questões da política

“Não contem comigo”

Em reunião com banqueiros e investidores, Nelson Jobim – que já foi ministro de FHC, Lula e Dilma – diz que não sai candidato em caso de queda de Temer

Julia Duailibi e Malu Gaspar
24maio2017_23h46
Citado como possível candidato em caso de queda de Michel Temer, Nelson Jobim não conseguiu se esquivar das perguntas da plateia: teria ele disposição para entrar na corrida eleitoral?
Citado como possível candidato em caso de queda de Michel Temer, Nelson Jobim não conseguiu se esquivar das perguntas da plateia: teria ele disposição para entrar na corrida eleitoral? FOTO: PEDRO LADEIRA_FOLHAPRESS

O ex-ministro Nelson Jobim recorreu ao clichê “mulher e emprego” para dizer que não é candidato a uma eventual sucessão presidencial. Citado como uma hipótese política viável em caso de renúncia ou destituição de Michel Temer, Jobim (filiado ao mesmo PMDB de Temer) almoçou nesta quinta-feira em São Paulo com cerca de cinquenta integrantes do mercado financeiro, num evento promovido pelo BTG Pactual, banco do qual é sócio. Ele não conseguiu se esquivar das perguntas da interessada plateia: Teria ele disposição para entrar na corrida eleitoral?

Descontraído, com uma nesga de sorriso nos lábios, Jobim citou as duas razões do impedimento. A primeira delas seria o banco. Nesse momento, ele mexeu a cabeça procurando a cumplicidade do economista-chefe do BTG Pactual, Eduardo Loyo, de quem estava próximo. Loyo brincou dizendo que o “liberava”. A segunda, que nenhum comensal levou a sério, seria a suposta resistência de sua mulher Adrienne de Senna, ex-presidente do Conselho de Controle das Atividades Financeiras, o Coaf. Segundo ele, a patroa não gosta nem de ouvir falar da hipótese.

Apesar de sonhar com a presidência da República há tempos — o ex-ministro já foi cotado para candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff em 2010 –, o BTG parece um obstáculo às suas pretensões. Jobim enfrenta nas coxias a resistência de André Esteves, fundador e controlador do banco, que já se manifestou contrário à entrada do sócio na disputa. A opção Jobim, ele sabe, arrastaria novamente seu nome e o do banco para o centro da Lava Jato — tudo o que ele não quer nesse momento. André Esteves amargou 24 dias na penitenciária de Bangu, no Rio, em 2015, e ainda enfrenta processos na Justiça. Com Jobim no páreo, alguns planos de Esteves poderiam dar n’água. Há rumores de que o banqueiro estaria concluindo sua delação premiada, o que ele nega.

O BTG não é o único passivo de Jobim junto à força tarefa de Sérgio Moro. No início da Lava Jato, Jobim elaborou pareceres orientando a defesa de empreiteiras e chegou a depor como testemunha a favor do ex-presidente da Andrade Gutierrez Otávio Azevedo, muito antes de o empresário – hoje delator – cogitar colaborar com a Justiça.



A saída Jobim tomou corpo depois da divulgação dos grampos da JBS, que complicaram a vida de Temer – alvo de inquérito por corrupção passiva, obstrução à Justiça e organização criminosa. Nas bolsas de apostas dos corredores da política, o mais provável é que Temer renuncie ou seja cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, no processo que analisa irregularidades na chapa Dilma-Temer na eleição de 2014.

Não à toa, PSDB e DEM, aliados do atual presidente, já buscam nomes de consenso – além de Jobim, estão cotados o presidente interino do PSDB, o senador Tasso Jereissati; o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do Democratas do Rio; a presidente do STF, Cármen Lúcia; e até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A sucessão de Temer se daria por meio de eleição indireta. Na hipótese de o cargo de presidente ficar vago depois de dois anos de mandato, diz a Constituição que devem votar na eleição apenas deputados e senadores. Jobim, que foi ministro de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, e comandou o STF, é apontado como um dos favoritos pelo bom trânsito entre diferentes correntes políticas.

No encontro com os banqueiros, Jobim repetiu que a situação é “muito difícil” e deu a entender aos presentes que Temer não deve chegar politicamente vivo em 2018. Quando um convidado insistiu, ele tergiversou. Disse que, na atual conjuntura, era muito difícil apontar qualquer cenário.

Jobim disse não acreditar na renúncia de Temer – o caminho, segundo ele, seria a cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ele defendeu, então, uma “operação casada”, ou seja, que a decisão do TSE caminhe junto com a construção de um candidato que tenha consenso político. Preferiu não citar nomes, mas alguns presentes tiveram a impressão de ele que falava de si mesmo. Ao defender uma interlocução entre todos os atores políticos, ele próprio fez uma pergunta aos presentes: Valeria a pena ter o apoio do PT, e de Lula, em troca de algum benefício ao ex-presidente? A questão ficou no ar.

O maior receio do ex-ministro, em caso de falta de entendimento entre as forças políticas, é a ascensão da extrema direita, da extrema esquerda ou de políticos ligados a igrejas neopentecostais.

Enquanto o almoço paulistano transcorria dentro do protocolo, manifestantes em Brasília invadiam o gramado em frente ao Congresso carregando cartazes pedindo “Diretas já”. Para Nelson Jobim, a ideia cheirava a devaneio – seria necessário aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional com tramitação prevista para não antes de julho. Era mais prudente focar no que seria servido de sobremesa.

Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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