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    IMAGEM: GIORGIA MASSETANI

teatro

Uma noite em cinco atos (fragmento)

Dois poetas atravessam a cidade escura

Alberto Martins | Edição 32, Maio 2009

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Do lado de fora da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, no centro de São Paulo, o poeta Zé Paulo Paes (1926-1998), manco de uma perna, caminha ao lado de Álvares de Azevedo (1831-1852), um rapaz branquelo, de uns 20 anos, que traz um lenço preto no pescoço e capa sobre os ombros. É noite. Pela primeira vez, Álvares de Azevedo se vê diante da “sinfonia do século” de que lhe falou Zé Paulo – a cidade imensa, ruidosa, inclassificável. As empenas dos edifícios se projetam para o alto, fantasmagóricas.

Álvares – Que cidade é essa? Podíamos estar no México, na Dinamarca… Podíamos estar em qualquer parte.

Zé Paulo – Mas não estamos. Estamos no centro de São Paulo, no antigo largo do Capim. Ou largo do Curso Jurídico. Você o conheceu bem. E o que você vê lá embaixo não é mais o ribeirão do Anhangabaú, nem do Chá, é uma avenida com ônibus, túneis e carros.

 

Álvares (espantado com a altura dos edifícios) – Mas por que essas formas?

Zé Paulo – É a cidade que o século XX construiu.

Álvares – E onde estão os cavalos?

 

Zé Paulo – Os cavalos?… Foram tragados pelo homem.

Álvares – Não sei se me agradaria viver aqui…

Zé Paulo – Não tem escolha.

 

Álvares – Para você talvez não, mas eu posso me retirar a qualquer momento…

Zé Paulo – Você acha?

Álvares – Não?

Zé Paulo – Não sei. Por experiência própria, digo que um poeta não tem muitas escolhas na vida.

Álvares – Agora está falando como poeta.

Zé Paulo – Então talvez eu esteja equivocado.

Álvares – Não há graça nenhuma nisso. (Pausa. Álvares lança os olhos ao redor.) E o que tem aí dentro?

Zé Paulo – Firmas, cofres, comércios, contrabandos, esconderijos… e escritórios de advocacia.

Álvares (tomado por súbito interesse) – E como é passar o dia aí dentro?

Zé Paulo – Triste.

Álvares – E as noites?

Zé Paulo – Podem ter a sua graça.
Zé Paulo dá um passo à frente, dirige-se ao público e passa a recitar o início de “Noite na repartição”, de Drummond:
Papel,

respiro-te na noite de meu quarto,

no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.

Até quando, sim, até quando

te provarei por única ambrosia?

Eu te amo e tu me destróis,

abraço-te e me rasgas,

beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!

Álvares (caindo em si) – Então era nisso que eu me transformaria se não fosse poeta? Um bacharel, um escrivão, um notário, um tabelião… Ainda bem que a Poesia entrega à Morte os melhores filhos… (pára, hesita, tenta se lembrar de alguns versos) Eu deixo a vida… como deixa o… deserto… (olha em volta; repete) Eu deixo a vida como deixa… o pó… Não, o poente… o poento… pesadelo… (esquece, se angustia)… Não lembro… Não lembro do poema…

Zé Paulo – Calma, Álvares…

Álvares – Eu não lembro!

Zé Paulo – Calma!

Álvares (gritando) – Mas eu não lembro!

Zé Paulo (também gritando) – Calma! O poema se chama “Lembrança de morrer”… Está em qualquer antologia escolar. É só ler e decorar outra vez.

Álvares – Você disse lembrança de morrer? Lembrança de morrer? Mas então estou morto mesmo! Droga! A morte me tirou a memória… (pausa) Quer saber de uma coisa?

Zé Paulo – O quê?

Álvares – A morte é uma merda! Com ela, não me tornei nem uma coisa nem outra. Nem poeta nem bacharel em direito…

Zé Paulo – Tudo bem. Você escapou dessa.

Álvares (baixinho) – Pra melhor?

Zé Paulo (impaciente, agarra Álvares pelo braço e passa a conduzi-lo) – Sim, pra melhor, pra melhor…

Álvares – Aonde vamos?

Zé Paulo – Sair por aí. Você precisa mudar de ares, respirar um pouco, se acostumar com a cidade para…

Álvares – Para?

Zé Paulo – Nada. Só se distrair um pouco…

Álvares – Fausto e Mefistófeles também se distraíram como nós…

Zé Paulo – Eu, pelo menos, não cheguei a vender a minha alma.

Álvares – É que já não a compram como antigamente.

Zé Paulo – Ah, e como compram, Álvares! Você não imagina…

Álvares – Você que diz que também é poeta, certamente é bacharel…

Zé Paulo – Não. Posso ter tido muitos defeitos, mas bacharel em direito nunca fui… Fiz um curso técnico de química. Depois passei o resto da vida fabricando pequenos venenos.

Álvares – Como? Então é possível ser poeta sem ser bacharel em leis?

Zé Paulo – Nesse ponto, o país progrediu muito.

Álvares – Não consigo acreditar. Recita-me um de teus venenos.

Zé Paulo – Não sei recitar.

Álvares – Como!?

Zé Paulo – Não sei recitar. Pra mim o poema é como medicina, só uso quando necessário.

Álvares – E você não está doente agora?

Zé Paulo – Não. A sua companhia me faz bem. Até de minha perna esqueci… (pausa) Posso lhe perguntar uma coisa: como é do lado de lá?

Álvares – Do lado de lá?

Zé Paulo – É.

Álvares (olhando em volta e afetando conhecimento) – Não muito diferente.

Zé Paulo – Não muito diferente?

Álvares – Não.

Pausa.

Zé Paulo – Mas o que você fez esses anos todos?

Álvares – Andei pelos corredores, fumei um tanto, cuspi pra cima… e estudei um pouco.

Zé Paulo – Estudou? Que tipo de coisa?

Álvares (hesitante) – Não sei, acho que… botânica! Quando fecho os olhos só vejo bulbos e raízes.

Zé Paulo – Bulbos e raízes?… Faz sentido. E havia bichos?

Álvares – Baratas, camundongos… No começo muitos, depois não mais…

Zé Paulo – E era tudo escuro o tempo todo?

Álvares – Não, havia o dia e a noite… Havia muitas outras coisas. Não consigo me lembrar dos detalhes…

Zé Paulo – Do conhecimento só fica aquilo que se usa.

Álvares – Como?

Zé Paulo – Só fica aquilo que se usa.

Álvares – Não entendo… Isso soa como desculpa esfarrapada.

Zé Paulo – Pode ser um farrapo, mas não é uma desculpa.

Álvares – Não lembro sequer dos meus versos…

Zé Paulo – Tanto melhor.

Álvares – Por quê?

Zé Paulo – Porque quando voltar a se lembrar, eles lhe parecerão novos.

Álvares – Não tem graça.

Zé Paulo – Desculpe, Álvares, não tenho muita paciência para explicar as coisas. É outro dos vícios que adquiri com a poesia moderna… Olhe que coincidência. Viemos dar justamente aqui… Lembra-se?

Álvares – O largo do Piques!

Zé Paulo – O largo da Memória!
Ambos circulam a pirâmide de granito do Piques. Cada um murmura, conversando ao mesmo tempo consigo e com o outro.

 
Álvares  – Deste eu me lembro.

Zé Paulo – A pedra não tem culpa do que lhe fazem.

Álvares – Não traz nenhuma inscrição. O chafariz não está mais…

Zé Paulo – Tivemos muitos problemas com a água…

Álvares – Ou mudaram-no de lugar…

Zé Paulo – Por aqui as coisas sempre mudam dos lugares.

Álvares (olhando em volta) – Pelo visto para pior…

Zé Paulo – O humor, quando não vem cedo na vida, vem tarde.

Álvares – Uma frase e tanto.

Zé Paulo – Levei anos para pô-la em prática. Quando eu era moço, achava que a poesia era toda séria.

Álvares – Ah, só na fachada…

Zé Paulo – Você está falando sério?

Álvares – Nem um pouco.

Silêncio.

Álvares – Você vem muito por aqui?

Zé Paulo – Não, faz tempo que não venho ao centro. A perna…

Álvares – Pena…

Zé Paulo – Nem tanto. Eu tenho outros divertimentos.

Álvares – Secretos?

Zé Paulo – E públicos.

Álvares – Como, por exemplo…

Zé Paulo – Traduzir.

Álvares – Traduzir?

Zé Paulo – É. Traduzo o que é secreto no público e a ação pública na privada.

Álvares – Bobagem. Você é uma vítima dos trocadilhos… Já que gosta tanto de jogar, me diga: se este é o centro, o que há na borda?

Zé Paulo – Outros bairros, outras barras, muitas borras.

Álvares – Lá vem você de novo.

Zé Paulo – Não, Álvares, aqui você é que é o novo e eu sou o velho… Mas eu gostaria de lhe mostrar alguém mais velho do que eu, alguém que mora na Barra Funda… (Tomando Álvares pelo braço) Vamos! O metrô fecha à meia-noite.

Os dois partem ao encontro de Mário de Andrade.

Alberto Martins
Alberto Martins

Escritor e artista plástico, é autor do livro de poemas Em Trânsito (Companhia das Letras) e da novela Lívia e o Cemitério Africano (Editora 34), entre outros

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