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Seção 46

O outro lado do balcão eleitoral

| Edição 50, Novembro 2010

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Jovem atravessando o deserto urbano dominical entre seis e sete horas da manhã, com ar compenetrado, pode apostar: é mesário. Em São Paulo, no domingo 3 de outubro, foram mais de 114 mil que amanheceram nos 1875 locais de votação da capital com documentos de convocação debaixo do braço.

Gustavo Salgueiro Ribeiro, de 26 anos, que presidia a Seção 46 da 259ª Zona Eleitoral, era um deles. Numa saleta do Colégio Nossa Senhora do Rosário, no bairro da Vila Mariana, Zona Sul paulistana, ele iniciou o ritual preparatório imprimindo a lista de presidenciáveis e de todos os 2438 candidatos a deputado federal, deputado estadual, senador e governador aprovados pelo tre paulista.

Era a terceira encarnação de Gustavo como mesário e, como ele mesmo garante, não há fé na cidadania que aguente quatro plantões. Da próxima vez, se não estiver duro, arcará com a multa de 350 reais por não-comparecimento. Desempregado, aluno de nada e com histórico de dois noivados no vinagre, Gustavo se arrumara recentemente com uma nova namorada e era com ela que passara a noite da véspera. Não tinha pregado o olho um minuto. Ainda assim, ali estava ele, prova viva de que excesso nenhum (o dele havia sido ardoroso) é desculpa para o descumprimento das nossas obrigações cíveis.

Com mais experiência e menos cargo, Mário Filho, o primeiro-mesário, colega de outras eleições, estava feliz com a quinta convocação. Bem-humorado, enérgico, ele é dono de uma loja de artigos podológicos e ortopédicos e acha honrosa a incumbência cidadã. Hierarquicamente abaixo dos dois, a primeira-secretária Mariane Pelegrino, 19, estagiária do Ibovespa, e a segunda-mesária, Simone Muniz Barreto Silva, 25, funcionária do setor de tomografia de um laboratório de medicina diagnóstica, eram ambas estreantes na função. Como Mário, estavam achando “edificante”.

Zelosos todos, deixaram tudo nos conformes antes da chegada do primeiro eleitor. Três carteiras escolares foram ocupadas pelo trio responsável por conferir a identidade dos votantes e, em seguida, digitar o registro eleitoral do cidadão numa máquina que acionaria, na urna, a cédula digital de cada um. Cumpria à mesária sobrante ficar parada na porta e administrar o tráfego de eleitores.

O Tribunal Superior Eleitoral oferece um manual de 29 páginas a seus funcionários de ocasião, no qual se esclarece a função de cada integrante das Mesas Receptoras de Voto. Exemplo: o presidente não deve se submeter às ordens de um segundo-mesário e este, por sua vez, jamais pode se dar ao desfrute de executar as empreitadas do primeiro-mesário. Na prática, a coisa não é bem assim. Tome-se a 46ª: eivada de admirável espírito socializante, os funcionários da Mesa se revezavam nas funções sem que isso causasse distúrbio ou anarquia. Viu-se presidente recebendo eleitor na porta, primeiro-secretário procurando nome de cidadão num dos dois cadernos de votação, segundo-mesário pedindo assinatura de votante, primeiro-mesário conferindo em voz alta registros eleitorais e – nada mais ousado – segundo-secretário dizendo “pode votar” ao conferir que a cédula eletrônica do eleitor fora habilitada.

Entre as 418.748 seções eleitorais da capital, a 46ª  tem a seguinte característica: as 417 pessoas que votam ali são, na maioria, idosos e de descendência japonesa, o que poderia suscitar lentidão. Pois que nada. Quase todos os eleitores fizeram a sua parte e, com rapidez e eficiência, contribuíram para fazer do espetáculo da democracia algo ainda mais espetacular.

Exceções, houve. Quando um senhor alto, magro e calvo foi para a urna acompanhado do filho ruivinho, e por lá ficou mais de três minutos, Gustavo suspirou: macaco velho, sabe que há sempre o inescapável momento de pedagogia cívica, quando pais usam a urna para transmitir aos eleitores do futuro as virtudes de uma sociedade democrática.

Quando criança, Gustavo foi diagnosticado que sofria de ataraxia, doença que, fiel à etimologia grega, mantém o paciente em um estado de ausência de medos, preocupações ou perturbações. Por destemer, o mesário tinha a face esquerda composta por uma placa de titânio, pois lutara “jiu-jitsu contra um cano de ferro cheio de cimento”. Há quatro meses, outro acidente: Mário caíra de um rapel e quebrara a coluna. Só não ficou paralítico por razões biologicamente intrigantes. “A minha medula não chega até o fim das costas, onde quebrou”, explicou.

Mas nem o mais ataráxico, autoconfiante, impetuoso e intrigante dos mesários ousaria ultrapassar a linha imaginária que separa o espaço comum da sala de seção do santuário do sufrágio. O mesariado é expressamente proibido de ajudar visualmente ou com as mãos qualquer eleitor que já tenha atravessado esta fronteira. Nas três vezes em que alguém não conseguiu se entender com a tecnologia, os operários do voto honraram a função. O assunto sempre começa tímido. “Moço, não tá dando aqui”, reclamou baixinho uma eleitora de bege. “Aperta o corrige”, sugeriu o primeiro-mesário, de sua máquina de acompanhamento. Pausa. “É o verde?”, ouviu-se. “Não, é o laranja.” Pausa. “Moço, não tá dando, tô te falando”, repetiu a cidadã. A questão se resolveu quando Mariane, a segunda-mesária, foi até o corredor chamar o filho da eleitora. Em menos de um minuto mãe e filho liberaram a urna.

Hora do almoço. Apesar dos seis quibes frios, cinco bombons e dois pacotes de Bis presenteados ao grupo por almas, essas sim, cidadãs, era preciso saciar a fome. Ignorando o intervalo de 40 minutos determinado para a função pelo Tribunal Superior Eleitoral, o presidente da Seção 46 decidiu que os seus subordinados teriam direito a duas horas inteiras. “Duas pessoas dão conta”, disse, e por duplas o eleitorado foi atendido durante quatro horas seguidas.

A Justiça Eleitoral oferece uma ajuda de 20 reais a cada convocado. Nesta eleição, com 400 mil cidadãos designados para a tarefa de mesário, a conta saiu por 82 milhões em notas de mico-leão-dourado.  Teria sido o investimento final, mas Serra surpreendeu Dilma, que foi surpreendida por Marina, que causou surpresa aos dois, para felicidade maior do primeiro (apenas Plínio não teve nem causou surpresa).  E o segundo turno, somente em mesários, sai por mais 30 milhões em cédulas de amarelo-ouro.

Com 302 votantes e 115 abstenções, encerrou-se às 17h02 o primeiro turno eleitoral na seção. Ao fim do expediente, constatou-se que 2254 candidatos precisam se esforçar mais para deixar de ser um traço. Apenas 184 postulantes aos cargos públicos mereceram pelo menos um voto dos 417 eleitores registrados na 46.