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Alien na Terra do Nunca

O documentário nos revela sem querer as metamorfoses provocadas pelo grau máximo da celebridade; como vai sendo empurrado em direção a uma atmosfera mental incapaz de sustentar vida humana.

João Moreira Salles
A vida dos mamíferos
A vida dos mamíferos

13.Fev.2003 | Nesta última semana, a TV inglesa pôs no ar dois dos mais memoráveis programas dos últimos tempos. O primeiro deles – , uma série de dez programas dirigida pelo grande naturalista David Attenborrough – teve seu último episódio exibido pela BBC na quarta-feira passada. É a mais linda série sobre animais a que já assisti. Escreverei sobre ela em outra ocasião.

Como o mundo inteiro sabe, o segundo programa é a entrevista com Michael Jackson. Igualmente memorável, mas por razões bem diferentes. Trata-se de um programa-tablóide travestido de perfil da New Yorker. A cinematografia é cuidadosíssima, toda em película; a trilha sonora é caprichada e alterna música originalmente composta para a ocasião com as grandes canções da década de 80 de Michael Jackson; a produção é rica, fazendo crer que os homens que administram o orçamento da Granada (que produziu o programa) e o da ITV (que o exibiu) sabiam estar com ouro nas mãos – não cabia economizar custos. Estavam certos. Venderam o tablóide eletrônico para a TV americana por 5,5 milhões de dólares. O programa começa em Los Angeles, depois vai a Las Vegas, em seguida a Berlim e por fim retorna a Los Angeles, precisamente à propriedade de Jackson: Neverland, a Terra do Nunca.

Lady Di de ponta-cabeça

O jornalista Martin Bashir acompanhou Jackson ao longo de oito meses. Cada vez que o cantor o chamava, Bashir largava tudo, pegava um avião, cruzava o Atlântico e ia ao encontro do seu personagem. Apesar de estar a meio mundo de distância, nunca o deixou esperando mais de 24 horas. Esse jeito disponível de ser é um dos trunfos de Bashir, um homem de 38 anos de ascendência indiana com a cara bonachona daquele amigo que faz falta quando não vai à pelada, não porque jogue bem (não joga), mas porque é um bom camarada, sempre disposto a ir para o gol e a rir das más piadas. Na Inglaterra, ele detém o monopólio das entrevistas com celebridades de acesso impossível. Com seu ar de bom moço, aproxima-se, ganha confiança e triunfa onde a concorrência fracassa. Foi para Bashir que a princesa Diana confessou ter cometido adultério com um oficial da cavalaria. Na mesma conversa, com uma única frase, Lady Di deu uma célebre chave de braço na casa real britânica. Com voz sentida, declarou que apesar de não ser mais a princesa de fato dos ingleses permaneceria para sempre a princesa dos seus corações. E levando o lencinho rendado ao olho, acrescentou, num golpe de mestre: "Quanto a isso, o palácio de Buckingham não pode fazer nada". Pronto. Foi o que bastou para transformá-la em vítima da inveja palaciana. A célebre entrevista de 95 fez de Bashir um homem famoso, e de Diana, uma mártir em olor de santidade. Bashir convenceu Jackson a aceitar a entrevista com o argumento de que "Eu sou o homem que virou de ponta-cabeça a vida de Lady Di". Michael Jackson acreditou.



O programa, intitulado Vivendo com Michael Jackson (leia-se: Como Michael Jackson é capaz de viver na presença de alguém tão estranho quanto Michael Jackson?), começa com os portões da Terra do Nunca se abrindo. Bashir, a bordo de um carro conversível, entra na propriedade e o espectador rapidamente percebe que é prudente deixar todas as noções de normalidade do lado de fora. Como descrever Neverland? Talvez assim: Neverland é o Paraíso antes da maçã de Eva – caso você tenha menos de doze anos de idade. A gigantesca propriedade de Michael Jackson é uma utopia pré-adolescente. Há montanha-russa, trem com locomotiva, roda-gigante, carrinho de corrida, zoológico completo e carrossel clássico, desses que aparecem em filmes sobre a Guerra Fria rodados em capitais da Europa Central. Há barraquinhas de refrigerante e de sorvete. Michael Jackson aponta os diversos sabores e, indeciso, diz com voz lânguida: "Quero esse. Não, não, quero esse outro. Não, esse. Aquele". Quer todos, não quer nenhum. Quer um parque aquático completo. Mostra uma montanha no horizonte e avisa excitado: "Vou construir um parque aquático do outro lado daquela montanha". Esta é a primeira revelação do programa: Michael Jackson pensa e age como uma criança de cinco anos a quem ainda falta o princípio de realidade.

É possível estranhar a idade mental, mas não a desmesura. Deve-se levar em conta que Jackson possui dois predicados capazes de provocar curto-circuito em qualquer senso de medida. De um lado, o carisma, cuja natureza descomunal é flagrada profusamente ao longo do programa: cada vez que Jackson põe o pé na rua o mundo pára. As pessoas o querem, o desejam, gritam, esperneiam, choram convulsivamente. O segundo predicado é a fortuna. Aos 12 anos, cantando pelo Jackson Five já recebia cheques mensais de 200 mil dólares. Pressionado por Bashir, Jackson confessa ter mais de 1 bilhão de dólares. Mesmo que não vendesse mais um só disco até o fim da vida, a aplicação conservadora dessa fortuna lhe traria 42 milhões de dólares por ano, 117 mil dólares por dia. Com esse dinheiro, nada que venha a desejar está fora do seu alcance.

Ora, se na rua Jackson é tratado como um semideus, se no banco é reconhecido como uma das poucas pessoas do planeta a possuir mais de 1 bilhão de dólares, não há de fato princípio algum que freie sua realidade. O que Jackson deseja, Jackson tem – contanto, é claro, que seu desejo possa ser expresso em dólares.

Uma das seqüências mais incômodas do programa mostra-o numa loja de decorações em Las Vegas. (Mesmo quem não assistiu ao programa pode imaginar o que seja uma loja de decorações em Las Vegas. Pois é lá que Jackson decora suas casas.) A seqüência incomoda porque nela Bashir estimula a excentricidade de Jackson, transformando-o em personagem de circo de variedades. Como se a escolha ainda fosse entre sabores de sorvete, Jackson aponta os objetos – vasos, lustres, globos, estátuas, quadros – desejando-os a todos: "Quero isso, e isso aqui também, e aquilo ali, e mais aquilo lá…" Não devota mais de cinco segundos de atenção a nenhum objeto comprado. Sua voz entediada se arrasta numa longa cauda de iis a cada "I want thiiiiiiiis….". Jackson não precisa fazer escolhas – nunca teve de dizer "quero isto ao invés daquilo". Nada do que possui decorre de demoradas deliberações. Nenhum objeto ocupa o lugar de outro que teve de ser deixado para trás. Tudo se equivale, não só do ponto de vista financeiro (Jackson não faz contas), mas também afetivo. O resultado disso é que Jackson está mergulhado num bizarro sistema mental em que prevalece a entropia. Como todo sistema entrópico, o seu também é extraordinariamente monótono.

Capela Sisitina em Las Vegas

Com indisfarçável prazer, Bashir caminha atrás de Jackson anunciando o preço de cada objeto. Um par de vasos comprado com um aceno desinteressado da mão custa 270 mil dólares. Bashir confirma o valor com o gerente da loja. Ficamos sabendo que 270 mil dólares diz respeito ao preço unitário dos vasos. O par custa mais de meio milhão de dólares. O objeto mais barato que Jackson compra custa 87 mil dólares. (Tentando evitar o uso repetido do verbo custar, quase o substituí pelo verbo valer na última frase. Depois me dei conta de que não. É evidente que nada vale o que Michael Jackson paga. Os objetos que compra, sem exceção, são cópias. Estamos em Las Vegas.) No programa, a seqüência ocupa pelo menos três minutos. Nela, a cada fração de segundo Jackson adquire mais coisas. Segundo a imprensa inglesa, é provável que tenha gastado mais de 6 milhões de dólares. É direito dele. Achar que não é baixo puritanismo ou hipocrisia indisfarçável – evidente no caso de Bashir, um homem cuja carreira não existiria sem o comportamento errático das celebridades. O que impressiona e incomoda é a certeza de que, dado o alheamento afetivo de Jackson, possivelmente ele não reconhecerá os objetos quando chegarem à sua casa. Se chegarem. Jackson foi às compras para matar o tempo. Podia igualmente ter passado a tarde alimentando sua girafa com notas de mil dólares.

Jackson gosta de Las Vegas. Quando lhe dá vontade, parte da Terra do Nunca para uma temporada de mais solidão em sete suítes do hotel Four Seasons. Espalha pelo quarto estátuas em tamanho natural de velhos que fazem caretas. Em um canto, instala um imenso jogo eletrônico próprio a um fliperama de shopping center. Tem à mão uma cadeira motorizada para passear de madrugada pelos corredores vazios do hotel. De dia, além de fazer compras, gosta de visitar os pontos turísticos da cidade. Um dos aspectos mais cruéis de Vivendo com Michael Jackson é o fato de ele ter se deixado enfeitiçar pelo aparente bom-mocismo de Bashir. É inegável que passou a tratá-lo como amigo. Bashir sorri, afaga, seduz, trata-o de gênio. (Sobre isso, aliás: numa seqüência em que ensina Bashir a dançar, vemos do que Michael Jackson é capaz. Se há gênios no universo pop, ele é um deles. Mas é claro que isso não interessa a Bashir.) Jackson quer mostrar a seu novo amigo tudo o que admira. Chama-lhe a atenção para a beleza do teto de um shopping. É a reprodução da capela Sistina. "Olhe! Olhe! Não é lindo? Você gosta?", pergunta, genuinamente ansioso. Em um cassino, embevecido, mostra as pirâmides do Egito. Vai até uma loja onde exibe o sarcófago de Tutankamon que acabou de adquirir. É uma cópia em ouro. Jackson paga caro por cópias. Não ficamos sabendo se conhece os originais. (Não houvesse o risco de estarmos na perigosa vizinhança da palavra simulacro, endereço oficial de pensadores franceses vagamente embusteiros, seria o caso de dizer que Jackson já não faz diferença entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre original e cópia. O que pode bem ser verdade, não obstante os textos pós-modernos que dizem exatamente isso.)

O interesse do programa de Bashir não reside nas revelações, ou não-revelações, sobre pedofilia. É difícil saber se Jackson está sendo sincero quando diz que cede sua cama às crianças movido por sentimentos de carinho e de gentileza. Acho que sim, mas isso é apenas uma impressão. Seja como for, trata-se de assunto penoso a ser resolvido pelas partes envolvidas. Fora disso, é apenas alimento para jornalistas como Bashir. No máximo, revela um pouco da sordidez que pode cercar uma pessoa famosa. O amiguinho de doze anos de Jackson responde a uma pergunta de Bashir dizendo que não, sua mãe não fica preocupada cada vez que ele passa a noite na casa de Michael Jackson; muito pelo contrário, fica até bastante feliz. É claro, pensamos nós com nossos botões: em pouco tempo poderá processá-lo.

"Eu sou Peter Pan"

Vivendo com Michael Jackson acerta num alvo muito mais raro, que decerto Bashir não mirou. Sem querer ele nos revela, como nunca, as metamorfoses provocadas pelo grau máximo da celebridade; a maneira como alguém, por excesso de tudo – de fama, de dinheiro, de sucesso e de talento – vai sendo empurrado para fora do espaço psicológico onde todos nós vivemos, em direção a uma atmosfera mental incapaz de sustentar vida humana. Michael Jackson entrou em órbita. Foi para outro lugar.

Num sinistro processo de reificação que decerto agradará ao eventual marxista que ainda ande por aí, Jackson virou coisa. Foi consumido até a morte. Em Berlim – na mesma noite em que balança o filho recém-nascido pela janela do hotel (Bashir estava dentro do quarto, filmando) – Jackson decide ir a um restaurante. É o pandemônio. Carros avançam pela contramão, pessoas se atiram sobre veículos apostando numa trombada com o ídolo, imitadores reproduzem seus passos em meio ao trânsito caótico na esperança de serem vistos por Jackson. As poucas pessoas que conseguem se aproximar pedem que ele as abrace. Quando são atendidas, atiram-se no chão, entram em choque, choram convulsivamente. A maioria sequer era nascida na época em que Jackson vendeu cem milhões de cópias do disco Thriller. Não importa. Gostam do artista, mas são devotas da celebridade. Hoje a grande função de Jackson é se deixar tocar pelas pessoas. Ele tenta convencer Bashir de que ocupa as madrugadas nas suítes desertas do Four Seasons compondo, mas não ouvimos um acorde sequer, nem um só verso. Sua profissão é ser pop-star. É o maior de todos. Ninguém se lhe compara. Jackson vive da idolatria. Do consumo do personagem que criou para si mesmo e no qual se transformou.

A face morta e atemporal

Sua propriedade é repleta de imagens de Peter Pan. Bashir pergunta por quê. Jackson responde: "Porque eu sou Peter Pan". Parece loucura, e é mesmo, mas o extraordinário é que com Jackson a maluquice parece ter surtido efeito. Ele fala como uma criança. Seu mundo é eminentemente infantil. Tudo o que o cerca só pode fazer sentido para quem tem menos de doze anos. A certa altura do programa, espantado com o que vê, o jornalista diz a Jackson: "Mas você tem 44 anos de idade…". Um dos amiguinhos do cantor interrompe Bashir, cortando a frase no meio. "Não, ele tem quatro ". Jackson concorda e repete, num sussurro de grande tristeza: "Eu tenho quatro anos". Toda a inacreditável seqüência de Berlim – o balanço do filho na janela, a perseguição pelas ruas, uma ida desastrosa ao zoológico – só existe porque Jackson estava na cidade para receber o Bambi Awards, um prêmio que lhe fora concedido por serviços prestados à infância. Sua excentricidade é tamanha que talvez não saísse de casa para receber um Grammy. Mas não hesita em viajar meio mundo para receber um Bambi. Em Neverland, seu programa predileto é subir nas árvores. Ficamos sabendo que compôs algumas de suas melhores canções no alto de uma delas. Instado por Bashir, sobe com surpreendente agilidade até o topo de sua árvore predileta. Fica lá em cima vendo o tempo passar.

Como certos animais domésticos incapazes de procriar, Jackson lembra que, quando ainda não era pai, andava pela casa carregando bonecas no colo, tamanha falta lhe fazia um filho. "Se alguém me dissesse: 'Michael, não existem mais crianças no mundo, morreram todas', não tenho dúvida de que me atirava pela janela na mesma hora", confessa.

No entanto, é preciso olhar seu rosto para entender Michael Jackson. Lá estão estampados tanto a sua obsessão – permanecer jovem – como o seu drama – ter virado coisa. Desde criança, Jackson mantém uma relação doentia com sua face. Não se olhava no espelho. O pai caçoava do tamanho do seu nariz. As fãs se espantavam com a acne. Quando Bashir avisa que chegou a hora de falar sobre o assunto, Jackson exige que a cena seja iluminada por seu fotógrafo pessoal. É o único momento em que interfere no programa. Ninguém em sã consciência pode olhar para aquela máscara e dizer que por trás esconde-se um homem de meia-idade. Nisso, Jackson teve sucesso. Desumanizou sua face a ponto de afastá-la das garras do tempo. Sua expressão é quase nenhuma. Os olhos não riem, a boca não abre. O lábio superior está inteiramente paralisado. A voz que escapa é suave, às vezes lânguida, às vezes gentil, jamais brusca, porém sempre, sempre cansada.

É claro que essa estratégia desesperada tem duração limitada. Em breve, o tempo alcançará Jackson. Mas é provável que seu rosto seja afetado de maneira peculiar. Boa parte dele envelhecerá inorganicamente, como envelhecem os objetos inanimados. À moda do retrato de Dorian Gray, Jackson tenta preservar a juventude sem perceber que, em outros lugares, o tempo vai fazendo seu serviço. No programa, cada vez que leva as mãos até o rosto produz-se o mal-estar de um paradoxo: os dedos são vivos e maduros, a face é morta e atemporal.

Com seus cabelos lisos e negros de Iracema e seus uniformes de soldado do Quebra-Nozes, Michael Jackson caminha solitário pelos jardins da Terra do Nunca embaixo de um enorme guarda-chuva que o protege do sol. Lembra uma gueixa. Bashir se despede e deixa para trás os imensos portões de ferro da propriedade, decerto polindo mentalmente os adjetivos que usará mais tarde na narração em off: vida bizarra, atitude estranha, lado escuro, comportamento alarmante. Voltando a fita duas ou três vezes, consegue-se ler duas divisas sobre o brasão de ouro que orna o gradil: Dieu et mon droit e Honi soit qui mal y pense. São sentenças que aparecem nas armas dos soberanos da Inglaterra. Acompanham a monarquia até hoje, mas foram criadas para uma época em que reis e rainhas tinham parte com o além.

A primeira divisa diz: Deus e meu direito. Pode ser lida como uma afirmação de excepcionalidade. As minhas leis e as de Deus, apenas.

A segunda divisa proclama: Vergonha àqueles que pensarem mal disto. Martin Bashir não a leu.

Fim

A rede HMV anunciou que desde a exibição do programa as vendas do disco Thriller aumentaram 500%. As da coleção completa dos CD's de Michael Jackson, 1000%.

João Moreira Salles

Documentarista, é editor fundador da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros