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Ao seu dispor

A arte de satisfazer um cliente acalorado e esfomeado

Ventiladores de teto já não são capazes de dissipar o bafo das noites de outubro em Ribeirão Preto. Talvez Al Gore saiba explicar o porquê. Talvez não. Para a jovem, o que importa é que a luta contra o aquecimento global na cidade paulista, começa em uma tulipa de chope gelado. Escolhe como destino o bar mais tradicional do município.

Trata-se de um boteco chique que funciona desde 1936 num imponente edifício de fachada bege e branca e nome complicado – Diederichsen. Ela entra meio descrente, pois o nome Choperia Pingüim não condiz com o calor que sente, nem com o que marca o termômetro da praça: 32º C às 9 da noite.

Sobe o degrau de mármore que separa o bar da calçada da rua e, por instantes, busca uma mesa onde se sentar. Ao fundo, vê um chope claro que salta de uma bandeja e aterrissa sob um pano esverdeado. Um homem grisalho, de óculos finos e avental preto até os pés sorri em sua direção e avisa: "Viu só? Ele já está a sua espera!".

Por um momento, a jovem pensa que ele fala com outra pessoa. Chega a olhar para trás. Mas não. O garçom realmente se dirigia a ela, uma desconhecida, com um bom humor impecável. "Ótimo! Ele lê pensamentos", disse para si mesma, enquanto via o homem puxar a cadeira em que se sentaria segundos depois.

De pé ao seu lado, ela percorre o corpo do indivíduo para tentar entender o avental preto que arrasta no chão. Desiste quando repara que veste sob ele uma camisa branca de manga comprida, um jaleco preto apertado, uma calça ligeiramente brilhosa e um laço de vaqueiro atado no pescoço. Se o termômetro da praça encostasse nele, o mercúrio atingiria 40º C, mas ali estava o garçom, sorrindo.

Para puxar papo, diz que tem fome. Que, apesar da hora, ainda não havia almoçado. Ele, então, fecha a cara e diz preocupado: "Não pode beber sem comer, menina. Seu estômago vai ficar ressentido". Gira o corpo apoiado em um dos calcanhares e alcança o cardápio na mesa ao lado. "Pronto. Escolhe aqui qualquer coisa", implora, em tom paternal.

Ela se decide por um prato de carne, e ele promete acelerar o cozinheiro. Pretende trazer a refeição antes que ela pense na segunda tulipa de chope – o que significa em menos de três ou quatro goles.

Afasta-se, deslizando pelo chão branco e preto, que mais parece um grande tabuleiro de xadrez. Em instantes, se mistura a outros garçons parecidos a ele. A jovem, então, se dá conta de que o staff da casa é integralmente composto por senhores de mais de 40, quiçá 50 anos. Ao fundo, perto do banheiro feminino, nota que o gerente observa a movimentação de seus peões, sustentando o queixo com a mão. Sorri e dá ordens como um rei. Parece contente com a atuação de todos.

O jantar dela voa pelo salão numa bandeja sem asas. Junto ao prato, seu garçom traz o segundo chope. "Vou trocar seu copo porque esse daí já está quente", explica com a certeza de quem sabe do que está falando. Ela agradece e se entrega à comida. Na televisão pregada no teto, alguma partida de futebol diverte a plebe. Para ela, o drible mais interessante é o que o garçom faz a cada dois minutos, carregando uma bandeja com mais de dez tulipas.

Sai do bar, pára na primeira mesa à direita, salta a segunda, pára na terceira e na quarta. Troca copos quentes por copos frios em todas elas. Entra na segunda fila. Recolhe dois chopes velhos e planta outros dois na frente dos clientes. Joga a bandeja vazia para cima como se fosse massa de pizza e a coloca debaixo do braço. Parte para a próxima rodada.

É a vez dela e ele sorri quando vê que conseguiu dar cabo no que havia no prato. "Agora já pode beber em paz", comenta. Coloca mais um chope ao alcance de sua mão. Dá três passos em direção ao bar, onde agarraria mais uma bandeja, mas decide voltar. "Posso trazer para a moça um pudim de leite?". Ela aceita a sugestão como um fiel que segue seu pastor e fica feliz porque, desta vez, a chama de moça. A menina já ficou para trás.

Junto ao doce, traz a conta. No total, R$ 46,50, já incluída a gorjeta de R$ 4,65. Ela sente que merece mais, e, para mitigar a sensação de injustiça, faz um "x" na nota fiscal ao lado da opção que classifica o atendimento como "muito bom". Foi mesmo.

O garçom se aproxima novamente, talvez pela última vez. Limpa a mesa, recebe o valor devido e sorri de novo. Surpreendentemente não sua. Ao ver o "x" azul-Bic, agradece com um aceno humilde de cabeça e se vai. "Ei, por favor, qual o nome do senhor?", pergunta a jovem de longe, achando que ele já não a ouviria. "Celso, ao seu disporrrr", responde o melhor garçom do mundo.

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