindomar Custódio, 47 anos, e das marisqueiras Jaqueline e Maria Conceição Santos Gonçalves, 32 anos. Desde a chegada do óleo,  Ribeiro não cozinha ou arruma casa, nem leva a filha, Rebeca, à escola, sua antiga rotina. O tempo é reservado diretamente às coletas nas praias ou a reuniões entre voluntários, e busca por doações de materiais de proteção para a coleta. No porta-malas do carro da ex-comerciante, estão os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para os voluntários doados por empresários locais, comprado abaixo do preço de mercado, depois da insistência dos catadores de petróleo, ou enviado pelo ICMBio.

A saga dos voluntários muda apenas de endereço ao longo do litoral nordestino. São eles, muitas vezes, os únicos responsáveis pela coleta de óleo nas praias, que muitas vezes entra pela noite. O Ministério Público Federal (MPF) em Sergipe pede, desde o dia 18 de outubro, que a União acione o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição Por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC). O Tribunal Federal da 5ª Região, em Recife, alega que o plano foi acionado, mas o MPF defende o contrário até hoje. O órgão diz por exemplo, que sequer a “significância nacional do desastre ambiental” foi formalmente reconhecida. “Eu acho que daqui a uns anos, nossos filhos, nossos netos, não vão acreditar que conseguimos poluir tanto”, afirma a marisqueira Maria Conceição, uma das voluntárias mais assíduas.

Voluntários retiram óleo em praia do Sul da Bahia - Foto: Fernanda Santana

 

Na manhã do dia 25 de novembro, quase um mês depois da chegada do óleo,  Ribeiro mostra sinais de cansaço. Como ela, outros voluntários estão esgotados pelo esforço físico e emocional contínuo. Menos de duas semanas antes, ela, Maria e outro voluntário caminharam 13 km na areia, sob o sol quente e com fome, até uma praia perto de Canavieiras. Foram checar um informe de que a praia do lugar estava completamente oleada. Alarme falso, desgaste intenso.

O cotidiano dos catadores de óleo também inclui disputas com o poder público. Na manhã do dia 28 de outubro, numa reunião de quatro voluntários com o prefeito Clóvis Roberto (PPS), conhecido como Dr. Almeida,  Ribeiro ouviu do político, depois de falar da necessidade de doações: “Você não é voluntária? Então se vire.” Um áudio gravado por Ribeiro relatando o episódio viralizou na cidade. A piauí procurou o prefeito, que não respondeu até a publicação da matéria. “Meu corpo não aguenta mais”, diz  Ribeiro. A exaustão fez com que o número de voluntários, aos poucos, diminuísse. Hoje, são, em média, quinze voluntários que ainda acompanham diariamente a retirada de óleo. Mas o fôlego, se vê, está no final. 

A cidade de Canavieiras tem 10 mil hectares de manguezais, o equivalente a 63 Parques do Ibirapuera. “São grandes berçários para espécies. Do ponto de vista ecológico, qualquer contaminante pode desequilibrar aquele local”, explica Raimundo Bonfim, biólogo na sede do ICMBio na região que, desde 2006, está localizada dentro da chamada Reserva Extrativista de Canavieiras. A reserva é formada não só por todo o município de Canavieiras, do mar aos mangues, como os vizinhos Belmonte e Una, onde o óleo também mobiliza voluntários. As Resex são espaços onde a subsistência das populações tradicionais precisa ser assegurada a partir de um uso sustentável dos recursos naturais. Nessas áreas, é proibida, por exemplo, a caça, e a economia é voltada para a permanência sustentável das populações tradicionais, não para concorrência com grandes mercados.

A presença das manchas pretas nas praias afeta as famílias que dependem dos pescados e mariscos. No freezer de casa, Maria Conceição guarda mais de 100 kg de filé de camarão, como é chamado o marisco sem a casca. O prejuízo chega a 5 mil reais. Na vizinhança, os relatos se repetem. A população teme comprar mariscos, por medo de contaminação. Cada pelota de óleo coletada nas praias é como um obstáculo direto à própria sobrevivência. “O que eles vão fazer, o que vão comer, se as coisas continuarem assim?”, pergunta  Ribeiro. A Bahia Pesca, órgão ligado ao governo do estado da Bahia com finalidade de fomentar a pesca e a aquicultura, afirmou, no dia 21 de novembro, que a análise de amostras de 23 áreas de pesca, entre elas Canavieiras, não mostrou contaminação no pescado. Quatro dias depois, a Universidade Federal da Bahia divulgou estudo que mostra redução de quase 47% do número de espécies em recifes de corais de quatro praias no Litoral Norte baiano.

Depois de uma reunião entre agentes do ICMBio, no dia 25 de novembro,  Ribeiro encontra Carlos Alberto Pinho, pescador e secretário da Associação Mãe da Reserva Extrativista de Canavieiras (Amex). Naquela manhã, técnicos do órgão e lideranças locais discutiram as possibilidades de atuação dos voluntários nos manguezais. O final do dia ainda reserva uma reunião na sede do órgão no município.“As pessoas não estão querendo mais doar material para a coleta [como EPIs e os chamados “big bags”, sacos mais resistentes, utilizados para armazenar o óleo]. Para muita gente, acabou o óleo, não é?”, diz Carlos às vinte pessoas presentes.

No início da reunião, o pescador Jessé Pimenta, 36 anos, pede a palavra. “Depois que tudo isso acabar, a gente tem que continuar as ações nas praias poluídas de lixo. Isso tem que gerar algum fruto”, diz. O grupo mostra entusiasmo com a proposta. O único saldo positivo do óleo foi a integração entre pessoas até então desconhecidas. Mas há questões mais urgentes a resolver, como um mapeamento das reclamações de saúde dos voluntários, que relatam casos como manchas vermelhas na pele, enjoos, tosses constantes e irritação nos olhos.

Na vizinhança, Mirian Ribeiro já é chamada de “a mulher do petróleo”. “Ah se eu fosse a mulher do petróleo”, brinca. Sempre que fala no assunto do vazamento e na ação dos voluntários, ela assume um tom sério. Compara com as grandes catástrofes, os dias marcantes, como o 11 de Setembro de 2001, quando do ataque terrorista às Torres Gêmeas, em Nova York. No futuro, ela afirma, algumas perguntas também terão que ser feitas: “A gente vai perguntar: O que você estava fazendo quando o óleo chegou? E depois? O que você fez?”. No caso de Mirian, ela ainda faz: amanhã, acordará  de madrugada e voltará para a praia. O óleo ainda chega, e o trabalho está longe do fim. Só no último dia 10 de dezembro, segundo o ICMBio, foram recolhidos nas praias de Canavieiras 32,5 quilos de óleo.

Fernanda Santana (siga @fernandasalima no Twitter)

Fernanda Santana é jornalista em Salvador

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