questões cinematográficas

O Jardim das Aflições – morada e pensamento do filósofo

Envolvido à revelia nesse lamentável quid pro quo, dificilmente O Jardim das Aflições poderá ser avaliado em si mesmo com alguma objetividade. Carregará para sempre a marca da arbitrariedade de que foi vítima

Eduardo Escorel
21jun2017_12h37
FOTO: MATHEUS BAZZO

Trata-se de um documentário escrito e dirigido por Josias Teófilo, no qual um pacato intelectual disserta sobre filosofia. Ainda assim, O Jardim das Aflições, junto com Real – O Plano por trás da História, de Rodrigo Bittencourt, foi boicotado por sete diretores de outros filmes, também selecionados para o Festival Cine PE, previsto para ocorrer no final de maio, mas que acabou sendo adiado.

Envolvido à revelia nesse lamentável quid pro quo, dificilmente O Jardim das Aflições poderá ser avaliado em si mesmo com alguma objetividade. Carregará para sempre a marca da arbitrariedade de que foi vítima.

Ao adiar o Cine PE, os organizadores prejudicaram os filmes boicotados e se renderam aos autores do boicote, afinal vitoriosos por terem conseguido o que queriam – impedir a exibição de O Jardim das Aflições e de Real – O Plano por trás da História.

A justificativa do grupo que retirou seus filmes foi a programação do Festival que, segundo alegaram, favoreceria “um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016”, conforme carta aberta divulgada em 10 de maio.

A alegação dos que assinam a carta denota intolerância, só admitindo participar do Festival se os demais participantes estivessem alinhados com suas próprias convicções. Ao retirarem seus filmes cometeram, além do mais, um paradoxal e estapafúrdio gesto de autocensura.

Segundo consta, os boicotadores não haviam assistido aos filmes boicotados, tendo baseado sua iniciativa apenas nas sinopses – “a vida, a rotina, o pensamento e a obra de Olavo de Carvalho”, no caso de O Jardim das Aflições; “a história da criação do Plano Real, em 1993”, no de Real – O Plano por trás da História. Na verdade, porém, pouco importa se assistiram ou não – a atitude que tomaram, em qualquer dos casos, foi simplesmente vergonhosa.

Tomando por base apenas o que se vê e ouve em O Jardim das Aflições, título de um livro de Olavo de Carvalho, não há como saber que ele é também um polemista irascível – essa face permanece oculta. A que aparece no documentário de Josias Teófilo é a de um homem sereno que expõe seu conhecimento de filosofia, pratica tiro ao alvo com uma carabina dotada de mira telescópica, fuma cigarros em profusão, usa chapéu de cowboy preto, tem um cachorro e mora com a mulher na Virgínia (EUA), em uma casa ampla com uma grande biblioteca e a bandeira americana hasteada na entrada.

“Eu moro num jardim”, diz Carvalho no filme, “exposto à natureza, exposto ao universo, exposto ao ilimitado, sem muro, sem fronteira, sem coisa nenhuma, de modo a você sempre lembrar a presença do universo. O sujeito que vive na cidade, ele tá fora do universo, ele tá fechado, dentro de um universo puramente humano administrado. […]”

Não há nada no filme O Jardim das Aflições nem de longe comparável ao que Carvalho é capaz de escrever e pode ser lido no seu site oficial. No artigo “Devastação cultural encarnada” ele qualifica “[…] o que se publica hoje sob o nome de ‘comentário político’” como sendo “a devastação cultural brasileira encarnada com plena fidelidade aos traços simiescos que a definem.” Em outro artigo, militantes comunistas são acusados de sentir que “esmigalhar as cabeças dos adversários é uma obrigação moral sublime, uma graça santificante. Se o adversário vê nisso algum mal, é a prova definitiva de que ele é um fascista sanguinário e, portanto, mais um motivo justo para lhe esmigalhar a cabeça. A naturalidade quase ingênua com que essa gente se sente ofendidíssima com meras opiniões e reage mediante apelos ao assassinato político seria inexplicável sem a ‘síndrome de Al Capone’.” Também disponível no site, a entrevista de Carvalho a O Antagonista, revela a faceta descontraída e polêmica do filósofo.

Não é preciso concordar com Carvalho para fazer, nem para apreciar um filme a seu respeito. Com certeza faltam ao cinema brasileiro documentários sobre personagens dos quais o diretor discorde e com os quais não tenha afinidade. Seria um sinal de progresso civilizatório se houvesse entre nós mais obras dedicadas à tentativa de compreender os opositores. Pensando bem, está em tempo. Outros filmes podem ser feitos sobre Olavo Carvalho. Quem se habilita?

No caso de O Jardim das Aflições, porém, o diretor não só mora na mesma cidade que Carvalho, nos Estados Unidos, como vai “todo sábado às aulas do Seminário de Filosofia que ele dá em casa. E eventualmente”, disse Teófilo em entrevista recente, “saio com a família dele. Por vezes eu apareço na casa dele para falar dos projetos e ficamos conversando até de madrugada, rindo, contando piada.” (a entrevista completa de Josias Teófilo está disponível aqui).

A intimidade entre diretor e personagem talvez explique a versão suave e reverente de Carvalho apresentada em O Jardim das Aflições. O resultado é uma longa e tépida dissertação oral, subdividida por temas e entremeada por diversos planos muito bem fotografados, alguns especialmente bonitos gravados com drones. Há imagens de arquivo de bombardeios, antigas entrevistas à televisão e trechos de clássicos do cinema. Vemos desde a região onde Carvalho mora até a esplanada dos ministérios em Brasília, infindáveis estantes de livros, sua familia reunida em um almoço e assistindo à missa etc. Mas resulta penoso seguir o depoimento de Carvalho, durante o qual ele está quase sempre sentado na sua escrivaninha.

Um dos méritos de Teófilo, dado o pioneirismo do tema no cinema brasileiro, é ter incluído um comentário de Carvalho sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Em resumo, Carvalho diz que o impeachment foi um “prêmio de consolação” da “elite governante”. O povo, segundo Carvalho, estava contra o PT, a grande mídia e a roubalheira, que para ele “são três nomes da mesma coisa”. Sem conseguir acabar com nenhum deles, “então você tira uma pessoa e deixa os outros no lugar. É um prêmio de consolação que a própria elite governante ofereceu pras pessoas. Olha, nós te oferecemos a cabeça da Dilma e você nos deixa aqui no lugar”. Diante do quadro atual, não deixa de ser uma avaliação interessante.

No filme, segue-se um longo silêncio. O drone recua. A camera afasta-se da Praça dos Três Poderes, em Brasília, percorrendo a Esplanada dos Ministérios deserta e cortada ao meio pelo tapume instalado para separar os manifestantes a favor dos contra o impeachment.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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