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O engenheiro inconformado

anais de uma ditadura

O engenheiro inconformado

Ele não sossegou até descobrir tudo sobre a morte de seu irmão pela ditadura

Angélica Santa Cruz | 02 jan 2026_08h59
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Entre as imagens feitas pelo fotojornalista Evandro Teixeira (1935-2024) que se tornariam registros célebres das manifestações estudantis de 1968 no Rio de Janeiro, há uma que mostra uma passeata já dissolvida no Centro da cidade. Na imagem, três personagens saem de uma névoa branca de gás lacrimogêneo, mal parecem ter rosto. O trio é formado por um homem ferido, levado pelos ombros pelas outras duas pessoas. À sua direita, está um policial; à esquerda, um personagem de óculos escuros, calça e camisa branca abotoada, em um efeito estranhamente arrumado para a situação. Esse anônimo era Gilberto Molina, um engenheiro inconformado.

Durante quase cinco décadas, ele não descansou enquanto não identificou e sepultou, no jazigo da família, os restos mortais do irmão, Flávio Molina – um estudante de química que deixou o apartamento de classe média da família, em Copacabana, no dia em que homem pousou na Lua, 20 de julho de 1969. Flávio morreria em 1971, depois de ser torturado no DOI-CODI de São Paulo, sob o controle do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. 

Gilberto Molina enfrentou uma busca penosa e persistente. Detalhista e incansável, nunca aceitava “não” como resposta. Foi o primeiro familiar de um desaparecido a ver, com os próprios olhos, as ossadas escondidas na Vala de Perus, o buraco clandestino aberto no cemitério Dom Bosco, em São Paulo, onde foram enterrados opositores da ditadura e indigentes. Passou mal, quase desmaiou.

A partir de uma representação enviada por ele, o Ministério Público Federal em São Paulo abriu uma ação civil pública que, entre outros desdobramentos, resultou num pronunciamento histórico feito em março pela ministra Macaé Evaristo, da pasta de Direitos Humanos e da Cidadania. Em nome da União, ela pediu desculpas aos familiares dos desaparecidos e à sociedade brasileira pela negligência na condução dos trabalhos de identificação das ossadas.

Uma reportagem publicada na piauí conta a história desse brasileiro que, por décadas, reconstruiu o percurso do irmão na clandestinidade. Ouviu relatos de antigos companheiros de militância do irmão – ficou emocionado ao receber uma carta de um deles e, depois, entrou em choque ao descobrir que o autor havia sido seu delator. Em busca de reparações, também enfrentou uma burocracia moldada para o esquecimento. Percorreu um labirinto de oito exames de DNA realizados pela família, retificações de atestados de óbito, inúmeros ofícios e e-mails.

Juntando um depoimento aqui, um documento oficial ali, Gilberto conseguiu montar o panorama completo do trajeto feito pelo irmão. Três meses depois de deixar a casa dos pais, naquele dia em que o homem pisou na Lua, Flávio saiu do Brasil pelo Uruguai – é o que mostra um certificado de vacinação tirado no país, com o codinome de Carlos de Campos, uma referência à história familiar: era a rua onde seu padrinho morava, em Laranjeiras. O documento estava no auto de prisão de Flávio. Do Uruguai, ele foi para o Chile. “Lá, me disseram que eles sequestraram um avião para ir a Cuba.” Gilberto nunca conseguiu checar essa informação, mas ela faz sentido – o sequestro de aviões por guerrilheiros que queriam chegar em Cuba era tão frequente que um Boeing 707 da Varig, de prefixo PP-VJX chegou a ser apelidado pelos próprios tripulantes de Expresso Cubano porque, por três vezes em um período de seis meses, foi desviado de sua rota por militantes armados com pistolas para pousar em Havana. Em 1971, Flávio voltou ao Brasil com dois passaportes falsos, ambos de Honduras. Um em nome de Álvaro Lopes Peralta, outra referência à família: Álvaro e Lopes eram nome e sobrenome de seu pai, Álvaro Andrade Lopes Molina, e Peralta era o apelido que Flávio recebera do padrinho. Outro passaporte tinha o nome de Joaquim Villeda Leiva. Se esse codinome também carregava alguma referência pessoal, ninguém da família Molina conseguiu pescar.

No dia 8 de outubro de 2025, depois de uma cerimônia em São Paulo que entregou certidões de óbito corrigidas a familiares de 102 desaparecidos, Gilberto afirmou: “Flávio foi assassinado um dia antes de completar 24 anos. Passados mais de cinquenta anos temos aqui mais uma gota de justiça. Uma gota porque os responsáveis por essas mortes e desaparecimentos estão impunes até hoje e provavelmente vão continuar.”

Leia aqui a história completa.

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