questões de saúde

Um médico a menos

Fora do Mais Médicos desde a eleição de Bolsonaro, clínico cubano sobrevive aplicando acupuntura em Salvador enquanto sonha em combater o coronavírus

Fernanda Santana
23mar2020_17h38
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto de acervo pessoal /Edgar Sánchez

“Você tem tuberculose”, disse o médico Edgar Sánchez, 42 anos, para a paciente, uma mulher de 27 anos, no povoado de Novo Acre, município de Iramaia, a quase seis horas de Salvador, na Chapada Diamantina, Bahia. Ela estava havia seis meses em busca de um diagnóstico para uma tosse que não passava. Quando entrou na sala do médico, numa manhã de julho de 2014, mal conseguia respirar. Sánchez era o primeiro médico na história de Novo Acre, surgido nos anos 1960. “O raio X tinha sido mal interpretado”, recorda ele. Quase seis anos depois, Sánchez atende num consultório no bairro de Nazaré, no Centro de Salvador, mas não pode clinicar. Especialista em medicina familiar, voluntário na Venezuela e no Paquistão, participante do Programa Mais Médicos, ele foi impedido de exercer o ofício no Brasil depois da saída dos cubanos do projeto. Agora trabalha como acupunturista e massagista.

O cubano desembarcou em Salvador com a mulher, a pediatra Yamilia Martínez, 41, em 6 de março de 2014. Acompanhados por outro cubano convocado pelo projeto, seguiram numa picape da Prefeitura de Iramaia até o destino. Ele e a mulher tinham se inscrito na véspera no Mais Médicos, lançado em 8 de julho de 2013, pela então presidente Dilma Rousseff (PT). “Achamos que seria uma oportunidade. A economia não estava boa em Cuba, e no Brasil poderíamos ter alguma perspectiva”, diz. A família vivia, então, com o mínimo. “Digamos que 240 reais por mês”, estima ele.

O governo de Cuba decidiu sair do programa em 14 de outubro de 2018, depois da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais. Na campanha, em agosto daquele ano, o então candidato do PSL declarou que “expulsaria” os médicos cubanos do Brasil. À época, Sánchez já havia sido transferido de Novo Acre, onde atendeu por quase quatro anos, para Piraí do Norte, no Sudoeste da Bahia, onde finalizou o último ano no Mais Médicos. “Um secretário que entrou não gostava de cubanos, mandou eu e os outros quatro para outros municípios”, lembra. Antes, em dezembro de 2016, todos receberam o título de Cidadão Ilustre de Iramaia. Numa foto publicada no Facebook, Sánchez aparece com o certificado na mão. “Médico como você, hoje em dia, é muito difícil de se encontrar por aí”, comentou, no post, uma moradora de Novo Acre.

Às 7 horas, o carro da Prefeitura de Iramaia esperava por Sánchez – a mulher  permanecia na sede do município, onde atendia num consultório – em frente à casa de dois quartos onde moravam. O trajeto até Novo Acre demorava em média 40 minutos numa estrada esburacada de barro. Sánchez passou a trabalhar até doze horas por dia e atender de 30 a 35 pessoas. “A população não tinha assistência nenhuma. Havia desde problemas sérios a coisas simples. Eles só queriam atendimento. É um povo acolhedor, que me recebeu com muito carinho”, relata. Casos como o da paciente tuberculosa, sem diagnóstico, costumavam aparecer no consultório.

Quando veio para o Brasil, Sánchez era diretor de uma policlínica na cidade de Ciego de Ávila, na região central de Cuba, e morava num imóvel herdado pela família com a mulher e a filha, Amanda, hoje com 17 anos. Foi o único patrimônio que restou da Revolução Cubana. Ele e a mulher se conheceram na Universidade de Ciências Médicas Carlos J. Finlay, na cidade de Camagüey, no final dos anos 1990. Em 2003, já formado, Sánchez partiu para a primeira missão médica fora do país, na Venezuela, pelo programa Bairro-Adentro, que levava médicos cubanos e venezuelanos para zonas pobres do país. A mulher e a filha, ainda bebê, chegaram um ano depois ao país e ali permaneceram até 2009. “Eu sempre quis ser médico”, diz ele, num tom que varia do lamento ao orgulho pela escolha.

Na tarde de 15 de março, Sánchez respondia a mensagens quando recebeu a notícia de que o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, havia anunciado que os participantes do Mais Médicos seriam reconvocados para ajudar a controlar a pandemia do novo coronavírus. Pelo menos 1,8 mil cubanos terão o direito de se inscrever – ao todo, são 5.811 vagas. É preciso que os profissionais tenham ficado no programa até o último dia de atividade, em 13 de novembro de 2018, e permanecido no Brasil – como Sánchez. Somente na terceira fase do edital os estrangeiros serão chamados para inscrições, abertas no dia 16 de março. O salário é de R$ 12,3 mil.

Hoje Sánchez e a mulher, que divide com ele o consultório, mas sem poder clinicar,  estão longe de alcançar o salário pago pelo projeto. Uma sessão de massoterapia ou acupuntura custa, em média, R$ 70. Depois da chegada do novo vírus à Bahia, os pacientes do consultório, aberto há cinco meses, sumiram. Só dois continuam em tratamento. “Eles estão com medo, quase de quarentena. Nós [médicos cubanos] ficamos na expectativa, mas acho que eles [governantes] não gostam muito da gente”, lamentou. 

Foi no colo do pai, Barbarito Bernardo Sánchez Pérez, que o pequeno Edgar ouviu as primeiras histórias sobre missões médicas em regiões destruídas. As mais impressionantes datavam de 1977, quando Pérez deixou o filho – na época um bebê de colo – e a mulher, a enfermeira Dolores Maria Padrón García, e partiu para a Líbia, no início da ditadura de Muammar Kadafi. O médico trabalhou durante a guerra entre Líbia e Egito. O pai contou ao garoto que, um dia, precisou sair do carro no meio de uma estrada para atender pessoas baleadas no chão. O menino ouvia admirado. “Quando meu pai retornou, eu o rechaçava. Não conhecia meu próprio pai, saía de perto. Depois a gente se reaproximou”, diz Sánchez, filho e neto de médicos.

Em 2002, no ano da formatura de Sánchez, seus pais estavam na África do Sul, num outro programa para médicos cubanos. Aos 50 anos, o pai morreu de infarto. “As histórias que ele me contava me marcaram. Ele ajudava todo mundo, todos o procuravam, e eu queria ter essa missão também”, conta Sánchez. Três anos depois de formado, ele ingressou na Brigada Médica Internacional Henry Reeve, integrada por médicos e outros profissionais de saúde que prestam ajuda médica humanitária em países assolados por pandemias, desastres naturais e guerras. No dia 8 de outubro de 2005, um terremoto deixou pelo menos 3 mil pessoas mortas no Paquistão, no Norte da Índia e no Afeganistão. Uma semana depois, Sánchez chegou ao Paquistão e foi direto para a cidade de  Mansehra, no Noroeste, uma das áreas mais atingidas. As casas estavam destruídas, tudo tinha virado poeira. 

Durante seis meses na região, atendia diariamente, até a noite, pessoas transfiguradas pelo desastre. Dormia numa barraca improvisada para os médicos. Quando voltava para casa, era sua filha, Amanda, quem não queria saber de proximidade com o pai. “Ela me rechaçava como eu fazia com meu pai”, recorda. Após quatro anos no Paquistão, Sánchez voltou para Cuba. Anos mais tarde, quando veio para o Brasil com a mulher, Amanda ficou em Cuba, sob os cuidados da avó. Era ilegal trazer a garota com eles. Só em 2017, quando Amanda veio passar férias na Bahia, os pais conseguiram visto permanente para ela. Martínez abandonou o programa e partiu com Amanda para Salvador, onde queria matriculá-la numa escola melhor.

O médico permaneceu em Novo Acre, distante da família mais uma vez, e fortaleceu a relação com os moradores do povoado. Até a chegada do cubano, os moradores precisavam partir para Iramaia ou municípios mais distantes, como Jequié, a três horas de distância, para conseguir atendimento. Em Novo Acre, era a primeira vez que os moradores podiam atravessar a rua de paralepípedo, entrar numa Unidade de Saúde de Família (USF) e ter a certeza de que seriam atendidos. Era comum o médico visitar a casa de algum doente, mesmo fora do expediente, para saber como ele estava e tranquilizar a família. Era recebido com café e bolo. Quando o cubano foi embora, nas despedidas realizadas em Novo Acre e Piraí do Norte, foi um chororô.

Às 14 horas do dia 14 de dezembro de 2014, Genidalva Somes Santos, 30, seguia aos solavancos numa ambulância, com a madrinha, Damiana, de Novo Acre até Jequié. Larissa, sua primeira filha, iria nascer. Ao chegar num hospital da cidade, foi colocada numa maca e ficou ali por três dias. A pressão arterial alcançou 18 por 10 – o normal, na idade de Santos, é 12 por 8 –, e ela desmaiou. Quando acordou, a filha havia nascido, mas estava à beira da morte, entubada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O parto aconteceu com a mãe completamente desacordada, e Larissa, depois de seis paradas respiratórias, ficou 45 dias mantida por aparelhos. “Foi erro médico, eu e minha filha estávamos quase mortas. Ficam dizendo para eu processar, não sei o quê, mas eu sou pobre, quem vai ligar?”, lamenta.

No dia seguinte à chegada das duas a Novo Acre, Sánchez bateu à porta da mãe de primeira viagem, auscultou a bebezinha miúda deitada numa cama e fez recomendações, como qual leite poderia dar à menina, caso faltasse o materno. “Foi o único médico que nos deu atenção. Pode perguntar aqui na praça sobre doutor Edgar, os velhinhos caem no choro”, conta. Um mês depois da partida de Sánchez, um médico brasileiro foi convocado. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, existem 12.258 médicos no Programa Mais Médicos, distribuídos em 3.465 municípios.

Mesmo após a partida do “doutor Edgar”, como todo o povoado chama o médico cubano, Santos ainda recorre a ele. Quando a filha, que tem problemas respiratórios, apresenta qualquer problema, a mãe telefona para o médico. Em junho, quando a temperatura começa a cair e a fogueira em homenagem a São João queima nas calçadas, os pulmões de Larissa reclamam mais. No ano passado, atearam fogo perto do Rio do Jiquy, atrás da casa da família, e a criança começou a passar mal. Às 23 horas, respirava com esforço. A mãe ligou para Sánchez no meio da noite. “Ele me explicou o que eu precisava fazer, e ela melhorou. De manhãzinha, o médico ligou perguntando se ela estava bem”, relembra. “Ele me atende de longe, sem reclamar, e sempre que ela sente algo eu ligo”, continua.

Sánchez almoçava diariamente na casa da aposentada Leone Alves da Silva, 60. Às vezes, chamavam às pressas o médico no meio da refeição. A própria aposentada, com dores recorrentes de cabeça devido a um acidente de ônibus sofrido em 1981, recorria com frequência ao “doutor Edgar”. Seu marido, Rafael Costa Souza, 70, hipertenso, também era paciente de Sánchez e sente falta do amigo e médico. “Hoje eu disse que ia dar entrevista para falar de doutor Edgar e ficou todo mundo aqui achando que ele vinha para Jiquy. Ficou todo mundo meio órfão”, contou Silva, por telefone.

Quando deixou o Mais Médicos e se mudou para Salvador, vindo de Piraí do Norte, Sánchez ficou desempregado. Ele e a família passaram a viver das economias que fizeram durante os anos no programa. “A gente não tem oportunidade”, lamenta Martínez, referindo-se à demora para aplicação do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas (Revalida). Desde 2017, a prova criada pelos Ministérios da Educação e da Saúde para reconhecer diplomas emitidos em instituições estrangeiras não é aplicada. “O problema é que não fazem a prova. Se fizessem, passaríamos”, completa Sánchez. Amanda saiu do colégio onde estudava, pois os pais já não podiam arcar com a mensalidade. Um amigo baiano conseguiu para ela uma bolsa de estudos em outra unidade. A jovem está no último ano do Ensino Médio.

Sem opção de emprego, o casal decidiu trabalhar com terapias holísticas e alternativas, que estudaram ainda em Cuba. Com ajuda de um casal de amigos baianos, começaram a conseguir pacientes para massagens e sessões de acupuntura. No início, os pacientes eram atendidos na cadeira ou numa cama, dentro de casa, pois os médicos cubanos não tinham maca própria. Há cinco meses, abriram o próprio consultório, numa sala no terceiro andar de um prédio comercial no Centro de Salvador. Só conseguiram o local porque o padre da igreja que passaram a frequentar ofereceu o ponto, que estava fechado. “Uma pessoa incrível, que ouviu nossa história e quis ajudar”, elogia Sánchez.

No dia a dia, Sánchez atende principalmente pacientes com dores na lombar causadas pelo estresses. Os nós musculares nas costas são desfeitos um a um pelo mesmo médico que, no Paquistão, atendeu pacientes com mãos e pés decepados. Depois de uma tarde sem trabalho, no dia 18 de março, Sánchez disse que a medicina preventiva não tem tido muito espaço no Brasil. “Não posso olhar o paciente só como patologia, mas como um ser, saber onde ele mora, como mora, quantas janelas a casa tem, quantos moram com ele”, listou. No WhatsApp, acompanha um grupo de mais de cem médicos cubanos que permaneceram no país. Dos quatro conterrâneos mais próximos, uma está desempregada, outra trabalha como balconista de uma farmácia e duas como cuidadoras de idosos.

Desde a saída dos cubanos do Mais Médicos, eles acompanham as possibilidades de retornar ao trabalho. No dia 18 de dezembro do ano passado, quando Sánchez e Martínez tinham um mês no consultório, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que cria o programa Médicos pelo Brasil, que substituirá o Mais Médicos. Até todas as 18 mil vagas do projeto serem ocupadas e os contratos anteriores serem finalizados, os programas coexistirão. Depois de tantas indefinições, Sánchez oscila entre a esperança e o realismo. Ele e a família querem continuar no Brasil.  “Estamos prontos para atender pacientes com coronavírus, mas talvez seja só mais um edital no qual não poderemos estar”, concluiu Sánchez. Enquanto isso, no quarto dele, num apartamento no bairro Dois de Julho, uma maleta marrom guarda, fechada, o estetoscópio e outros  equipamentos médicos. Pendurado no guarda-roupa, o jaleco branco espera. 

Fernanda Santana (siga @fernandasalima no Twitter)

Fernanda Santana é jornalista em Salvador

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