questões epidemiológicas

O epicentro é mais embaixo

Covid-19 avança no Sul e região se transforma em novo foco da pandemia; número de casos e óbitos duplicou em menos de um mês

Felippe Aníbal e Plínio Lopes
25jun2020_18h33
Foto: Vinícius do Prado/Agência F8/Folhapress

“Hoje eu tô com a máscara [estampada com a imagem] da Nossa Senhora, porque é só Nossa Senhora pra nos ajudar a partir de agora, gente. A situação está ficando complicada”, disse a secretária de Saúde de Curitiba Márcia Huçulak, iniciando a live do último dia 8 de junho, em que detalhou os números do boletim epidemiológico de Covid-19 do município. Na ocasião, a capital paranaense acumulava 61 mortes e 1.352 casos confirmados do novo coronavírus. Huçulak endureceu o tom e deu uma bronca em comerciantes e na população em geral. “O que falta para as pessoas entenderem que estamos no meio de uma pandemia?”, disse, com rispidez. Duas semanas e meia depois, o número de mortes dobrou para 120 e os casos chegaram a 3.773. Curitiba é só mais um exemplo. Com a interiorização do novo coronavírus, a partir de junho, a região Sul caminha para se tornar um novo epicentro da pandemia no Brasil.“A onda na região Sul chegou”, admitiu Huçulak na última terça-feira (23).

Ao longo de junho, duplicou o número de casos e mortes por Covid-19 na região, segundo dados das Secretarias de Saúde dos três estados.No Paraná, os óbitos cresceram  mais de uma vez e meia este mês, saltando de 190 para 510. Os casos confirmados mais que triplicaram, chegando à casa dos 16,8 mil, de acordo com boletim epidemiológico de 24 de junho. Em Santa Catarina, já são 279 mortos, ante 146 no início do mês, e o número de pessoas contaminadas pulou de 13,1 mil para 20,9 mil, segundo boletim de 24 de junho. Estado da região com maior número absoluto de casos, 22 mil confirmados, o Rio Grande do Sul viu o número de óbitos saltar de 232 para 500 em junho. Os números da Covid-19 no Sul ainda estão bem abaixo dos verificados em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas. O que a evolução da doença mostra, porém, é que, diferentemente do que parte da população e dos governantes da região acreditava, o Sul não ficará imune à Covid-19. No Paraná, o governo dizia que não havia subnotificação, mesmo com o número  de mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) chegando a seis vezes o registrado no mesmo período do ano passado.

O monitoramento da Covid-19 mantido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) indica a região Sul como novo foco da pandemia no Brasil. Adaptado a partir de modelos estatísticos internacionais usados em epidemias, como as de H1N1 e de ebola, a plataforma se baseia na taxa de reprodução ou transmissibilidade do vírus, ou seja, para quantas pessoas cada contaminado, em média, transmite o vírus. Coordenador dos estudos, o professor Wagner Bonat explica que localidades que tenham índice menor ou igual a 1 estão em processo de queda ou estabilização da curva. Em contrapartida, em regiões em que o indicador é maior que 1, o vírus está em processo de disseminação.

Hoje, a taxa de transmissibilidade da região Sul é de 1,37. Isso significa que cada três pessoas com Covid-19, em média, vão contaminar outras quatro. No Paraná, o índice de junho já bateu pico de 1,62 e agora está em 1,39. Em estados que já foram focos de disseminação da doença, como Amazonas, São Paulo e Rio de Janeiro, o indicador é hoje, respectivamente, 1,01, 1,03 e 1,22. “O Sul é a região em que os níveis de transmissão estão mais em ascensão e, aparentemente, deve ser o novo foco da pandemia, nos próximos dez dias”, disse Bonat. “Depois do Sul, podemos esperar também que a região Centro-Oeste se torne um foco expressivo”, acrescentou. 



Em 13 de junho, a prefeitura de Curitiba anunciou que mudaria seu protocolo da bandeira amarela (baixo risco) para a laranja (risco intermediário). Com isso, ficariam fechados academias, igrejas, praças e parques, além de bares e casas noturnas. No entanto, ao mesmo tempo em que autoridades municipais passaram a falar mais alto sobre a doença, houve recuos e concessões a alguns setores da economia. Ainda na noite de 13 de junho, funcionários, frequentadores e donos de academias fizeram uma manifestação em frente ao prédio em que mora o prefeito Rafael Greca (DEM). Já na segunda-feira (15), os manifestantes voltaram a se aglomerar na frente da prefeitura. Greca aceitou avaliar a possibilidade de reabertura desses espaços esportivos. Nesse meio tempo, mesmo sem alteração no decreto, academias voltaram a funcionar. Quatro dias depois, com o avanço dos casos, o prefeito manteve o fechamento em novo decreto. Mesmo assim, a prefeitura descartou o lockdown em Curitiba. “Estamos na bandeira laranja. Cada um fazer sua parte é bem importante […]. Vidas não voltam”, disse a secretária de Saúde.

Hoje, apesar da bandeira laranja, os shoppings e galerias continuam abertos (exceto aos fins de semana), e os restaurantes puderam reabrir em horário estendido, atendendo à noite. O comércio funciona de segunda a sexta-feira, das 10 às 16 horas. Só no último fim de semana, uma ação de fiscalização deflagrada pela prefeitura visitou setenta estabelecimentos, dos quais 38 foram interditados por estarem funcionando em desacordo com o decreto – a maioria bares, que sequer poderiam estar abertos. Presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar), Fábio Aguayo reclamou da rigidez e disse que a entidade está preparando ações judiciais alegando abuso de autoridade por parte do poder público. “A cidade está vivendo uma caça às bruxas. Você não vê o mesmo rigor em relação a praças e terminais de ônibus. Só para quem tem CNPJ”, disse. “Os bares têm condições de funcionar com segurança, mantendo distanciamento entre os clientes. Agora, se está grave, fecha pra todo mundo. Não adianta privilegiar ‘a’ ou ‘b’”, acrescentou. A taxa de ocupação dos leitos de UTI na cidade chegou a 83% nesta quarta-feira (24). Ela estava na faixa de 52% no começo do mês. Já o índice de isolamento social continua abaixo dos 40%.

O número de casos confirmados e a ocupação das UTIs não contam a história inteira. Muitas pessoas que apresentam sintomas característicos da Covid-19 não conseguem fazer o teste em Curitiba. Na madrugada desta quarta-feira (24), o bacharel em direito Marcelo Piacecki e sua mãe, Marisa, recorreram a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) depois que ela teve febre alta, cansaço e dificuldade extrema para levantar e realizar atividades básicas, como ir ao banheiro ou buscar um copo de água. Os dois apresentaram sintomas de Covid-19 na sexta-feira (19), mas durante o fim de semana melhoraram, o que fez com que decidissem buscar o teleatendimento da Prefeitura de Curitiba. “Minha mãe buscou atendimento via telefone, por meio da central de atendimento à Covid-19 de Curitiba. Comprometeram-se a ligar a cada 48 horas, porém não chegaram a ligar de volta nenhuma vez”, conta Piacecki.

Na UPA, ela passou por uma triagem e foi atendida por um médico. Saiu de lá com prescrição para tomar tamiflu e azitromicina – nenhum dos dois é indicado para o tratamento do novo coronavírus. Ele não foi atendido, porque seus sintomas já haviam sumido. “Durante a consulta, requisitamos de maneira insistente [o teste para mim e para minha mãe]. O médico, manifestamente constrangido, contou-nos que, por indicação superior, não seria possível a realização do exame”, explicou Piacecki, interrompendo a entrevista porque sua mãe estava se sentindo mal. 

Casos como o de Piacecki e da mãe, que sequer foram testados, podem esconder subnotificação. Outro fator que também pode indicar subnotificação é o aumento no número de casos e mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Dados da plataforma OpenDataSUS, do Ministério da Saúde, compilados até o dia 16 de junho, mostram que Curitiba notificou 4,1 mil casos de SRAG desde o começo do ano. Destes, 730 foram confirmados como casos do novo coronavírus, 274 como outros vírus e agentes etiológicos e outros 328 estavam em análise. Ou seja, a cidade acumula 2.773 casos de SRAG não especificada (que não teve uma causa definida). Isso é mais que o dobro de todos os casos notificados em todo o estado do Paraná no mesmo período do ano passado. Existem ainda 426 mortes por SRAG não especificada na cidade.

A notificação de casos de SRAG é obrigatória no Brasil. O sistema foi criado para monitorar o vírus influenza, que causa a gripe, mas se mostrou um indicador importante para entender os casos de Covid-19 e uma possível subnotificação. A piauímostrou que os casos de SRAG sem causa determinada subiram em todo o país. E na região Sul não é diferente. Desde o começo da pandemia até o dia 23 de junho, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul notificaram, juntos, 22,7 mil casos e 4 mil mortes por SRAG. Destes, pelo menos 10 mil casos e 2,9 mil mortes foram por SRAG sem causa determinada. Para efeito de comparação, os três estados somaram, no mesmo período do ano passado, 5,1 mil notificações e 500 mortes por SRAG. Destas, 2,3 mil casos e 330 mortes foram registradas como SRAG não especificada. E esse número cresceu principalmente no mês de junho deste ano. O boletim epidemiológico do Centro Estadual de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Sul admite o aumento no número de SRAG. “Hospitalizações por SRAG tiveram aumento abrupto quinze dias após o primeiro caso confirmado […]. No mês de maio a velocidade foi estável. Há aceleração expressiva a partir do início do mês de junho”, diz o documento.

Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o número de óbitos quase dobrou em junho – saltando de 39 para 73 – levando a prefeitura a adotar medidas restritivas mais severas nesta semana. A exemplo do que já tinha ocorrido em março, a capital gaúcha voltou a fechar comércio e indústrias, além de restringir a prestação de serviços. De acordo com o decreto, bares, lanchonetes e restaurantes só podem funcionar em sistema de delivery ou para retiradas no balcão. Os shoppings ficam fechados, com exceção de pontos de serviços essenciais, como farmácias e agências bancárias ou dos Correios. As academias só podem receber um aluno por vez. Missas e cultos podem ser realizados, com limite de trinta fiéis por celebração. 

Os casos na região Sul não estão restritos às capitais, o que ilustra o processo de interiorização da pandemia. Cascavel, cidade de 328 mil habitantes no Oeste do Paraná, o número de óbitos se multiplicou por cinco desde o início de junho, chegando a 37 mortes. Além de ser o município paranaense com mais de 10 mil habitantes que tem o maior número proporcional de casos, Cascavel está com sua estrutura hospitalar à beira do colapso, com ocupação de 96,6% dos leitos de UTI reservados para pacientes de Covid-19. A gravidade pode ser ainda maior. Desde o início da pandemia até 16 de junho, foram registrados 698 casos e 94 mortes por SRAG. Destas, 321 casos e 66 mortes foram classificadas com SRAG não especificada.

“Os hospitais estão na iminência de não terem mais sedativos para trabalhar e fazer a intubação dos pacientes. Isso é uma grande preocupação. Agora é hora de aguardar as recomendações do COE [Comitê de Operações de Emergência] estadual e da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) e aí fazer as análises necessárias”, disse o secretário de Saúde de Cascavel, Thiago Stefanello, no site da prefeitura.

Com a disparada dos casos, o Ministério Público do Paraná (MP-PR) ajuizou uma ação civil pública pedindo a decretação de lockdown em Cascavel,  mas a liminar foi negada pela Justiça. Apesar disso, a prefeitura decretou o fechamento total dos estabelecimentos comerciais da cidade, ao longo do último fim de semana – 20 e 21 de junho. Apenas serviços essenciais e entrega de alimentos, gás de cozinha, medicamentos, produtos de higiene e ração ou remédios para animais foram permitidos. Nos dias de semana, a prefeitura restringiu horário de funcionamento do comércio e estabeleceu toque de recolher a partir das 20 horas. 

Em Santa Catarina, Joinville – cidade com 590 mil moradores – é a recordista em número de óbitos causados pela Covid-19. Em junho, o número de mortes aumentou em um terço, de 22 para 33. Só nesta semana é que a prefeitura determinou o uso obrigatório de máscaras – o que, antes, era apenas recomendado. Além disso, pessoas com 60 anos ou mais terão que ficar em isolamento social obrigatório, em casa, e só poderão estar nas ruas em deslocamento para comprar alimentos, atendimento de saúde ou para ir ao trabalho. Em Itajaí, a escalada do número de mortes fez com que a prefeitura também adotasse medidas restritivas, entre as quais a proibição de acesso a espaços públicos, inclusive às praias. Apesar de a polícia ter feito um bloqueio nas vias de acesso à Praia Brava – uma das mais badaladas – circularam na internet fotos mostrando a orla lotada de frequentadores, no último sábado (20). O município já soma trinta mortes decorrentes do novo coronavírus. 

Florianópolis, a capital, era praticamente uma exceção. Com população de cerca de 478 mil habitantes, adotou medidas restritivas no transporte público e no comércio e tinha ficado mais de um mês sem registrar mortes por Covid-19 – de 4 de abril a 5 de junho. Deste então, o número de óbitos subiu de 7 para 13. A cidade é a terceira em número de óbitos no estado. Em reação ao aumento de casos, a prefeitura tornou obrigatório o uso de máscaras e determinou o fechamento de shoppings e academias, mas as medidas restritivas foram alvo de manifestações promovidas por associações e sindicatos dos setores de lojas, bares e academias.

Enquanto o Sul contabiliza casos e mortes, para quem enfrenta a certeza ou a suspeita de Covid-19, a sensação é de revolta e incerteza. O curitibano Piacecki, que interrompeu a entrevista para socorrer a mãe, telefona de volta. Relata mais dois sintomas que, somados a uma lista de doze sinais, entre febre, tosse seca e dificuldade para respirar, estão relacionados à doença: perda de olfato e diarreia. “Meu coração sussurra no meu ouvido fúria e tristeza. Sinto ódio de tudo que não foi feito até agora. Sinto ódio da displicência de todos. Principalmente, claro, daqueles responsáveis pelas decisões macropolíticas, que são pra mim os maiores responsáveis pelo caos instaurado”, desabafa Piacecki. “As decisões das esferas municipal, estadual e, sobretudo, federal me causam nojo. Sinto pena e compaixão pelos médicos e enfermeiros do país, como se esses literalmente fossem soldados enviados a uma guerra pela qual não têm culpa, tampouco escolha”, finaliza.

Felippe Aníbal (siga @felippeanibal no Twitter)

Repórter freelancer em Curitiba.

Plínio Lopes (siga @Plluis no Twitter)

Repórter freelancer, trabalhou na Agência Lupa e é especializado em jornalismo de dados e fact-checking

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