dossiê piauí

A segunda reportagem da série percorre uma rodovia amazônica para compreender o que estamos ganhando ao trocar a complexidade da floresta por paisagens sem mistério.

JOÃO MOREIRA SALLES

 

 

Em outubro de 2019, uma conferência internacional na Universidade de Princeton, em Nova Jersey, reuniu cientistas, políticos, líderes empresariais, promotores do Ministério Público brasileiro e membros do terceiro setor para discutir o futuro da Amazônia. Numa sala lotada da Escola de Políticas Públicas e Relações Internacionais, os cientistas Stephen Pacala e Elena Shevliakova ocuparam o palco. Ele, professor de ecologia e um dos grandes especialistas mundiais em mudanças climáticas; ela, modeladora sênior do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos, GFDL na sigla em inglês, um centro avançado de modelagem climática que Princeton divide com o órgão do governo norte-americano responsável pela previsão de intempéries.

Pacala e Shevliakova estavam ali para anunciar em primeira mão os resultados preliminares de um exercício de simulação rodado num dos poucos supercomputadores do planeta que processam a quantidade necessária de dados para responder à seguinte pergunta: O que aconteceria com o mundo se a Amazônia desaparecesse? Mais precisamente: Como se comportaria o clima em 2050 supondo-se dois cenários distintos, o primeiro com 50% da Amazônia convertida em área agriculturável, o outro ainda mais radical, com toda a floresta tendo cedido lugar à pecuária e à agricultura?

Simulações dos efeitos da redução do bioma começaram a ser feitas no Brasil na década de 1990, mas concentradas no clima do país. Já o modelo de Pacala e Shevliakova foi concebido para trabalhar em escala global. Naquela tarde, os pesquisadores mostrariam o que os distúrbios na Amazônia poderiam provocar em cada recanto do planeta – terra firme ou oceanos, planícies ou montanhas, florestas ou desertos – ao longo das três décadas seguintes, hora a hora, desde o próprio dia da conferência até o ano 2050.

Mapas começaram a ser projetados na tela, todos eles portadores de más notícias para o Brasil e para o mundo. Se a Amazônia se for inteira, a temperatura média global subirá 0,25ºC para além do aumento de 1,5 a 2,5ºC já previstos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC na sigla em inglês), no caso otimista em que o planeta faz a sua parte e reduz de maneira drástica a emissão global de carbono. Apenas trinta anos nos separam de 2050. Se o modelo fosse rodado até 2100, veríamos provavelmente um aumento de meio grau acima dos valores estabelecidos pelo IPCC, e este meio grau, nessas circunstâncias, pode ser a diferença entre um mundo com e sem corais – todos eles morreriam, levando embora mais de um terço da vida marinha, cerca de 10% de toda a pesca em países tropicais e o sustento de meio bilhão de pessoas (estima-se, por exemplo, que 25% do trabalho de pesca do mundo esteja relacionado com os recifes).

É preciso considerar também que se trata de uma temperatura média, ou seja, ponderada pelas variações em todos os quadrantes do planeta. Ocorre que as pessoas não moram em localidades médias, mas em lugares específicos, e o que importa para elas é a temperatura local. Na Amazônia, por exemplo, a eliminação completa da floresta praticamente inviabilizará a vida, já que os termômetros poderão subir até 4,5ºC, soma dos aumentos projetados pelo IPCC e pelo modelo Pacala e Shevliakova. Quase toda a América do Sul será afetada. Só parte da Patagônia e dos Andes se safam.

Na hipótese de que o mundo siga na toada atual e não consiga reduzir a emissão de carbono, o cenário com 50% da Amazônia produz um quadro climático no Brasil ainda mais desastroso do que o descrito no parágrafo anterior. Partes da região Norte experimentarão um aumento de temperatura semelhante, de 2 a 2,5ºC, que se somarão aos 4 a 5ºC previstos pelo painel da ONU na hipótese de o planeta seguir emitindo nos padrões atuais. O centro-oeste acrescentará 1ºC às estimativas do IPCC – ou seja, Cuiabá, Campo Grande ou Sinop poderão ficar até 6ºC mais quentes.

Igualmente desastrosa é a situação das chuvas. Mesmo no cenário luminoso de um mundo que tenha conseguido obedecer às metas da ONU, se a Amazônia se vai, o estado de Goiás, o Norte de Mato Grosso, o Norte da Bahia e boa parte do Sudeste brasileiro perdem de 0,6 a 1,8 mm de chuva por dia. No coração da floresta, a queda pode chegar a 2 mm, o que corresponde a quase 30% da precipitação anual. Na média brasileira, choverá menos 25% no país. O agronegócio ficará de joelhos.

Rios escassearão e os fluxos hídricos se tornarão débeis, o que acarretará o colapso sazonal da geração de energia hidrelétrica, da qual depende boa parte da nossa matriz energética.

Em escala global, mesmo que o mundo faça um grande esforço para reduzir sua pegada de carbono, o desmate completo da Amazônia põe em risco a viabilidade do planeta. Ocorrerá um aumento acentuado de temperatura no Meio-Oeste norte-americano, um aumento significativo ainda que mais brando na Europa e na Austrália, e um aumento agudo, de quase 2ºC, no Ártico. Isso significará degelo acelerado da calota polar e, muito provavelmente, uma mudança radical no regime dos ventos. A conversão de toda a floresta para o agronegócio lançará na atmosfera o equivalente a quinze anos de emissão mundial de gases de efeito estufa, conforme o padrão atual de uso de combustíveis fósseis.

Shevliakova resumiu as lições do modelo: sem a Amazônia, o mundo terá muita dificuldade em se manter dentro das metas do IPCC. O sofrimento maior, contudo, será do Brasil e de seus vizinhos.

Eram resultados que notícias recém-chegadas da Amazônia tornavam ainda mais perturbadores. A região atravessava meses difíceis, marcados por grandes queimadas e uma aceleração do desmatamento. A imprensa internacional vinha dando destaque à catástrofe ambiental em curso, quase sempre salientando o papel da pecuária na dinâmica de ocupação da floresta. Imagens de satélite atestavam a rápida conversão da mata em pasto – as pastagens representam hoje 70% de toda a área desmatada do bioma Amazônia.

Participantes brasileiros, entretanto, alertaram os colegas estrangeiros sobre as sutilezas desse processo. O gado muitas vezes não passava de artimanha para fazer crer que essa ou aquela propriedade já tinha dono e que ali se produzia. Desde o início do novo século, disseram, e particularmente nos últimos anos, um dos principais vetores do desmatamento pouco tinha a ver com atividades produtivas. Sua natureza seria especulativa. Ocupava-se a floresta pública com o intuito de incorporá-la ao patrimônio pessoal – não necessariamente para produzir, mas para vendê-la mais à frente, quando as condições políticas se tornassem favoráveis à regularização do delito fundiário. Enquanto isso não acontecia, sempre era possível – e prudente – marcar posição salpicando uns bois na terra roubada ou mesmo arrendando a propriedade para quem quisesse criar lá o seu gado.

Um mês antes do encontro, um dos palestrantes do evento, o procurador do Ministério Público Federal Daniel Azeredo, explicara em Brasília a dinâmica singular do desmatamento no Brasil: “O bandido rouba o banco, a polícia vai lá, prende o bandido e confisca o produto do crime. Idem com os carros: quando o ladrão é preso, o veículo é devolvido ao dono. Roubo de terra é diferente: o cara recebe uma multa e fica com o produto do crime, que é a terra.” Não só toma para si o que antes era propriedade do conjunto dos brasileiros, mas aposta na possibilidade de um dia legalizar aquilo de que se apropriou criminosamente. As sucessivas anistias promulgadas pelo Estado para perdoar os delitos fundiários do passado são um forte incentivo para que o criminoso do presente acredite que também ele será beneficiado mais à frente. Mesmo que a titulação leve anos, ele logo terá se inserido no mercado, misturando sem muita dificuldade o legal com o ilegal, a madeira boa com a madeira ruim, o gado que pasta em fazendas legítimas com o gado que ocupa áreas griladas. Quando finalmente conseguir o título de propriedade, terá um bem valioso para negociar. “O arcabouço legal e as práticas administrativas o favorecem”, resume o procurador. De fato: “A propriedade privada é sagrada”, declarou o presidente Jair Bolsonaro em novembro deste ano, mandando o seu vice retirar de um documento de trabalho a proposta de expropriar imóveis rurais localizados em terras públicas ocupadas criminalmente. Tampouco permitiu o confisco de propriedades nas quais se praticam crimes ambientais.  Da janela do gabinete de Azeredo, cortinas de fumaça subiam do Cerrado, que, àquela altura, também queimava.

“Na Amazônia, crime é investimento”, anotou a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho em seu livro Vai, Brasil. Ouvira a frase de um advogado da Comissão Pastoral da Terra: “O cara não paga as multas ambientais e é anistiado. O cara manda matar e não é punido.”

Em Princeton, Azeredo deu exemplos: “Quem botou fogo na floresta para ocupar consegue documento oficial. Pede nota fiscal e o governo emite. Consegue guia de trânsito animal, um documento fitossanitário. Consegue cadastro ambiental rural. O Estado é carinhoso com os criminosos.” Segundo o procurador, são cometidos anualmente 23 mil crimes de desmatamento na Amazônia; somando-se a tráfico ilegal de animais, biopirataria e extração ilegal de madeira, chega-se a mais de 100 mil crimes ambientais. “Não existe força policial ou MP no mundo capaz de resolver isso”, diz. O problema exige ações “estruturais”, afirmara na conversa em Brasília: “A solução é rastrear o boi, a madeira, a soja. Já existe tecnologia para isso. Você precisa de 300 milhões de reais para rastrear todo o rebanho brasileiro na Amazônia com brincos e GPS. Avançou para dentro da floresta, o sistema apita. Mas o setor pecuário é contra e não existe vontade política.” Uruguai e Austrália, concorrentes diretos do Brasil, além de União Europeia, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Botsuana e Namíbia, adotam essa tecnologia e monitoram eletronicamente 100% dos seus rebanhos.

O professor de geociências Michael Oppenheimer, diretor do Centro de Pesquisa de Políticas sobre Energia e Meio Ambiente de Princeton, foi sintético ao ser chamado pelo mediador a comentar o que vinha escutando: “Finalmente compreendi a lógica da ocupação da Amazônia: não é o boi, é a terra.” Sempre fora a terra. Era ela que explicava Tucumã e Ourilândia, no Pará, exemplos de experiências que vinham se repetindo na Amazônia desde a década de 1960, quando se iniciou a grande onda migratória do sul para o norte do país. (O surgimento dessas cidades é tema do primeiro artigo da série Arrabalde.)

Uma última apresentação em Princeton ressaltaria esse ponto. Ao cabo de dois dias de conversas, o físico teórico Robert Socolow, professor emérito do Centro de Estudos Ambientais da universidade, ocupou o pódio e projetou uma pintura a óleo de 1872, Progresso Americano, de autoria de John Gast.

Na tela, uma jovem descalça caminha no ar, flutuando, coberta por uma diáfana túnica branca. Inclinada para a frente, avança resolutamente da direita para a esquerda do quadro, do Leste luminoso, onde já amanhece, para o Oeste escuro, onde ainda é noite. Ao redor dela, seguindo-a como quem segue a luz de um farol, vêm os homens brancos, aqueles que civilizarão as extensões de terras brutas até o Pacífico. Trazem consigo as ferramentas do domínio e do progresso: a pá, o arado, o correio, a diligência, a locomotiva a vapor. A jovem, a quem Gast chamou Progresso, segura entre os dedos um fio de telégrafo e, como uma tecelã, leva-o de poste em poste, cerzindo assim o progresso. O livro escolar que traz na mão esquerda assinala a chegada da educação. À frente dela, apavorados com o fulgor de sua luz, bestas selvagens e grupos de habitantes nativos fogem em direção à noite.

Progresso Americano é a mais conhecida representação visual do conceito de destino manifesto, pilar da doutrina expansionista que forneceu o combustível ideológico para o avanço dos colonos em direção ao Oeste. Alcançar o Pacífico, ocupando todas as terras “do mar ao radioso mar”, seria não só um direito divino, mas também uma obrigação moral dos novos habitantes da América. A colonização de terras virgens por imigrantes europeus que haviam deixado para trás o peso morto da história, das tradições claustrofóbicas, dos sistemas políticos envelhecidos, significava a possibilidade de “começar o mundo novamente”, na frase do revolucionário Thomas Paine.

Olhando a imagem de Progresso Americano, Robert Socolow disse: “O Oeste americano é o Norte brasileiro.”

Sim e não.

Cem anos separam as políticas de ocupação do Oeste norte-americano das ações brasileiras para povoar a Amazônia. Certo, o deslocamento demográfico ocorreu em escala muito diferente – lá, cerca de 50% da população acabaria por se fixar no Oeste; aqui, migraram para o Norte algo como 1 milhão de pessoas, nem 1% da população na década de 1980 –, mas, em ambos os casos, contingentes humanos deixaram para trás o pouco que tinham e, estimulados pelos governos, reiniciaram a vida em outro lugar. Nesse sentido, a despeito das singularidades de cada experiência histórica, a analogia de Socolow funciona.

Contudo, é menos que perfeita. Uma de suas falhas diz respeito não tanto a questões políticas, sociológicas ou econômicas, mas à matéria simbólica. Pode-se resumi-la assim: não temos um correlato nacional da tela Progresso Americano.

A expansão do território norte-americano produziu uma épica que se espalhou mundo afora. Nós a conhecemos muito bem. Diligências, ferrovias, fortes militares, cavalos, apaches, desertos, pradarias, bisontes, bandidos, John Wayne, carabinas, flechas, xerifes, saloons. É uma epopeia que principalmente o cinema ajudou a fixar na imaginação moderna, mas não só ele; a música, as artes visuais e a literatura, tanto a popular como a erudita, também contribuíram para essa construção. A paisagem do Oeste se tornou parte do patrimônio comum da nação. É uma geografia que confere pertencimento. A beleza e a escala da topografia se converteram em atributos espirituais que imantaram a identidade nacional. Ser um cidadão dos Estados Unidos da América é saber que aquela paisagem corre dentro de você – ela é sua.

O contraste com o Brasil não poderia ser maior. Onde estão nossas construções simbólicas da Amazônia? Que papel a floresta ocupa na economia mental da nação? As respostas não são boas. Temos muito mais lacunas do que ideias potentes sobre o nosso maior patrimônio natural. Não desenvolvemos uma épica amazônica para compartilhar entre nós.

Não se trata, é claro, de nenhuma carência de material. Seja das cosmogonias indígenas, seja da vasta biblioteca formada pelo testemunho de naturalistas, viajantes e escritores sobre a floresta, seja da rica tradição dos pesquisadores das ciências humanas que reinventaram seus campos de saber a partir de estudos na região, de todas essas fontes e de outras mais – da Guerra dos Cabanos, do ciclo da borracha, da construção da Madeira-Mamoré e, mais tarde, da Transamazônica, da colonização das décadas de 1960, 70 e 80 –, teria sido possível extrair os elementos para construir uma Amazônia simbólica que fizesse parte do nosso sentimento comum de povo. Se isso não aconteceu, não parece ter sido por acidente. É mais provável que o modo como escolhemos ocupar a floresta tenha determinado essa ausência de representação. Exercemos uma espécie de colonialismo indiferente, ocupamos sem querer conhecer. É mais fácil destruir o que não está investido de curiosidade ou afeição.

“Numa terra, primeiro vem o bandido, para amansar, depois vem o mocinho”, diz o jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto a Alexandra Lucas Coelho. “Só que na Amazônia o mocinho nunca chegou. Quinze por cento da Floresta Amazônica já foi destruída” – os números hoje se aproximam de 20%. “Nunca o homem derrubou tantas árvores. A Amazônia era a última esperança de uma civilização florestal, e isso está acabando.”

Deslocando o terreno de comparação do Oeste norte-americano para o Sul escravocrata, outro tipo de contraste vem à tona. Num ensaio sobre as raízes econômicas do racismo nos Estados Unidos, o sociólogo Matthew Desmond escreveu: “O que fez a economia do algodão prosperar mais no sul dos Estados Unidos do que em outras partes do mundo com clima e solo igualmente adequados à lavoura foi a disposição incansável da nossa nação para usar de violência em pessoas não brancas e para fazer valer sua vontade sobre estoques aparentemente infinitos de terra e mão de obra. Dada a possibilidade de escolher entre modernidade e barbárie, prosperidade e pobreza, legalidade e crueldade, democracia e totalitarismo, a América escolheu todas as alternativas acima.”

O caso brasileiro é outro. Na corrida rumo ao norte, optamos quase sempre pelo segundo termo dessas dualidades. Destruímos muito em troca de pouco e a um custo imenso. Em relação aos indicadores do restante do país, os índices sociais são decisivamente piores na Amazônia Legal, divisão administrativa que engloba nove estados – Amazonas, Pará, Tocantins, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Mato Grosso e parte do Maranhão –, correspondendo a 58,9% do território nacional.[1] “Dos municípios com os vinte maiores IDHs do Brasil, nenhum está na Amazônia. Já dentre os vinte com os piores IDHs, quinze estão na região”, disse Marcello Brito, presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Falava a executivos de empresas que investem na Amazônia, líderes do terceiro setor, ambientalistas e funcionários de governo, uma plateia heterodoxa que, reunida num hotel de Belém em novembro de 2019, discutia propostas de desenvolvimento da região.

Convidado a fazer a palestra de abertura do evento, Brito usou a ocasião para apresentar um quadro sombrio: “Das cem melhores cidades para se investir no Brasil, nenhuma está na Amazônia [um ranking de 2019 inclui cinco cidades da região Norte: Palmas (22ª posição), Araguaína (61ª), Manaus (70a posição), Porto Velho (86a) e Paragominas (99a)]. Das cem cidades com melhor desenvolvimento social, nenhuma está na Amazônia. Dos estados que mais investem em ciência e tecnologia, o Amazonas aparece em quinto lugar, e isso por causa da Zona Franca de Manaus, que é inteiramente desconectada da economia florestal – os outros estados da região Norte estão no fim da lista. Oitenta e dois por cento dos que vivem na Amazônia não têm acesso a saneamento básico.”

Seguiu assim por mais algum tempo, empilhando estatística em cima de estatística, desenhando o retrato de um fracasso nacional: “O terceiro setor falhou ao não apresentar um projeto de desenvolvimento viável, o setor empresarial foi nocivo e o poder público não conseguiu deter a destruição”, disse. Lamentou que a região estivesse sendo roubada debaixo dos nossos olhos: “Temos duas Alemanhas de terras devolutas na Amazônia, terras públicas, que pertencem a todos nós, e é nelas que acontece a grilagem, o roubo. Impressionante como a população não se mobiliza. Estão roubando o que é nosso.”

Brito encerrou com dados que tornam no mínimo problemática a imagem que o agronegócio construiu de si – o de setor mais dinâmico e moderno da economia, um pacote bem embalado que grande parte dos brasileiros comprou pelo valor de face. “O Peru e o Chile exportam mais frutas do que o Brasil. A Guatemala exporta mais banana. Na Finlândia, a bioeconomia se organiza em setores bem consolidados, como madeira, papel e celulose. Eles têm florestas boreais com apenas quatro ou cinco espécies que demoram de 70 a 110 anos para chegar ao ponto de corte. Quando estive lá, ganhei de presente uma meia de fibra de celulose. Isso é tecnologia. No Brasil, o tempo de corte é de oito anos. Apesar dessa vantagem comparativa descomunal, plantamos pouquíssimas florestas. É ridículo. Temos que ser mais competentes!”

 

A Doutrina de Segurança Nacional (DSN), que até hoje informa o pensamento militar, embasou políticas públicas que, tal como na experiência norte-americana, carrearam milhões de pessoas de áreas já consolidadas do país para territórios de fronteira tidos como vazios e incultos. Foi o caso do Plano de Integração Nacional, lançado pelo regime militar em 1970 com o slogan Uma terra sem homens para homens sem terra, dístico eloquente na sua desconsideração das dezenas de milhares de habitantes autóctones da floresta. Como mostra um estudo de 2007 dos pesquisadores Danielle Celentano e Adalberto Veríssimo, “a Amazônia evoluiu de um relativo vazio demográfico em 1960 (apenas 5,4 milhões de habitantes) para 11,2 milhões em 1980, até atingir 22,5 milhões em 2004”. (Segundo estimativas do IBGE, hoje eles são 27,7 milhões.)

Gestada durante a Guerra Fria, a DSN ocupa-se da integridade e proteção do espaço nacional, percebido como objeto de incessante cobiça por parte de estrangeiros. Reza a doutrina que os ermos do país são o nosso flanco vulnerável, o calcanhar de aquiles da nossa soberania. Quanto mais vazias de gente forem as nossas terras, mais frágil será a nossa segurança. Não é possível dissociar a DSN de certo pendor paranoico que, à falta de evidências robustas, fabrica inimigos imaginários que mudam com o tempo, apenas para que suas más intenções possam permanecer iguais. O pensamento conspiratório é pródigo em atualizá-los a cada reacomodação da ordem mundial. Dos comunistas da Guerra Fria aos globalistas de hoje; do fantasma das nações ricas do Norte, sedentas por recursos naturais, à atual ameaça chinesa, passando sempre pelas ONGs a soldo de corporações multinacionais, parece não haver limite para o número de abutres que, movidos por interesses neocoloniais, almejam roubar a Amazônia dos brasileiros.

Seria ingenuidade imaginar que uma região de tamanha riqueza estaria imune à disputa econômica. A ironia evidente, contudo, é que o imenso patrimônio natural da Amazônia vem sendo, sim, subtraído aos brasileiros, mas não por agentes do capital internacional. Há uma correspondência quase perfeita entre a destruição da floresta e os fluxos populacionais que se direcionaram para a área. Até 1975, apenas 0,5% do bioma Amazônia havia sido desmatado. Dez anos depois, já eram 5%, índice que salta para 17% em 2007 e chega à estimativa atual de um quinto da floresta. A Amazônia está sumindo no tempo de vida de uma geração, por obra de brasileiros. É uma história de poucas décadas.

“A Doutrina de Segurança Nacional, que é a matriz da nossa geopolítica para a região, é a madrasta intelectual da Amazônia”, diz o jornalista Lúcio Flávio Pinto, que dedicou a vida a cobrir a região. O mal, segundo ele, é que a doutrina barra o diálogo com o exterior: “A Amazônia só terá saída em conversa com o mundo. O medo dos estrangeiros é uma falácia.”

Durante toda a sua carreira, Pinto, de 71 anos, desagradou aos poderes que tentaram impor seus interesses à Amazônia, fossem mineradoras, empreiteiras, empresas de energia, produtores rurais ou oligarquias políticas. É um homem de aspecto mais frágil do que se suporia, dada a bravura com que sempre exerceu a profissão, ainda mais numa região perigosa como essa. Com seus óculos redondos de intelectual, sua voz baixa e suas belas concordâncias da segunda pessoa do singular, tão típicas do falar paraense – “Se tu prestares atenção…” –, ele lembra um professor emérito a quem se recorre para elucidar pontos que seus sucessores mais jovens ainda não dominam inteiramente. A Amazônia é a sua matéria. Do breve encontro num restaurante de comida regional em Belém, sobressaiu nele a dor diante de um Pará continuamente espoliado não por estrangeiros, mas por conterrâneos, numa reprodução, com sinal invertido, do modelo de dominação colonial a que a história nos acostumou – aqui, fugindo à regra, é o Sul que subjuga o Norte e não o contrário.

“O Pará é o estado que mais sofreu intervenção do governo federal durante a ditadura”, diz o ex-governador Simão Jatene, de 71 anos, sentado no chão da sala de seu apartamento em Belém. O ambiente amplo é tomado por livros, artefatos da cultura regional e, num canto, instrumentos musicais à volta de um microfone – Jatene, cujo rosto tem uma vivacidade de criança, gosta de cantar.

Uma das consequências da mão forte da União sobre o estado foi a progressiva anemia das forças locais. “Não gosto dessa palavrinha, mas paciência, vamos com ela mesmo: elites”, ele diz, cada vez mais agitado. “Pois bem, essa presença federal esmagou todas elas.” Jatene havia começado a conversa numa poltrona, mas, à medida que foi se animando e seus olhos passaram a brilhar como os de um bom narrador enfeitiçado pela própria história, saltou para o chão e ali ficou pelas duas horas seguintes. A submissão dos poderes locais, explicou, podia ser aferida pelos exemplos tão diferentes da sudene e da Sudam, agências federais de desenvolvimento regional criadas para promover, respectivamente, o Nordeste e a região amazônica: “Toda vez que queriam mexer na sudene, a elite nordestina pulava. Jamais tiveste isso com a Sudam. E por que não? Os movimentos eram opostos. É como eu sempre disse: a sudene era a presença do Nordeste no Planalto e a Sudam era a pata do governo federal na Amazônia. Durante décadas o superintendente da Sudam foi muito mais importante do que qualquer governador da região, quer dizer: quem dava as cartas era um cara ligado ao governo federal.”

Não somente as forças políticas sofreram com esse arranjo. O fato de as decisões mais relevantes sobre o desenvolvimento da região serem tomadas em centros de poder longe dali esmagava também a elite empresarial. “Te dou um exemplo concreto dessa desconexão: durante anos, a sede da Associação dos Empresários da Amazônia ficava em São Paulo!”

O jugo federal chegou ao paroxismo com o decreto-lei nº 1164, de 1971, explica Jatene. “De uma só tacada, a União federalizava 100 km à direita e à esquerda de toda rodovia federal já existente ou só planejada. Veja que coisa maluca: valia também para estradas pla-ne-ja-das” – ele levanta os braços como quem perdeu e se rende. A medida se aplicava a toda a Amazônia Legal. “Bastava alguém riscar um traço no mapa e dizer: ‘Aqui vai passar uma rodovia.’ Pronto, duas faixas de 100 km correndo ao lado desse risco imaginário saíam da jurisdição estadual!” Deixavam de pertencer aos paraenses.

O resultado foi a federalização de mais de 70% do patrimônio do Pará. “Ninguém mais sabia o que era de quem. Por onde é que passavam aqueles 200 km em volta de uma estrada que podia nem vir a existir?” Estava contratado o caos fundiário que até hoje amaldiçoa o estado. Exasperado, Jatene lembra que, além do Incra, outros quatro órgãos outorgavam títulos de propriedade: Getat (Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins, criado como resposta à guerrilha do Araguaia), Gebam (Grupo Executivo para a Região do Baixo Amazonas), Iterpa (Instituto de Terras do Pará) e SPU (Secretaria do Patrimônio da União). Não havia coordenação entre eles. “Quando o decreto 1164 foi revogado, era impossível saber o que tinha voltado para o estado, o que tinha sido distribuído pela União, o que tinha sido privatizado ou o que ainda era público.”

As coisas foram sendo implantadas por quem não via a Amazônia senão como um território vazio e uniforme, por estrangeiros ao lugar. “Até hoje, quando se fala em Amazônia, quase sempre se desconsideram as Amazônias da Amazônia”, lamenta Jatene. “Tu tens a Amazônia das estradas e a Amazônia dos rios. Aqui no Pará, se tu quiseres floresta, tu tens. Se tu quiseres campo, tu tens. Se tu quiseres mar, tu tens o mar. Se tu quiseres montanha, tu tens a montanha. E aí veio a migração e tentou apagar toda essa diversidade. Os que chegavam tinham outra relação com o território. Eles queriam homogeneizar a Amazônia. Eu sempre digo: diferença tempera, desigualdade dói, porra! Diferença é ótimo, e foi a diferença que sumiu.”

Com raras exceções, os colonos obedeceram ao impulso de transformar em poucas coisas – pasto, boi, soja – o que originalmente eram muitas. Com trabalho, empenho e ajuda do Estado brasileiro, começaram a desbastar a imensa variedade da floresta tropical, simplificando-a.

 

A BR-163 corta o Brasil de Sul a Norte. Partindo do Rio Grande do Sul, chega até Cuiabá e de lá segue até Santarém, cidade portuária do Pará. Esse último trecho une o Cerrado à Amazônia, ligando as áreas já consolidadas do agronegócio brasileiro no Centro-Oeste às novas fronteiras de expansão do gado bovino e da soja no bioma amazônico.

Tomando a estrada em Santarém, as janelas de um lado e do outro do carro dão para cenários muito diferentes entre si. À direita, quase ao alcance da mão, o viajante verá correr a Floresta Nacional do Tapajós, unidade de conservação criada em 1974 com uma área de 582 mil hectares, equivalente a duas vezes os municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo somados. À esquerda, seus olhos não encontrarão nenhuma barreira. Campos de soja se alongarão até onde a vista alcançar.

A paisagem mudará pouco durante uma hora, e então mudará muito. Não à direita, onde a floresta seguirá margeando a estrada por duas ou três horas ainda. A grande transformação acontecerá nas janelas da esquerda. A topografia mais acidentada e as condições climáticas menos favoráveis à soja farão com que a lavoura se torne mais rara à medida que o carro avança, até desaparecer completamente. O que ocupará o lugar dela é nada.

É preciso descrever a qualidade desse nada. A primeira impressão é de uma vasta extensão de terra abandonada. Aqui e ali, surgem algumas benfeitorias características do ambiente rural – um curral, um cocho, um casebre –, mas nenhuma criatura viva que delas se sirva. Algumas dessas construções ou não foram terminadas ou já estão se desfazendo. O ar é de desistência e falta de vitalidade, como se o lugar não justificasse nem o empenho em criar, nem a tenacidade em manter o que eventualmente se criou.

Mas seria errado dizer que nada existe ali. De quando em quando, alguns pontos brancos se destacam contra o solo marrom no qual o sol bate como um punho. São os bois. Parecem poucos para o tamanho da paisagem. Reúnem-se sempre em formações determinadas menos por instinto gregário ou hierarquias sociais do que pela existência de sombras. Se uma castanheira solitária sobreviveu no meio do descampado – a castanheira é uma espécie protegida, requer autorização do Ibama para ser cortada –, então a manada estará debaixo de sua copa. Se um renque de arbustos cresce à beira de um corpo d’água, os animais se perfilarão ao longo da vegetação. Em certo ponto da estrada, o tronco de uma árvore morta era a única estrutura vertical à vista. A risca escura que projetava no chão lembrava um relógio de sol. Sete bois faziam fila indiana em cima dessa sombra, o focinho de um no rabo do outro. Olharam com indiferença quando o carro diminuiu a velocidade para observá-los. O essencial era não se mexer. Pareciam uma trupe de equilibristas.

Lideranças do agronegócio e autoridades políticas costumam dizer que o Brasil alimenta o mundo e que para alimentar o mundo o Brasil precisa da Amazônia. Mas disso certamente não precisa, não dessas terras mortas – o que é um problema, pois onde os pioneiros chegaram esses baldios não são uma exceção. São a regra.

Dados recentes mostram que o país tem mais de 40 milhões de hectares de vegetação natural em regeneração, o equivalente aos estados de São Paulo e Paraná somados. “O que parece ser uma excelente notícia é, na verdade, uma constatação desoladora”, escreveu o engenheiro florestal Tasso Azevedo no jornal O Globo, em setembro do ano passado. “Mais de 95% desta área não são resultado de um processo virtuoso de restauração. De fato, são áreas degradadas que foram abandonadas.” Azevedo lembra que, nos últimos trinta anos, de cada 10 hectares de florestas primárias desmatadas na Amazônia Legal, seis viraram pastagens de baixa produtividade, três foram abandonados e apenas 1 hectare se tornou terra agrícola produtiva ou infraestrutura urbana.

É como se, de dez palavras, só uma fizesse sentido. Como se a frase anterior, de dez palavras, fosse reduzida a uma. Assim: É como se, de dez palavras, só uma fizesse sentido. Todo esse espaço agora em branco – toda essa floresta, todas as criaturas que nela habitavam, todas as riquezas que escondia –, foi tudo destruído por nada. É um exemplo eloquente de fiasco. “Não faz nenhum sentido”, conclui Azevedo.

A margem esquerda da BR-163 não deixa dúvida de que não estamos derrubando a Amazônia para construir a Califórnia. A pecuária extensiva praticada na região é constrangedoramente pouco produtiva. No Pará, cada hectare de pasto é ocupado por apenas um animal, índice que piora ainda mais quando se leva em conta que muitas terras abandonadas serviam à pecuária no passado e hoje, degradadas e inúteis para a produção, não entram nas estatísticas de pastagem do censo agropecuário nacional. Se entrassem, a lotação se aproximaria de meio animal por hectare – um boi solitário a cada dois campos de futebol, índice de uma mediocridade que não encontra paralelo em muitas partes do mundo. O valor bruto por hectare da produção agropecuária no Paraná é nove vezes superior ao que se registra no Pará. Em 2018, o estado sulino produziu 77 bilhões de reais em 12,7 milhões de hectares, enquanto no Norte foi preciso quase o dobro da área – 21 milhões de hectares – para gerar um quinto do valor, 14,4 bilhões de reais. Muito pouco se faz da floresta derrubada.

No início do século XX, Euclides da Cunha já descrevia certo modo de colonizar a Amazônia em que o pioneiro dá “a tudo quanto pratica, na terra que devasta e desama, um caráter provisório”. De fato, não se imagina que a terra triste e empobrecida à beira da rodovia tenha sido amada por quem se apossou dela. Cobiçada, sim; querida, não.

Dias antes da viagem pela BR-163, num evento na Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém, o padre Edilberto Sena, um franciscano de 78 anos que dedicou a vida à defesa dos pequenos agricultores da Amazônia, pintara um quadro sombrio da situação do campo: “Vocês me perguntam sobre o futuro do meio rural. Pois eu vou lhes falar do triste futuro do meio rural. Setenta e cinco por cento da população que trabalha no campo não mora mais no meio rural. As periferias incham em Monte Alegre, em Belterra” (municípios vizinhos a Santarém). Na fala do padre Edilberto, as perspectivas do futuro se estreitaram ainda mais: “Então, eis a pergunta: Quando as commodities caírem de preço, com as nossas terras saqueadas, contaminadas, o que sobrará? Os forasteiros vão voltar para o lugar de onde vieram, nós ficaremos aqui. E o que será de nós?”

Monte Alegre e Belterra. Se os nomes guardassem alguma correspondência com a realidade, a paisagem seria outra, mas a toponímia amazônica, claro, não difere da de tantas partes do Brasil. A admiração pela natureza, o projeto civilizatório, a domesticação gentil e cuidadosa da terra se encerram e se esgotam no ato de batismo, liberando a obra para o descaso. Primavera, Aurora do Pará, Floresta do Araguaia, Eldorado de Carajás, Concórdia do Pará, Água Azul do Norte, Nova Esperança do Piriá: todos esses municípios contam com extensas áreas degradadas nas quais se produz pouco e mal. A incongruência entre a palavra e a coisa é uma medida da nossa derrota, quando não da nossa hipocrisia. Um pouco como os animais em risco de extinção que exaltamos nas cédulas do real.

É muito difícil alguém se enternecer diante de um pasto arruinado. Se, como quer o poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro, a natureza pode revelar emoção e conhecimento no observador, se é capaz de provocar em quem a contempla “um sentimento destituído de interesse”, “o sentimento gratuito de estar diante de uma coisa que emociona e confere prazer em sua fruição”, então a transformação da margem direita da BR-163 em margem esquerda é uma espécie de alquimia que transmuda um “bem humano” em “bem material”. A natureza agora vale apenas por sua utilidade econômica. Nas palavras de Loureiro: “A beleza é substituída pelo preço.” A floresta vira pasto barato.

 

Sete horas depois de deixar Santarém, chega-se a Itaituba. Sinais de abandono acompanharam o viajante por todo o trajeto de 370 km que separa as duas cidades. Bastou tomar qualquer estrada vicinal para vê-los de perto: pontes inacabadas sobre pequenos igarapés, tubulações interrompidas no meio do nada, barracos em ruínas, cercas derrubadas, mourões apodrecidos, currais tombados, porteiras quebradas. Não há vestígios de permanência, de coisa feita para durar.

Entra-se em Itaituba ladeando um grande conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida. São centenas de casas dispostas em fila, umas coladas nas outras e todas viradas para o mesmo lado. Lembram uma tropa de soldados em ordem-unida. Afora a monotonia, o que chama a atenção imediatamente é a inexistência de sombra. Não há árvores, apenas concreto, telha, asfalto e poeira. Vistos a distância, os telhados de duas águas vibram no calor da tarde – parecem bater asas, um modo de sair dali. A Amazônia sem a Amazônia é um lugar irreal.

Com cerca de 100 mil habitantes, Itaituba é uma cidade de garimpeiros. No passado, seu modesto aeroporto foi um dos mais movimentados do país. Alguns registros falam em cem pousos e decolagens por dia, um fluxo contínuo de aviões de pequeno porte carregados de combustível e mantimentos para os garimpos espalhados ao longo do Rio Tapajós. Em 2019 a cidade inaugurou um monumento ao garimpeiro – a estátua de um homem de chapéu de palha segurando uma bateia. É a representação romântica de um personagem que já não existe. O garimpeiro de hoje é um assalariado sem direitos, trabalhando em condições insalubres a bordo de máquinas pesadas que exigem capital. De acordo com a organização não governamental Repórter Brasil, “estima-se que garimpos ilegais faturem de 3 a 4 bilhões de reais anuais no país. Em Itaituba, garimpeiros compram cerca de cem escavadeiras por ano de uma única empresa – cada máquina chega a custar 1 milhão de reais”.

O site da prefeitura informa que Itaituba deve muito à “classe garimpeira que há décadas são [sic] responsáveis pela maior parte da economia do município”. Grande parte dessa atividade é ilegal. Eis alguns resultados dessa opção de desenvolvimento: comparando com a média dos municípios da região Norte, Itaituba tem índices piores de desmatamento recente, de violência contra indígenas e de mortalidade por doenças infecciosas. Menos de 2% da população urbana tem acesso à rede de esgoto.

Essas mazelas estão ligadas não à pobreza, mas ao tipo de prosperidade que se buscou ali. Itaituba é um dos principais centros econômicos do Oeste paraense. A riqueza não se traduz em melhoria do entorno, em conquistas cívicas. O descuido com a arborização de ruas e praças, as calçadas intransitáveis, o desrespeito às regras de trânsito, a inexistência de ordenamento urbano e, principalmente, a incompreensão da cidade em relação à geografia em que está inserida, nada disso destoa do padrão encontrado nos ajuntamentos urbanos mais pobres do Norte. A estátua do garimpeiro foi erguida na única atração turística da cidade, o calçadão que margeia o Tapajós, rio que a atividade celebrada pelo monumento vem destruindo.

Um estudo de 2003 publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas/Funasa constatou teores elevados de mercúrio nas populações ribeirinhas do Tapajós. Despejado nos rios pelo garimpo, o metal é um potente neurotóxico que já provocou calamidades de saúde pública em várias partes do mundo. Uma das formas de intoxicação se dá por via alimentar. O mercúrio será absorvido pelas algas, alimento de peixes não piscívoros, os quais, por sua vez, serão devorados por peixes maiores e assim por diante, numa sucessão alimentar que, a cada nova etapa, concentra mais metal no organismo do mais recente consumidor. Para muitas comunidades ribeirinhas e indígenas, o pescado costuma ser a principal fonte de proteína animal, quando não a única.

Em 2003, o resultado das análises feitas pelos pesquisadores do IEC/Funasa em peixes de oito localidades às margens do Tapajós verificou que, salvo por um pequeno distrito mais ao norte, as amostras de Itaituba continham as maiores concentrações de mercúrio, mas ainda abaixo do limite máximo estabelecido pela Organização Mundial da Saúde. Apenas oito anos depois, em 2011, já não era assim. Uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular da Universidade Federal do Pará verificaria que os peixes comercializados no mercado municipal de Itaituba “[apresentavam] níveis de metilmercúrio acima do limite preconizado pela OMS”. Uma das espécies chegou a ultrapassar “até cinco vezes o limite de tolerância da OMS”. A altíssima neurotoxicidade do metilmercúrio – a forma mais patogênica do metal – foi identificada em 1956, no Japão, onde provocou o envenenamento maciço de pessoas e animais numa pequena cidade portuária. Os sintomas do chamado mal de Minamata surgiram vinte anos depois do início da contaminação ambiental. Primeiro, foram os gatos que começaram a perder o equilíbrio. Logo apareceram as pessoas, trôpegas, com danos à visão e à audição, acometidas por surtos psicóticos, vítimas de sérios distúrbios cerebrais.

Entre 29 de outubro e 9 de novembro de 2019, cientistas da Fiocruz e de outras sete instituições de pesquisa visitaram o Médio Tapajós para avaliar o impacto da contaminação por mercúrio em habitantes da Terra Indígena Sawré Muybu, situada nos limites administrativos dos municípios de Itaituba e Trairão. Foram entrevistados e avaliados duzentos mundurukus. Era um grupo bastante jovem, com idade média de 14 anos. Os resultados saíram no mês passado, publicados em nota técnica. A partir da análise dos peixes piscívoros consumidos por essas comunidades, os pesquisadores estimaram que as doses de ingestão diária de mercúrio pelos participantes “foram de 4 a 18 vezes superiores aos limites seguros preconizados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos [EPA] e de 2 a 9 vezes maiores do que os limites tolerados pela FAO/OMS”. Seis em cada dez participantes apresentaram “níveis de mercúrio acima dos valores de referência”, ultrapassando os limites máximos estabelecidos pelas organizações de saúde. Numa única aldeia, a prevalência de contaminação se estendeu a 87,5% da população. O maior nível de mercúrio em todo o grupo foi registrado numa criança de 10 anos. Vestígios de mercúrio foram detectados em todos os participantes, sem exceção. Muitos indígenas já mostram algum grau de comprometimento neurológico.

O garimpo dos séculos XVII e XVIII ao menos nos deixou Aleijadinho e as cidades barrocas de Minas. O garimpo dos séculos XX e XXI nos deixa Itaituba.

 

“Quando eu cheguei, aqui não tinha nada.”

A frase acima, ou alguma variação dela, ocorre com frequência nas conversas com pioneiros que vieram colonizar a Amazônia a partir da década de 1970. As sociedades indígenas espalhadas por todo o bioma, as populações ribeirinhas, as comunidades quilombolas, a infinidade de criaturas da selva, os processos de retroalimentação entre floresta, água e clima – a complexidade de tudo isso se reduz a pouca coisa aos olhos de quem chegou para ocupar e não se preparou para ver. Sendo razoável supor que é mais fácil destruir o que não se enxerga, a cegueira pode ser uma opção desejável. Ver possui uma dimensão ética e intelectual.

O processo histórico de ocupação da Amazônia se caracteriza pela convicção de seus protagonistas de que conquistar é destruir. É o que o colono aprendeu do passado e é o que tentará repetir no presente, a despeito das leis em vigor. Seu constrangimento em transformar radicalmente o bioma será temperado pelo ambiente político do momento; sua cautela em desfazer será calibrada pela maior ou menor disposição das autoridades para coibir suas ações. Destruir muito ou destruir pouco, essa tem sido a escolha, pois o que a história mostra é isto: a floresta não cresce, só diminui.

O hábito do triunfo ameniza a dúvida, dizia Balzac, acrescentando em seguida que o pudor talvez seja uma forma de dúvida. Aplicada à Amazônia, a observação é precisa. A ocupação da floresta vem se marcando pela convicção e pelo orgulho, nunca pela hesitação e muito menos pelo pudor. Alacid Nunes, governador do Pará durante o regime militar, chegava numa frente de desmatamento, subia no tronco de uma árvore caída e anunciava: “Aqui o documento é o machado!” “Era assim que funcionava”, lembra um fazendeiro de Paragominas, pioneiro da ocupação do município localizado no sudeste do estado: “Você vinha, abria a terra e a terra era sua.”

Os homens a quem a pregação de Nunes se dirigia não tinham como se interessar pela floresta. A história e o governo lhes ensinaram que não havia o que conhecer ali. A ambição que os movia tornava a lição conveniente. Podiam modificar profundamente o novo mundo de que agora se apropriavam sem lidar com o fardo da consciência. Acreditar que a floresta era inútil, improdutiva, desinteressante e sem mistérios facilitava a obra. Parafraseando uma formulação de Michel Foucault citada pelo pensador camaronês Achille Mbembe, a transformação da floresta em terreno baldio é uma forma específica de poder: o de decidir soberanamente o que deve viver e o que morrerá. Esse é o sentido de “aqui não tinha nada”.

Nesse processo, nós, estranhos à floresta, destruímos aquilo que ainda não conseguimos ver, nenhum de nós, nem mesmo os que se dedicam a enxergar: a ciência vem descobrindo uma nova espécie animal ou vegetal na Amazônia a cada dois dias. Botar a floresta abaixo antes mesmo de conhecê-la é um pouco como se, numa página que incluísse linhas escritas em idiomas ou alfabetos exóticos, o leitor tomasse a decisão de apagar todas as que não compreendesse. Digamos:

οἶνοψ πόντος

בְּרֵאשִׁית, בָּרָא אֱלֹהִים, אֵת הַשָּׁמַיִם, וְאֵת הָאָרֶץ

Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare

Se essas linhas existissem só aqui – isto é, se fossem espécies endêmicas –, a destruição teria eliminado para sempre um verso de Homero (mar cor de vinho), a criação do universo tal como descrita no Velho Testamento (No princípio, Deus criou os céus e a terra), os caracteres do documento indiano que pela primeira vez na história registrou o algarismo zero (o ponto no fim da linha) e a primeira lei da mecânica de Newton, a da inércia (Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme…). Ao menos no quadro das nossas referências epistemológicas, tudo sumiria sem deixar qualquer registro sobre a Terra. Os povos originários ainda teriam as suas memórias, o que não resolve a violência, mas é um consolo. Nós, não. Jamais saberíamos o que perdemos.

Contraste-se esse modo de proceder com o dos pesquisadores e naturalistas. Embrenhado na Floresta Amazônica, à noite, o entomologista Edward O. Wilson se espanta com a vida que o cerca: “O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável depois de um único bocado. Esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo. Rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escuridão. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, é um dos últimos repositórios na Terra desse sonho imemorial.”

Surpreendido por uma pancada de chuva que levou todas as criaturas da mata a irromper “numa simulação de vida violenta”, Wilson dimensiona o tamanho de sua ignorância: “A respeito das orquídeas desse lugar sabíamos muito pouco. Sobre as moscas e besouros, praticamente nada. Acerca dos fungos, nada. Nada a respeito da maior parte dos organismos. Cinco mil tipos de bactérias podiam ser encontrados numa pitada de solo, e a respeito delas não sabíamos absolutamente nada.” Escrevendo essas linhas na última década do século XX, ele se vê na mesma situação dos exploradores portugueses, cujas mentes se deixaram inflamar por aquele “mundo bravio e agreste”, “cheio de plantas e animais estranhos e inspiradores de mitos”.

Não à toa, Wilson publicou suas observações sobre o mundo amazônico num livro intitulado Diversidade da Vida. A espantosa variedade de tudo que vive é a primeira característica de uma floresta tropical; é uma abundância que não cessa de assombrar nem mesmo o pesquisador calejado: “Ali nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura voavam em meio à coroa das árvores em busca de frutos, víboras arborícolas enrolavam-se nas raízes de orquídeas, prontas para dar o bote, onças caminhavam pelas margens do rio. Em torno deles, oitocentas espécies de árvores, mais que todas as nativas da América do Norte, e mil espécies de borboletas, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer.”

Para homens que chegam de fora e não pertencem à floresta, a curiosidade é um divisor – a falta ou a abundância dela, no caso de quem destrói ou de quem quer compreender. “Em todas as culturas, classificação taxonômica significa sobrevivência. O princípio da sabedoria, como dizem os chineses, é chamar as coisas pelo seu nome correto”, escreve Wilson. A observação serve como mais um parâmetro do nosso fiasco. Em ritmo cada vez mais acelerado, optamos por extinguir incontáveis formas de vida antes mesmo que possamos nomeá-las.

O processo pelo qual as coisas desaparecem antes de serem conhecidas desafia até mesmo a lógica utilitária. Em seu livro Revolução das Plantas, o biólogo italiano Stefano Mancuso lembra que os princípios ativos dos remédios são, em grande parte, de origem vegetal. Apenas em 2015 foram descobertas 2 034 novas espécies de plantas, muitas delas na Amazônia. Quantas podem nos oferecer benefícios? “Mais de 31 mil espécies diferentes [de plantas] têm uso documentado; entre elas, quase 18 mil são utilizadas para fins medicinais, 6 mil para alimentação, 11 mil como fibras têxteis e materiais de construção, 1,3 mil para usos sociais (como em rituais religiosos e como drogas), 1,6 mil como fonte de energia, 4 mil como alimento para animais, 8 mil para propósitos ambientais, 2,5 mil como veneno etc. A conta pode ser feita rapidamente: cerca de um décimo das espécies tem uso imediato para a humanidade”, escreveu Mancuso.

A Amazônia produz 20% da água doce do planeta. O biólogo Antonio Nobre informa que todos os dias o bioma lança na atmosfera, via transpiração das árvores, uma quantidade maior de água do que a do Rio Amazonas. A usina de Itaipu precisaria operar na potência máxima durante 145 anos para conseguir evaporar o mesmo volume de água que a floresta exala em 24 horas. “Uma só árvore na Amazônia com uma copa de 10 a 20 metros de altura bombeia cerca de 600 a mil litros de água por dia para a atmosfera”, explica o físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em entrevista ao Globo. É chuva que cairá Brasil afora.

Olhar para cima pode ser um aprendizado. Em Cachoeira Porteira, distrito do município de Oriximiná, no Norte do Pará, comunidades quilombolas operam pequenas pousadas dentro do maior bloco contínuo de áreas protegidas do mundo tropical, mais que o dobro do estado do Rio de Janeiro. Da varanda de uma delas, no alto de um dos morros que margeiam o Rio Trombetas, tem-se uma vista panorâmica da selva. A massa compacta da mata se estende até onde o olho alcança. Quando a tarde cai, um espectro começa a se erguer do dossel verde-escuro, libertando-se dos galhos, das folhas, dos cipós, das trepadeiras, lentamente subindo aos céus. É um espetáculo silencioso, uma respiração. E, de fato, trata-se de algo semelhante. As plantas estão devolvendo para a atmosfera a água que absorveram e não usaram. A floresta produz o clima de que precisa para existir. Metade das chuvas na Amazônia é gerada pela transpiração da mata. Como diz Antonio Nobre, “não existe floresta porque chove, chove porque existe floresta”.

Destruir a floresta é destruir também a chuva que cai longe dela. “[Na] principal área desmatada da Amazônia – que começa no Maranhão, desce pelo Pará e vai até o Norte do Mato Grosso –, o período de seca já dura de uma a duas semanas a mais do que no resto da Amazônia”, diz Ricardo Galvão. “Outro efeito grande é a interferência no regime pluviométrico em todo o Brasil e na América do Sul, afetando fortemente a nossa agricultura. Até o governo agora entende que os chamados ‘rios voadores’ de umidade que se formam na Amazônia e vão para o Sul e o Sudeste são essenciais para os agricultores brasileiros.” As observações de Galvão reforçam as conclusões do modelo desenvolvido em Princeton.

A capacidade que tem a floresta de regular o clima é outro aspecto a ser levado em conta por quem faz cálculos utilitários. Como não parece haver dúvida de que a preservação da Amazônia é condição necessária para evitar os efeitos mais agudos do aquecimento global, mantê-la de pé significa preservar um ativo cujo valor não fará senão aumentar diante das crescentes emergências climáticas.

De que maneira os serviços ecossistêmicos prestados pela floresta serão recompensados, eis uma questão ainda em aberto. Certo, contudo, é que as terras nuas e abandonadas que já dominam grandes extensões do bioma não têm valor hoje e não terão amanhã. O Brasil vem trocando por desertos o que constitui potencialmente um de seus mais valiosos patrimônios. Renuncia, assim, a ser uma potência ambiental num século em que o meio ambiente se instalou definitivamente como tema central da agenda planetária. E isso para proveito de quem sequer pensou em compreender onde estava e o que via.

 

A diferença entre a floresta e o pasto – entre a margem direita e a margem esquerda da BR-163 – representa para o observador um contraste em termos de exigência cognitiva. À direita, a complexidade; à esquerda, a simplicidade. Melhor: a descomplicação. É mais fácil compreender os descampados do que as matas tropicais. A floresta não é hostil apenas ao corpo e ao espírito; ela também afronta o intelecto. “Do ponto de vista da compreensão, os ecossistemas tropicais representam um desafio comparável ao entendimento do universo”, diz Simon Levin, diretor do Centro de Biocomplexidade do Instituto Ambiental de Princeton e um dos mais conceituados ecólogos contemporâneos. “A complexidade da floresta é infinita”, afirma. E sorrindo: “Ir à Lua é uma brincadeira…”

As espécies desconhecidas de uma floresta tropical não são o seu maior enigma. A rigor, bastaria força taxonômica bruta para identificar todas elas. Estamos longe, muito longe disso, mas teoricamente seria possível. Ainda que, na prática, sejam cada vez mais raros os taxonomistas, o desafio da classificação não é de natureza intelectual. Sabemos como fazer, falta apenas quem faça. “Na Embrapa que se ocupa da Amazônia Oriental, temos só cinco pessoas para classificar todas as plantas e quatro estão se aposentando, o que significa que haverá um colapso botânico”, lamenta a ecóloga Joice Nunes Ferreira. Cinco bibliotecários conscienciosos levariam mais de uma vida para indexar todos os livros da Biblioteca de Alexandria, mas 1 milhar deles talvez desse conta da tarefa em poucas décadas – e assim também com taxonomistas e as formas de vida que ainda carecem de identificação.

O grande obstáculo à compreensão fina da floresta, a verdadeira complexidade a ser enfrentada, está na relação entre as espécies, no modo como elas interagem entre si. Uma floresta tropical é essencialmente uma cadeia de interdependências. A começar pelo fato extraordinário de ela viver de si mesma. Passeando pela mata densa do Parque Estadual do Utinga, um remanescente florestal dentro de Belém, Joice Ferreira aponta para o chão. Uma camada espessa de matéria orgânica – folhas, ramos, flores – recobre o solo. É a serrapilheira. “Tudo aqui se decompõe muito rápido”, ela explica. “Uma folha vive cerca de dois anos; o que vem depois é a retranslocação, a devolução para a floresta. O solo é muito pobre, então não é dali que as plantas extraem a maioria dos nutrientes de que precisam. É da serrapilheira. A árvore mais alta e a menor herbácea vivem dela. Ou seja, a floresta se alimenta da floresta.”

Pesquisadores do mundo natural dão à floresta tropical a alcunha de “paraíso falsificado”, descrevendo assim um edifício de extraordinária complexidade biológica erguido sobre fundações de areia. Joice Ferreira conta que, certa vez, foi interpelada por um migrante nordestino que mantinha uma roça magra à beira da Transamazônica. “Mas como é que essa floresta tem todas essas árvores enormes e o meu feijãozinho não cresce?”, queria saber o homem. “Simples”, ela respondeu, “o feijão precisa do solo; a floresta, não.”

Ferreira estuda a resiliência da Floresta Amazônica a distúrbios como fogo e seca. O processo de dispersão de sementes, por exemplo, diminuiu com a seca provocada pelo fenômeno do El Niño de 2015. O revolvimento da terra por besouros que misturam nutrientes e enriquecem o solo também foi prejudicado. Passada a estiagem, tais processos se restabeleceram. Já as rupturas provocadas pelas queimadas se mostram bem mais profundas. Florestas tropicais são úmidas, o fogo não faz parte da vida natural delas. Trata-se sempre de um fenômeno resultante da ação humana, à diferença do que sucede com florestas temperadas, para as quais o fogo é parte do ciclo e pode ter efeitos regeneradores. A Amazônia não compreende a queimada e não tem defesas contra ela. O fogo produz uma quebra de ciclo: reduz a presença de mamíferos, o que reduz as fezes, o que reduz os besouros, o que reduz a mistura de nutrientes do solo. Tudo depende de tudo.

Hoje, além do que já foi destruído, outros 20% da floresta estão em processo de degradação. Degradar a mata significa torná-la progressivamente inviável. A saúde do sistema depende do tumulto que o constitui. Uma lei em defesa das castanheiras é letra morta na ausência de uma lei em defesa do que cerca as castanheiras. Duzentas espécies de insetos visitam um único pé de açaí; 25% da produção de seus frutos estão relacionados ao trânsito dessa multidão de seres. Formigas-de-correição avançam pela floresta consumindo cada inseto, aranha ou pequeno réptil no caminho. Aves formigueiras aproveitam-se dessa balbúrdia; ao longo de milhões de anos, especializaram-se em acompanhar do alto esse exército, alimentando-se dos animais que fogem do avanço. Se as formigas desaparecem, desaparecem também as aves, um exemplo daquilo que os ecologistas chamam de extinção em cascata.

Distúrbios naturais são facilmente superados, mas somente se o ecossistema não tiver sido privado das ferramentas necessárias à sua recuperação. O poder restaurativo será uma consequência da variedade da fauna e da flora existentes em determinada área. O único arsenal de que a natureza dispõe para se restabelecer é a heterogeneidade de suas espécies. “A diversidade biológica – ‘biodiversidade’, como se diz hoje em dia – é a chave da preservação do mundo como o conhecemos”, explica Edward O. Wilson. “A vida num local assolado por uma tempestade passageira se recupera logo porque ainda existe bastante diversidade. Espécies oportunistas que evoluíram justamente para tais ocasiões correm para preencher os espaços vazios, dando início a uma sucessão que acabará por retornar a algo semelhante ao estado original do meio ambiente.”

Uma tempestade abre uma clareira na floresta. A luz bate no solo, onde uma grande variedade de plantas está à espera da sua vez. Estabelecida a competição, crescerão as espécies mais rápidas. Ao fazer isso, elas criarão as condições para que as mais lentas prosperem. Outras formas de vida vão se aproveitar da vida já existente. Numa árvore de grande porte podem viver de seiscentas a setecentas espécies florísticas. Tudo compete, se mistura, colabora.

Quem sabe por influência de uma interpretação pobre de Darwin, quem sabe pela tendência a atribuir ao mundo natural traços do nosso contrato social, costumamos dar mais ênfase à competição do que à ajuda mútua, como se a natureza fosse um jogo de soma zero em que cada vitória produz simultaneamente uma derrota. A realidade é bem mais sutil.

“A cooperação entre plantas e formigas pode atingir níveis de sofisticação difíceis de imaginar”, escreve Stefano Mancuso. Tome-se a parceria entre insetos e certas árvores do gênero Acacia, nativas da África e da América Latina. A depender dos pendores políticos do observador, será possível interpretar a interação como exemplo de altruísmo socialista (entre a planta e o inseto) ou de individualismo capitalista (entre a planta e quem pretenda roubar o seu sol): “Algumas acácias […] produzem corpos de frutificação específicos para alimentar as formigas e lhes fornecem espaços, obtidos dentro de determinadas estruturas das árvores, onde esses insetos vivem e criam suas larvas.”

Receber alimento e abrigo de uma planta já seria um bom negócio, mas os benefícios não acabam aí. Mancuso explica: “Como em um programa de televendas em que o apresentador não para nunca de acrescentar produtos para incentivar a compra, assim as acácias oferecem, além de comida e de alojamento, também bebidas gratuitas, na forma de deliciosos néctares extraflorais.” Essa é a parte em que pacifistas de matizes vários poderiam enxergar o altruísmo. Contudo, tantas bondades não são estendidas de graça. A acácia espera uma compensação e a recebe na forma de um exército aguerrido de seguranças: “Em troca, as formigas se encarregam da defesa contra qualquer animal ou planta agressora que possa danificar de qualquer forma a planta em que estão alojadas. E elas fazem isso com grande eficácia. Não apenas mantêm longe da árvore todos os outros insetos que tenham a infeliz ideia de se aproximar, como também atacam animais bilhões de vezes maiores do que elas. Portanto, não é incomum ver formigas picando herbívoros do tamanho de um elefante ou de uma girafa para dissuadi-los.”

O que já seria notável se torna ainda mais espantoso quando Mancuso observa que “a defesa ativa implementada pelas formigas […] não se limita a afastar os animais, qualquer que seja o tamanho deles”. Inimigos da árvore habitam também outro reino, o vegetal, fato que as formigas são capazes de compreender: “Toda planta que ousa emergir do solo em um raio de poucos metros de sua hospedeira é picada sem misericórdia. Assim, não é incomum, no meio da Floresta Amazônica, ver campos perfeitamente circulares sem nenhuma vegetação em torno de uma acácia.” Inexplicáveis para as populações locais, essas áreas podem ser chamadas de “jardins do diabo”, diz o autor.

 

Em Os Subterrâneos, ensaio publicado na piauí de maio de 2020, o escritor inglês Robert Macfarlane descreve o processo colaborativo entre plantas e fungos, ideia que começou a ser explorada em profundidade no início da década de 1990 por uma ecologista canadense, Suzanne Simard. Trabalhando em plantações de pinheiro, a jovem Simard quis compreender um fenômeno que, embora observado com frequência, ainda era um mistério para a ciência: quando certas plantas sem valor eram arrancadas do solo para evitar que competissem por recursos com as árvores comercializáveis, sua remoção coincidia com a deterioração e posterior morte prematura dos brotos de pinheiro. Como quem levanta um tapete, Simard e seus colaboradores ergueram “a pele do solo” para descobrir o que se passava lá embaixo.

“O que eles viram ali”, relatou Macfarlane, “foram os claros e finíssimos filamentos que os fungos espalham pelo solo. Conhecidos como ‘hifas’, esses filamentos se interligavam e criavam uma rede de complexidade e extensão atordoantes. Uma colher de chá de terra podia conter até 10 km de hifas.” Essa rede se conectava a cada radícula de cada planta, levando e trazendo informações não só entre espécies iguais, mas entre toda a população botânica presente naquele solo. Moléculas de carbono viajavam por esse sistema, e, ao longo do trajeto, “os fungos extraíam e metabolizavam parte dos recursos gerados pela fotossíntese que eram transportados pelas hifas”. Era o prêmio pela colaboração.

Simard provou que as árvores eram capazes de transferir nutrientes entre si. Em muitos casos, dependiam dessa troca. Estava resolvido o mistério que a levara a olhar para dentro do chão. Se pinheiros morriam quando se arrancavam certas espécies de junto deles, era porque estas lhes transferiam moléculas de carbono, isto é, cediam-lhes os produtos fotossintéticos de que não precisavam. Sem esse excedente compartilhado, os pinheiros enfraqueciam até sucumbir.

Macfarlane reproduz a linda síntese com que Simard apresentou sua descoberta: os fungos e as árvores haviam “forjado uma unidade a partir de sua dualidade, gerando assim uma floresta”. Aqui, pacifistas e socialistas teriam todo o direito de se atribuir uma vitória epistemológica. A metáfora da rivalidade, do livre mercado capitalista, fracassa como modelo interpretativo, dando lugar ao que Macfarlane descreve como uma comunidade organizada num sistema socialista de redistribuição dos meios necessários à vida: “Em vez de ver as árvores como agentes individuais que competiam por recursos entre si, Simard considerou a floresta um ‘sistema cooperativo’ no qual as árvores ‘conversam’ entre si, produzindo uma inteligência colaborativa que ela chamou de ‘sabedoria florestal’.”

O mutualismo fungo-árvore explorado por Simard originou um dos atos de batismo mais felizes da ciência moderna: a wood wide web. Como observa Macfarlane, as potencialidades desse sistema natural recém-descoberto extrapolam o “intercâmbio básico de bens entre plantas e fungos”. Graças à teia de conexões que corre por baixo da floresta, as plantas também podem trocar bens entre si: “Por exemplo, uma árvore moribunda pode despejar seus recursos na rede em benefício da comunidade, ou uma árvore em dificuldades pode ser sustentada por recursos adicionais das vizinhas.”

Talvez a descoberta mais fascinante dessa nova ciência das florestas seja esta constatação: as árvores são capazes de alertar umas às outras sobre riscos iminentes. Fazem isso enviando pela rede subterrânea “compostos de sinalização imunológica entre si. Uma planta atacada por pulgões pode avisar uma planta próxima de que deve fortalecer sua resposta defensiva antes que os pulgões cheguem”. Sabe-se “há algum tempo que as plantas se comunicam acima da terra de maneira semelhante, através de hormônios difusores”, escreve Macfarlane; contudo, “esses alertas aéreos, acima da terra, têm destinos imprecisos. Nas redes fúngicas, pode-se identificar tanto o emissário quanto o destinatário dos compostos” – sistema mais para WhatsApp do que para sinal de fumaça.

O subsolo de uma floresta é um circuito integrado biológico. Bilhões de conexões interespécies acontecem a poucos palmos das nossas botas. Tabular e compreender essas conexões exauriria a capacidade computacional de que dispomos. Macfarlane cita a antropóloga Anna Tsing, que no ensaio Arte da Inclusão, ou Como Amar um Cogumelo, escreve: “Quando você passar de novo por uma floresta, olhe para baixo. Existe uma cidade debaixo dos seus pés.”

Mal começamos a compreender a riqueza prodigiosa desse mundo subterrâneo – a complexidade de seus sinais, a urgência de seus alertas, a elegância de sua arquitetura, a dimensão de suas possibilidades. A floresta continua a nos escapar e seguirá assim: parcialmente inapreensível, corolário e virtude de sua prodigalidade. Que essa exuberância silenciosa no subsolo, rumorosa acima do chão, seja transformada em coisa muda – em margem esquerda da BR-163 – é sinal de violência, desperdício e falta de ambição.


[1] O conceito de Amazônia Legal existe desde o início da década de 1950. Integram o território regiões com problemas socioeconômicos semelhantes. Decorrente de um conceito político e não de um imperativo geográfico, seus limites foram alterados várias vezes. A Amazônia Legal não se confunde com o bioma Amazônia, o qual se estende por 49% do território brasileiro. Além de abrigar toda a floresta tropical, a AL também abarca 20% do bioma Cerrado e parte do Pantanal mato-grossense.



João Moreira Salles

Documentarista, é editor fundador da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros

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