pandemia na quebrada

O gás ou a comida

Na periferia de São Paulo, com epidemia de Covid-19, preço do botijão vai a R$ 150 (um quarto do auxílio prometido pelo governo), renda cai e contas continuam chegando

Luana Almeida
01abr2020_19h55
Ferro-velho sem clientes na comunidade Pantanal  –
Ferro-velho sem clientes na comunidade Pantanal – Foto: Luana Almeida

Manter o aluguel em dia, pagar o dobro pelo botijão de gás e ainda trazer comida para casa – tudo isso com renda menor ou sem renda alguma, graças à retração econômica provocada pela epidemia do novo coronavírus. Em seu terceiro relato para a piauí sobre os impactos da Covid-19 na periferia de São Paulo, a produtora cultural Luana Almeida, de 24 anos, fala do desespero de famílias para receber ajuda do governo ou de instituições. Há uma semana, foi anunciado um repasse de R$ 600 aos mais vulneráveis. O projeto foi aprovado no Congresso com velocidade, e o presidente Jair Bolsonaro sancionou a medida nesta quarta-feira, dia 1º, mas ainda não informou quando a população passará efetivamente a receber o benefício. Fala-se no dia 10 ou 16 de abril. Luana Almeida mora na União de Vila Nova, bairro no distrito da Vila Jacuí, no extremo Leste de São Paulo, distante 30 km do centro da capital.A região, conhecida como Pantanal por causa dos constantes alagamentos, tem um Cras, Centro de Referência de Assistência Social da prefeitura, local a que a população recorre para ter informações sobre como receber ajuda.

Em depoimento a Thais Bilenky

*

Os dias passaram, a tendência da Covid-19 é aumentar. A gente ainda não chegou ao pico desesperador, e entendi que esse era um dos motivos pelos quais as pessoas estavam levando numa boa, achando que estava tudo bem. A gente está falando de algo que acontece em cima e na periferia isso espirra, chega, né? Se acontecer aqui, não chega lá em cima, mas se acontecer lá em cima, ôôô…. certeza que chega aqui. 



Os proprietários de imóveis continuam querendo receber o aluguel. As pessoas não têm dinheiro para pagar, porque foram dispensadas dos seus trabalhos. Numa comunidade como a Vila, os comerciantes são os donos dos próprios negócios. Vão comprar mercadoria, negociar preço, vender para cliente… não são as grandes redes. Tem os que trabalham na garagem de casa, mas os que pagam aluguel precisam vender e, mesmo na quarentena, com menos frequência, as pessoas ainda estão saindo e dando prioridade para comprar perto de casa, e não em uma super-rede fora da Vila, onde vão ficar mais expostas.

De outro lado vem o quê? A inflação no preço das coisas aqui. O botijão de gás, gente, pelo amor de Jah… Tenho o mesmo botijão desde que me mudei, em junho, então está acabando. Antes disso tudo, já estava pensando que ia comprar um botijão ou deixar um dinheiro separado. Entrei na minha rede, o assunto do momento era o gás a R$ 150. Gente, R$ 150 o botijão? Na promoção estava 120 reais. O valor “real” é R$ 65. Mano, no desespero, o povo precisa comer, então começa aquele ciclo: desenterra o dinheiro do gás, ou paga o aluguel, ou compra comida? 

Essa é a hora em que, ainda que a pessoa tenha vergonha, não dá mais. A gente está falando de uma causa muito maior. A gente não está falando de uma pessoa que precisa de ajuda na Vila, a gente está falando de milhares de famílias que só esperam alguém de algum movimento social se manifestar. Dependem disso sempre que acontece algo terrível, porque nem na enchente os donos deixaram passar o aluguel…

Para você ver que mais uma vez a gente se torna refém de benefícios, de uma ajuda com cesta básica, uma ajuda com produto de limpeza. Toda vez que acontece, a gente espera de alguém maior, de grandes instituições, do governo diretamente. Numa hora dessas, eu entendo que era para ele estar chegando… Mas tudo bem.

Aí sai essa lei aí, da ajuda dos R$ 600. Se esse benefício sair, acredito que vai contemplar muita gente que já tem cadastro no Cras por conta do Bolsa Família, que não necessariamente recebe, mas tem o cadastro lá, às vezes foi bloqueado, mas sabe todos os procedimentos. Então, na hora que falar que está liberado, quem é a favor, quem não é a favor, morreu. As pessoas precisam receber. Muitas estão só esperando por isso, e a maioria está com muita dúvida se terá direito.  

Eles [governo] vêm e me lançam essa que vai ser liberado, e aí não tem mais informação. As pessoas começam a pensar nisso para ontem, as pessoas que estão aqui passando pelo que estão passando, elas não podem esperar. Por quê? Porque a gente vive num país capitalista e tudo é pago. Isso é muito fácil de entender. Aliás, não é fácil. Se fosse, a gente não estaria falando sobre isso para pessoas que nem sequer imaginam que isso aconteça. 

Mas cadê esse dinheiro, quando vai ser liberado, quem tem direito e quem não tem? Minha mãe perguntou porque uma tia queria saber. Uma tia me perguntou porque a vizinha queria saber. Essa tia tem o Bolsa Família e soube que ela pode escolher entre um valor e outro e ficar com o maior. Antes as pessoas achavam que eram só os MEI (microempreendedor individual) que receberiam, agora sabem que também autônomos sem registro em carteira podem. É muita informação picada. 

Na padaria, no mercadinho, poderia ter um lambe [cartaz] lá, uma comunicação, informação de precaução, dos benefícios. Para que as pessoas que precisam não deixem passar.

Perguntei à Joana, a agente de saúde daqui do prédio, maravilhosa, quem são as pessoas das áreas de risco, porque elas têm vergonha, é muito íntimo. Aí ela foi ver com outras agentes para começarmos a levantar os nomes dos que estão no perrengue. A Amanda, produtora aqui da Vila, está articulada com esses movimentos de cesta básica e está trabalhando no Galpão ZL, ajudando na distribuição pela Fundação Tide Setubal para as famílias das crianças que estão na creche, que fechou. A agente de saúde falou de uma mãe com bebês gêmeos e um menininho maior. Consegui uma cesta básica com a Amanda e deixei na casa dela. 

Tem muito mais pessoas. Se vier cesta básica, massa. Se vier recurso financeiro, as pessoas já sabem como agir, o que fazer, quem tem direito, mas ninguém sabe quando vai sair. Essa é a principal dúvida. A gente não está falando de necessidades agora? 

Pessoas pobres não têm tempo para investimento. Aí fica o comerciante sem poder melhorar as condições de preço, e a senhorinha que precisa comprar, mas não está chegando dinheiro para que ela consiga pagar. Minha amiga Andressa, para o comércio dela, conseguiu comprar gás na distribuidora por R$ 85. As pessoas já entenderam que a R$ 150 não vai rolar. A R$ 120 também não vai rolar. Vendeu tudo, não tem mais nenhum botijão. 

Ou se dá poder de compra para quem realmente precisa, tanto comerciantes como consumidores, ou a fome na periferia vai ser muito mais escancarada do que esperam. Não imaginam o que é. Não entenderam ainda. 

Minhas primas deram um salve para a gente começar a guardar as reciclagens que a gente tem em casa para separar para uma senhorinha que sempre pega aqui no prédio. Ela é idosa, precisa do dinheiro e só vive disso. Para a gente separar e entregar para ela, que mora numa travessa aqui na frente. É desse tipo de pessoa que a gente está falando. Você acha que essa pessoa não está só esperando alguém dizer pra ir lá sacar esse dinheiro?

Luana Almeida

Tem 24 anos, é produtora cultural e ligada a projetos musicais independentes da periferia de São Paulo.

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