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Tem argentino no samba

Nem Perón, nem Maradona. Taxista portenho reza para Zeca Pagodinho

Carol Pires

Juan Vicente Ruperto estacionou seu Corsa Wagon na porta do Café Tortoni, em Buenos Aires. Desceu do carro com um sorriso e se apresentou: “Hola! Sou João da Silva Moreira, garoto de Ipanema.”

Ele gosta de praia e música brasileira, mas em Ipanema mesmo, nunca pisou. Argentino de nascimento, 47 anos, acredita que seu guia só pode ser um “neguinho malandro carioca”.

Juan Ruperto também ouve forró, música sertaneja e pagode, adora feijão com arroz, reza para Ogum, são Jorge e Nossa Senhora Aparecida. Acha que Elba Ramalho tem pernas lindas, e admira Sônia Braga por inteiro. Torce pelo Brasil e para o Flamengo. Não tem uma nega chamada Teresa, mas sonha com o dia em que encontrará a sua.

Taxista desde 1991 (exceto o período em que trabalhou como zelador), Juan arranha umas frases em português. “Fala aí, meu irmáo, tudo belêssa? Tudo certchinho? Tudo massa?”, diz, ao receber os passageiros brasileiros, que em seu carro podem passear da feira de San Telmo ao cemitério da Recoleta ao som de “Numa estrada dessa vida/ Eu te conheci/ Oh, Flor!”.

Juan Ruperto queria ser radialista e chegou a ter 500 fitas com gravações de música argentina. Hoje, faz do táxi sua estação particular. Quando um passageiro entra, ele saca de sua coletânea um dos 400 CDs de música brasileira, baixadas da internet.

Se a música não quebrar o gelo, ele batuca no volante e arrisca um refrão de pagode. Até o passageiro mais reservado sucumbe ao diálogo, abrindo uma brecha para Juan desfilar seu vasto repertório: Jorge Ben, Roberta Sá, Nando Reis, Paulinho da Viola, Alcione, Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Psirico, Olodum, Lulu Santos.

Para os cariocas, o rol de opções é infindável. Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Jorge Aragão, Marcelo D2. Zeca Pagodinho sempre encabeça essa lista. Juan também coleciona Limão com Mel, Magníficos, Garota Safada e Aviões do Forró.

Quando a clientela é paulista, Juan disfarça a apatia, e contra-ataca de Fresno ou Demônios da Garoa. “Os paulistas só pensam em trabalhar, se esquecem que também têm que sambar, beber, curtchir”, observa, repetindo um velho clichê muito manjado do lado de cá da fronteira.

Os vínculos do taxista com o Brasil são três. A bisavó materna era brasileira, motivo suficiente para explicar o que ele considera um desencontro carnal: “Meu corpo mora em Buenos Aires, mas minha cuca vive no Rio.”

Ele morou no Brasil entre 1980 e 1985, em Porto Alegre e Uruguaiana. Quando voltou, trouxe na mala três fitas, com Wando, Joana e Beth Carvalho. Em Buenos Aires, se especializou em samba assistindo pela tevê aos desfiles das escolas de samba e bailes do Scala Gay. Só de ver, garante que aprendeu a sambar.

Hoje, vive em um hotel em Buenos Aires, não tem televisão, nem carro próprio. Aluga o táxi por 280 pesos ao dia, e tem 200 de lucro, em média. Depois de pagar o aluguel do táxi, sobra dinheiro para comer, pagar o hotel e comprar cigarros. “Nunca juntei dinheiro”, diz, e logo muda de assunto, filosofando Zeca: “Se vou falar de tristeza, meu tempo não dá.”

Na seara amorosa, o taxista reforça seus laços com o Brasil. Em Porto Alegre, namorou uma gaúcha, Marta, “uma preta bonita”. Depois foi casado por vinte anos com Mariana, que conheceu dançando samba em uma festa em Buenos Aires, em 1988. Há três anos, surgiu Ednéia, uma curitibana fã de Sérgio Reis.

O affair começou com uma corrida. Levou Ednéia e uma amiga a uma festa a 20 quilômetros do Centro da cidade, mas ficou sem receber. “Vamos pensar num outro jeito de você me pagar”, ele disse. Ednéia pagou a conta com três animados anos ao som de Panela Velha e Pinga ni Mim.

O romance acabou há quatro meses porque ela era muito “materialista”, segundo Ruperto. “Eram 20 pesos para falar com a filha no Brasil, mais 30 para o sapateiro, e nem me pagava mais as corridas. No final do namoro, eu já estava dividindo metade do meu salário com ela. A mulher era uma máquina de comer dinheiro.”

Outro dia, ele teve uma recaída. A curitibana ligou pedindo dinheiro para um remédio. Saudoso, Juan a levou até a farmácia, mas logo bateu a ressaca moral de reviver aquele caro amor, e terminou de vez a relação. Ligou para ela e disse: “Para vos, João Vicente murió.” Segue solteiro e avisa que para as próximas candidatas, os pré-requisitos são: que seja carioca, que goste de Brahma, saiba cozinhar feijão e saiba sambar. “Se for preta, melhor ainda”, ele completa.

Para driblar a forte concorrência de um táxi para cada 77 habitantes – em São Paulo a média é de um para cada 351 pessoas –, aposta nos milhares de brasileiros que viajam à Argentina todo mês. Para isso, abriu uma conta no Orkut com o nome de “Juan Vicente, taxista dos brasileiros”, e atende por um e-mail que começa com “joãoordemeprogresso”.

Ele faz dez corridas por semana agendadas via internet. Calcula ter uns 100 clientes brasileiros fixos, a maioria estudantes residentes em Buenos Aires. Deles, Juan ganhou de presente uma bandeira e uma camisa da Seleção Brasileira que deixa vestida no encosto do banco do passageiro. Completam a decoração do carro dois bonés e uma corneta verde e amarela.

No início de 2010, Juan teve uma grande recompensa nas ruas da Recoleta. Parou ao sinal de duas senhoras, enquanto ouvia um CD de Zeca Pagodinho. Batucou um pouco de Deixa a Vida me Levar, e uma das passageiras se mostrou interessada. E ele: “Se eu gosto de Zeca?! Ele é o maior do mundo!”

Maior mesmo foi a coincidência. As duas eram amigas do sambista, ligaram para ele e o colocaram para falar com o taxista. “Sêca, Tudo bên, tudo xôia, tudo belêssa? Aqui fala Vicente, de Buenos Aires. Você ê meu ídolo!” Foi tudo o que conseguiu dizer, com o coração aos pulos. E ouviu como resposta: “Aí, Viceeente! Um abraaaço!” Foi a glória.

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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