Dalton Trevisan e Fabiana Faversani no centro de Curitiba, em março de 2010: ele adorava fofocas, sobretudo se envolvesse algum figurão do meio literário, além de ser dado a implicâncias CRÉDITO: MARINGAS MACIEL_2010
Os últimos dias de Dalton Trevisan
“Estou desaparecendo?”, perguntou o contista, antes de sua morte, há um ano
Em 7 de dezembro de 2024, Dalton Trevisan recebeu a visita de seu médico, a quem comunicou, em tom sóbrio, uma decisão sobre a própria morte. “Ele disse: ‘Não quero mais, tô cansado… Quero ter uma morte tranquila, quero ter uma morte em casa’”, disse o contista de 99 anos, de acordo com sua agente literária, Fabiana Faversani.
No dia seguinte – domingo, 8 de dezembro –, com a saúde debilitada, Trevisan passou a maior parte do dia dormindo, ainda mais abatido. Os enfermeiros disseram a Faversani que a respiração do paciente estava muito fraca, o que já caracteriza um quadro agônico. Foi respeitado, porém, o desejo dele de permanecer em casa. Em determinado momento, Trevisan recobrou o fôlego e perguntou: “Estou desaparecendo?” Foram suas últimas palavras, contou Faversani a Felippe Anibal na edição deste mês da piauí.
O escritor morreu por volta de 18h30 de segunda-feira, 9 de dezembro de 2024, no apartamento em que morava havia três anos e meio, no Centro de Curitiba.
Cerca de um ano e meio antes de sua morte, ele deixara registrada em cartório uma declaração com suas últimas vontades. Orientou que sua cachorra, Rikinha, deveria ficar sob guarda da sobrinha Angela Trevisan Zacharias. Também apresentou diretrizes práticas, pedindo que não houvesse qualquer cerimônia fúnebre. Escreveu: “Não quero velório, nem caixão aberto.” Acrescentou que não queria “padre nem missa de sétimo dia”, que desejava ser cremado e que suas cinzas fossem espalhadas entre as raízes dos cedros da casa onde viveu por 68 anos, no bairro Alto da XV.
Sempre cioso de sua privacidade, Trevisan quis se manter longe dos holofotes mesmo após a morte. Recomendou que houvesse “a menor publicidade possível sobre o falecimento, de preferência sem nenhuma notícia”. Foi difícil, no entanto, cumprir esses desígnios.
Logo após a morte, seguindo a praxe, o serviço funerário da Prefeitura de Curitiba publicou o registro na seção online de óbitos do dia. A partir de então, os celulares de Faversani e de Zacharias não pararam de tocar. Eram jornalistas ou amigos do escritor querendo confirmar a informação do falecimento. A pedido delas, a prefeitura tirou o registro do ar. Mas era tarde: o print já circulava em grupos de WhatsApp e postagens se alastravam em redes sociais.
O alvoroço foi tamanho que carros da imprensa fizeram plantão em frente ao prédio. Para despistá-los, Faversani e Zacharias recorreram a um subterfúgio. Contrataram os serviços funerários do Crematório Vaticano, em Almirante Tamandaré, município da Região Metropolitana, ao Norte de Curitiba. Logo, a notícia se espalhou – e a imprensa correu para lá. Livre de jornalistas e curiosos, o corpo de Trevisan foi levado então ao Crematório Complexo Cerimonial de Pinhais, a Leste da capital, onde não houve ritual de despedida algum.
O encontro de Trevisan com Faversani ocorreu quando ela trabalhava na Livraria do Chain, frequentada pelo escritor. A agente estima que tenha ocorrido entre 2003 e 2004 (quando o contista tinha entre 78 e 79 anos, e ela entre 15 e 16 anos). Trevisan acabou convidando-a, mais tarde, para atuar como uma espécie de secretária. Em 2022, aos 96 anos, ele se mudou do casarão onde vivia para um apartamento no mesmo edifício que Faversani: o escritor, no 12º andar; ela, no 15º.
Em janeiro de 2025, Katiuscia e Natascha Trevisan Cornelsen – netas e herdeiras diretas de Dalton – procederam com os levantamentos para o inventário do espólio do avô, que deixou um patrimônio de 27,4 milhões de reais. Elas se surpreenderam com dois planos de previdência privada milionários que tinham Faversani como única beneficiária. Katiuscia ajuizou duas ações: uma contra o Bradesco, outra contra a XP Investimentos, com o objetivo de anular os aportes financeiros e a indicação da agente como beneficiária.
Faversani afirma que o contista “se preparou para morrer”, deixando todos os detalhes organizados. Como a havia nomeado gestora de seu espólio literário, ele teria criado os fundos para que ela tivesse condições de cuidar de sua obra.
Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.
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