questões da política

O desengavetador da República

A menos de quatro meses de deixar o cargo, o procurador-geral Rodrigo Janot acelera ao máximo a conclusão de inquéritos e delações da Lava Jato para evitar reviravoltas nas mãos de seu sucessor

Malu Gaspar
02jun2017_11h49
Janot sabe ser incapaz de fazer seu sucessor, como admitiu a amigos. Qualquer candidato seu seria metralhado na sabatina do Senado. FOTO: MARCELO CAMARGO_AGÊNCIA BRASIL
Janot sabe ser incapaz de fazer seu sucessor, como admitiu a amigos. Qualquer candidato seu seria metralhado na sabatina do Senado. FOTO: MARCELO CAMARGO_AGÊNCIA BRASIL

Quem calcula que são altas as chances que o presidente Michel Temer tem de melar a Lava Jato – seja pelo tom defensivo de seu novo ministro da Justiça, seja pela vantagem de ter a seu serviço todo o Executivo e alguns magistrados – deveria pensar numa variável que, nos próximos meses, fará bastante diferença no clima político nacional: a sucessão de Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República. O mandato de Janot termina em 17 de setembro e, embora ele tenha afinidades com alguns dos oito postulantes ao cargo, nenhum deles é considerado seu substituto natural. Por isso, o núcleo duro de Janot na força-tarefa da Lava Jato está seguindo à risca uma estratégia estabelecida desde o início do ano: acelerar ao máximo os trabalhos para concluir tudo o que for considerado importante antes do início do reinado do próximo mandatário.

Por tudo, entenda-se tudo mesmo. Os acordos possíveis de delação serão fechados; inquéritos serão encaminhados para abertura imediata; e investigações de denúncias ainda pendentes serão concluídas. Janot não quer deixar para trás nada que for relevante. O sprint deve fazer eclodir novos abalos no mundo político e econômico.

A delação mais importante dessa reta final é a de Antonio Palocci, cérebro financeiro das campanhas de Lula e o ministro petista mais querido do empresariado – um carinho que, sabe-se hoje, não era apenas fruto de suas habilidades como gestor e político. A colaboração da OAS – acusada de presentear o ex-presidente Lula com um tríplex no Guarujá – também está no forno. E os espectros do ex-assessor especial do Gabinete Pessoal da Presidência e homem da mala Rodrigo Rocha Loures, assim como o de Lúcio Funaro – apontado como operador de Eduardo Cunha no mundo das propinas – ainda ameaçam o Palácio do Planalto. Temer sabe das prioridades da Lava Jato – e da gana de Janot. Daí a urgência em desmontar a operação, expressa mais recentemente pela nomeação de um ministro da Justiça que admite intervir na Polícia Federal.

A tarefa de Janot não é trivial. Além das delações em negociação e em curso, estão pendentes as denúncias de todos os inquéritos derivados da delação com a Odebrecht (78 delatores que citaram dezenas de parlamentares e quatro ex-presidentes da República: Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso), do marqueteiro João Santana, que detalhou os meandros do caixa dois nas campanhas de Lula e Dilma, e de alguns remanescentes da primeira “lista do Janot”, divulgada ainda em 2015. Sem contar os desdobramentos da delação da JBS, que atingiram diretamente Michel Temer e seu entorno depois da bombástica gravação de Joesley Batista em conversas com Temer, Aécio Neves e seus satélites políticos.

Para dar conta de todo esse trabalho, o procurador vai precisar movimentar alguns moinhos. Seus braços no Ministério Público devem trabalhar dobrado para concluir as denúncias. Ele ainda espera que a Polícia Federal aja de forma mais rápida do que o ritmo atual para finalizar os inquéritos. Um trabalho cartorial pesado.

Nada garante que, apesar do esforço, Janot não deixe assuntos importantes na lista de pendências para o próximo dono da cadeira. O temor é que o neo-ocupante do cargo seja leniente ou que encerre processos importantes sem muito esforço. Em anos passados, a PGR foi bastante criticada por sua aversão às denúncias. Um de seus titulares, o jurista Geraldo Brindeiro, chegou a ser apelidado de “engavetador-geral da República”.

A decepção de Janot em não conseguir fazer seu sucessor não é uma surpresa. Era de se esperar que o homem que conduziu parte fundamental da mais importante operação de combate à corrupção já engendrada no Brasil tivesse dificuldades, como ele próprio admitiu a amigos. Qualquer candidato seu seria metralhado pelos senadores na sabatina comandada por eles próprios, rito obrigatório para os postulantes à vaga. Ciente de que sua influência política na questão é do tamanho da cabeça de um alfinete, resta a Janot trabalhar para engordar seu próprio legado. E claro: caso Temer seja abatido no último metro de pista, o procurador não vai achar nada mal.

Malu Gaspar (siga @malugaspar no Twitter)

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

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