só no site

Derrocada

Que ao menos não se confunda a cidade com o locutor

Denise Mirás

Não deu para o prefeito – ou coronel, como preferem seus opositores. "Coronel, não! General! E general-de-exército!", esbravejava o próprio, fincando cada palavra com o dedo indicador no tampo da mesa de seu gabinete. A garganta de Jair Asbahr, prefeito de Bueno Brandão, cidade de 11 mil habitantes no sul de Minas Gerais, ainda tonitroava na manhã de domingo. No fim da tarde, viraria um fiozinho. O auto-proclamado-general-de-exército acabava de sofrer, talvez, a sua maior derrota política.

Asbahr vinha se dedicando com afinco a uma grande empreitada de sua vida pública. Tinha o sonho de rebatizar Bueno Brandão, idéia, segundo ele, fundamentada em razões "histórico-sentimentais": até 1938, a região se chamava Campo Místico. Foi rebatizada em homenagem a Júlio Bueno Brandão, senador e vice-governador de Minas Gerais na ditadura Vargas. O problema era que o homem jamais tinha posto os pés naquelas terras. Além disso, argumentava Asbahr, a mudança traria "benefícios de marketing": "Não ficarão mais trocando o nosso nome. A Globo já nos chamou de Bueno Galvão; a Folha, de Brandão Bueno e de Bueno Beltrão". A humilhação suprema veio no dia em que um órgão de imprensa chamou a cidade de Galvão Bueno.

Irritado com o descaso, Asbahr mergulhou na legislação eleitoral e descobriu uma filigrana jurídica que o fez sorrir. Como a troca de nome ocorrera de cima para baixo, sem consulta à população, era possível invocar a figura da "imposição". Havendo sido imposto, o nome Bueno Brandão podia ser contestado. Com o aval do estado de Minas Gerais, seria convocado um plebiscito, para que a população se manifestasse. Cravou-se a data: 8 de julho de 2007, sete décadas depois do segundo batismo.

A consulta ao povo seguiu as normas de qualquer eleição: foi autorizada pelo TRE, que convocou os mesários e instalou urnas eletrônicas nas zonas eleitorais da cidade. Até horário eleitoral gratuito houve. Os partidários de Campo Místico levaram seus programas ao ar pela TV Estância, retransmissora da TV Cultura. Malandros, ainda fizeram campanha pela rádio Indy 950 (de propriedade do prefeito), veículo de comunicação muito mais prestigiado pela população rural. A estratégia indicava grande sabedoria. Era praticamente invencível. Foi preciso que o comitê pela manutenção do nome Bueno Brandão entrasse na Justiça para obter o mesmo direito. Conseguiram apenas a transmissão radiofônica.



Houve panfletagem discreta, com santinhos distribuídos parcimoniosamente para economizar papel. Camisetas também foram raras. O custo maior foi com o aluguel dos carros de som – no caso, fuscas com alto-falantes. Algo ainda se investiu na confecção de uma pequena quantidade de adesivos, a maioria com os dizeres "Por Campo Místico, Vote 01". Asbahr nega que tenha feito uso da máquina da prefeitura.

No domingo da decisão, os partidários do prefeito se mostravam ressabiados. Não fora possível encomendar uma sólida pesquisa de opinião, nem mesmo uma menos dispendiosa consulta de boca de urna, mas cidade pequena, sabe como é, já dava para sentir o clima. E o clima não era bom. Ainda restava a votação do pessoal da roça, que só chegaria depois do almoço para votar (na verdade, principalmente para passear na praça). O prefeito calculou mal. Era principalmente a população rural que percebera a razão mais sólida para não compactuar com o reformismo. Temiam que o velho nome casasse perfeitamente com a ambição do prefeito de aumentar o movimento na sua estalagem, o Hotel Campo Místico.

Bueno Brandão ganhou em todas as 22 zonas eleitorais. Dos 8 194 eleitores inscritos, votaram 6 646 pessoas; 4 207 disseram não, quase o dobro do sim. Houve 317 votos nulos e 70 em branco. O peremptório ex-general se irritou, mas é inegável que o resultado trouxe grande alívio aos donos do Café Bueno Brandão, dos Móveis Bueno Brandão, da Funerária Bueno Brandão e da Cachaça Bueno Brandão.

Denise Mirás

Denise Mirás é jornalista baseada em São Paulo.