questões curitibanas

Perdeu o bonde

A barulhenta delação de Antonio Palocci – que prometia atingir os bancos e tirar Lula do páreo eleitoral – emperrou

Rafael Moro Martins
07dez2017_14h19
FOTO ORIGINAL: GIULIANO GOMES_FOLHAPRESS

Há pessimismo nas trincheiras de Antonio Palocci e sua delação. Os advogados do escritório de Adriano Bretas, que negociam a possível colaboração premiada do ex-ministro petista – homem-chave dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff –, não deixam transparecer nenhuma animação quando tratam do assunto. “Imagina uma carruagem pesada, na subida, o terreno molhado, os cavalos cansados… E nós lá atrás, empurrando”, comparou um deles, na última terça-feira de novembro, quando conversamos em Curitiba.

Dias antes, um integrante da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal me contara, numa conversa informal, que o problema crucial da proposta de delação de Palocci era “a dificuldade dele em se incriminar”, além do natural embaraço que o fato de estar preso há mais de um ano impõe à produção de provas que corroborem o que o outrora grão-petista diz ter a entregar aos investigadores.

O advogado que atende o ex-ministro rebateu. “Essas são dificuldades superadas”, disse. “Fazer delação é como ir ao analista. De início, você não consegue falar nada, mas, com o tempo, começa a admitir o que fez. Palocci já trilhou esse caminho. E é um homem que ouve e respeita seus advogados”, afiançou o causídico, que acredita que parte considerável do obstáculo a ser vencido pelo cliente está a centenas de quilômetros de Curitiba: a sede da Procuradoria-Geral da República, em Brasília.

“Tudo mudou por lá. Tínhamos até o WhatsApp dos caras. Isso acabou”, relembra, falando dos tempos de Rodrigo Janot, que deixou o comando da PGR em setembro. “Agora, tem que mandar um e-mail para a secretária para marcar uma reunião com a nova turma”, exasperou-se, explicando os novos procedimentos instaurados pela mandatária Raquel Dodge. A nova procuradora-geral é certamente mais cautelosa que o antecessor no que toca às delações. Há algumas semanas, a revista Época relatava que, a interlocutores, Dodge já afirmou acreditar que Janot exagerou ao eleger as delações como as principais peças das investigações.

“Nos tempos do Janot, a PGR era um restaurante repleto de advogados propondo colaborações premiadas, com ‘garçons’ da PGR circulando de mesa em mesa, ouvindo os pedidos, cozinha a todo vapor. Agora, quase todos os assentos estão vazios, mas é difícil chamar a atenção de um atendente”, comparou um defensor que já negociou delações premiadas para pesos pesados da Lava Jato.

Como parte de quem está na mira da delação de Palocci são políticos ou agentes públicos com foro privilegiado, não há como a colaboração driblar a PGR. Em Curitiba, ainda que as conversas entre os defensores do ex-ministro e os procuradores da Lava Jato nunca tenham de fato cessado, o óbice parece ser outro. “Aqui a investigação está já na maturidade. A tendência é ir diminuindo, até porque o que não se refere à Petrobras foi retirado daqui”, disse-me, há algum tempo, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos cabeças da operação. Com isso, naturalmente, a baliza colocada pelos investigadores quanto ao que se exige de um candidato a colaborador está elevada. É a regra de mercado, como já definiu Santos Lima. “Se você precisa muito de alguma coisa, vai ceder mais. É uma questão de lógica de negociação.”

 

Não é apenas a dificuldade em fechar a delação do cliente mais famoso que atormenta Adriano Bretas nos últimos dias. Uma carta assinada pelo presidente do vetusto e centenário Instituto dos Advogados do Paraná, o IAP, publicada na segunda-feira, 27 de novembro, o tinha como alvo. “Um dos melhores charutos, exibido na matéria, sem dúvida, expeliu a ‘fumaça do mau direito’ e já sinaliza para a enérgica atuação da OAB”, cravou a missiva. Referia-se à principal reportagem da edição daquela semana da revista Veja, que trazia na capa um sorridente Bretas, charuto cubano preso entre os dentes, encimando o título “Os novos-ricos da Lava Jato”.

“Ao terminar a leitura da matéria, alcancei o filme O Advogado do Diabo, que gira em torno do advogado John Milton, em notável interpretação de Al Pacino que, a certa altura, pronuncia: ‘vaidade, definitivamente o meu pecado favorito’, fulminou o signatário da nota, o advogado Hélio Gomes Coelho Júnior. “Doutor Bretas era conselheiro do IAP, e também exercia uma diretoria departamental. Com o evento [a publicação da matéria], ele entregou os cargos”, disse-me Coelho, que me recebeu na última quarta-feira de novembro em seu escritório localizado num imponente edifício comercial na região nobre de Curitiba.

Em 100 anos, o IAP jamais expulsou um de seus 950 associados. Tampouco o fará com Bretas – simplesmente porque não há previsão para tanto, em seus estatutos. De seus pares no Instituto, Bretas ouviu sugestões como contratar um assessor para mediar seus contatos com jornalistas, algo que se dispôs a fazer. A OAB do Paraná, por ora, silencia sobre o caso.

Naquela mesma semana Bretas tinha um compromisso público que encerraria o melhor ano de sua carreira: o lançamento do seu livro técnico de direito, Apontamentos de Processo Penal, numa livraria que funciona dentro de um shopping center de luxo em Curitiba. Garçons com bandejas com vinho e uísque circularam pelo evento, a que compareceram principalmente jovens advogados e alunos – Bretas é professor numa universidade privada da cidade. O decano René Dotti, um dos criminalistas mais respeitados do país, também compareceu. Foi um sucesso: venderam-se perto de 400 exemplares do livro, e Bretas ainda dava autógrafos quando a livraria anunciava que iria fechar dali a instantes, por volta das dez da noite.

No corredor de entrada da loja, era possível encontrar títulos tão diversos como a trimestral American Affairs, que surgiu com a missão de dar algum lastro intelectual aos arroubos de Donald Trump; a brasileira Rev. Nacional, do fotógrafo J.R. Duran; além de publicações sobre embarcações, trens, aviões, música, artesanato e jornalísticas de todo tipo. As semanais brasileiras também estavam todas lá. Menos a Veja.

Perguntei a uma atendente onde poderia conseguir um exemplar. “Esgotaram”, respondeu-me, seca. “O pessoal do Bretas comprou todas e escondeu”, confidenciou-me um convidado. Um esforço provavelmente inútil. Até Palocci, na carceragem da Polícia Federal, leu a matéria. E não pareceu incomodado.

O ex-ministro segue focado em sua colaboração com a força-tarefa. Para seduzir os procuradores, ele acena com a possibilidade de provar pagamentos de propinas feitos a Lula e seu instituto, que teriam como operador Branislav Kontic, que foi assessor próximo do ex-ministro, também réu na Lava Jato. Em setembro passado, o ex-ministro disse o seguinte, ao juiz Sérgio Moro, em depoimento sobre a acusação de que o terreno para o Instituto Lula teria sido comprado com propina da Odebrecht: “Tem duas pessoas acusadas nesse processo que não têm nenhuma responsabilidade sobre o que ocorreu. Uma delas é o Branislav. Tudo que tem o nome do Branislav o senhor pode por meu nome em cima porque era coisa minha.” A ex-primeira-dama Marisa Letícia, morta em fevereiro passado, era a outra pessoa a quem Palocci referiu-se como inocente.

O problema, avaliou uma fonte próxima ao ex-ministro, é que, passados quase três meses do bombástico depoimento em que Palocci afirmou a Sérgio Moro que, entre outras coisas, Lula e Emílio Odebrecht tinham um pacto de sangue, o timing da delação parece ter passado. “Se não engrenou naquele momento, fica difícil acreditar que irá sair agora”, ponderou. Lula já parece encrencado o suficiente para a Lava Jato precisar de Palocci. “E o descuido de Bretas, ao aparecer daquela forma na revista, certamente não lhe garante pontos na PGR”, avaliou.

Rafael Moro Martins

Jornalista freelancer baseado em Curitiba. Colaborador de The Intercept Brasil, Valor Econômico e UOL. Integrante do projeto Livre.jor

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